Prémio de Cultura Árvore da Vida - Padre Manuel Antunes
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Prémio Árvore da Vida - Padre Manuel Antunes

A sociedade aguarda um grande contributo cultural da Igreja

"Na região respeita-se o trabalho discreto, aplicado e constante, e há pouca estima pelos falsos profetas. Os alentejanos sabem distinguir a cigarra da formiga. É preciso ter persistência e solidariedade para resistir num meio em que a própria natureza impõe duramente as suas regras."

O Director do Departamento do Património Histórico e Artístico da diocese de Beja, José António Falcão, e os membros da sua equipa respondem por e-mail a dez perguntas do Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura.

Que importância atribui ao facto de a Diocese e o Departamento receberem o Prémio, distinção atribuída pelo Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura mas que significa o reconhecimento da Igreja portuguesa?
Esta distinção nacional constitui a melhor recompensa que poderíamos esperar, na conjuntura actual, para o nosso trabalho. Trata-se de um prémio emblemático a vários títulos. Em primeiro lugar, pelo reconhecimento que significa, por parte da Igreja portuguesa, através de uma prestigiada comissão da Conferência Episcopal, ao trabalho desenvolvido pela Diocese de Beja em prol do património religioso – um trabalho pensado dentro e ao serviço da comunidade eclesial. Depois, pelo facto de estar associado ao nome do P.e Manuel Antunes, S. J., figura de referência da cultura do século XX, cujo magistério deixou profundas marcas em sucessivas gerações. Finalmente, por ter sido outorgado, nos anos precedentes, a figuras de referência da cultura do país.

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Considerando tudo isto, estamos muito satisfeitos e muito honrados, mas não posso deixar de assinalar que sentimos sobre os ombros um peso enorme. Porém, o facto de ser a Árvore de Vida a dar o título principal e a servir de inspiração de fundo ao Prémio traz-nos um pouco de alento para assumirmos tamanha responsabilidade. É um sinal de esperança. Não esquecemos que os alentejanos têm uma grande veneração à Santa Cruz e reconhecem nela, desde os primórdios de Portugal, um dos seus sinais de identidade. Este aspecto, aliado aos demais que mencionei, não deixou de causar viva impressão na equipa do Departamento do Património Histórico e Artístico [DPHA].
Há um texto extraordinário do Livro do Apocalipse que sempre me intrigou, mesmo quando o vi glosado por argutos exegetas: “No meio da praça da cidade e nas margens do rio está a árvore da Vida que produz doze colheitas de frutos; em cada mês o seu fruto e as folhas da árvore servem de medicamento para as nações.” Estas palavras de São João vieram-nos à mente, aos meus colegas e a mim, quando chegou a Beja, por discreto telefonema do P.e José Tolentino Mendonça, a notícia da atribuição do Prémio ao Departamento. O mundo é um enigma visto através de um espelho. A razão, o sentimento, a fé conduzem-nos até ao portal do mistério. Para nós, a distinção outorgada pelo Episcopado faz parte desta teia em que confluem o visível e o invisível. Ajuda a iluminar-nos, aqui e agora, o caminho.

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Desde a fundação até esta altura, o trabalho desenvolvido pelo Departamento tem sido reconhecido pela Diocese de Beja (presbitério, religiosos, leigos) e pela Igreja portuguesa?
Nascido em 1984 por iniciativa de um bispo de notável envergadura pastoral e cultural, D. Manuel Franco Falcão, o Departamento tem contado sempre com o apoio dos responsáveis da Diocese. Este é um sentimento partilhado pela comunidade diocesana a que pertencemos. Só assim se explica a vida já longa do nosso serviço – mais de um quarto de século –, algo pouco habitual no âmbito da cultura, em que surgem facilmente iniciativas que são propagadas aos quatro ventos e morrem passado algum tempo. Na região respeita-se o trabalho discreto, aplicado e constante, e há pouca estima pelos falsos profetas. Os alentejanos sabem distinguir a cigarra da formiga. É preciso ter persistência e solidariedade para resistir num meio em que a própria natureza impõe duramente as suas regras.
Trabalhámos com D. Manuel durante quinze anos, encontrando sempre a sua porta aberta. Em momentos de hesitação, por exemplo quando foi necessário assinar os primeiros protocolos de colaboração com o Ministério da Cultura, manteve-se firme na condução da barca, mesmo quando existiam pressões quase insuportáveis de fora. Em Beja existe um enorme, generalizado respeito pela sua visão equilibrada e profunda da vida e das coisas do espírito, o que o coibiu de juntar a sua voz às de outros sectores da sociedade alentejana quando estavam em perigo interesses fundamentais. O DPHA deve-lhe imenso, pois confiou numa estrutura surgida praticamente do nada e apoiou o seu crescimento ao longo de um caminho nem sempre fácil.
Engenheiro de formação, com um trabalho pioneiro no campo da sociologia religiosa, D. Manuel acompanhou de perto as actividades do Departamento, apreciando o nosso esforço para unir, às vezes no meio de atribulações, a componente técnico-científica e a dimensão pastoral. A experiência que trouxe do Patriarcado, onde dirigiu o Secretariado das Novas Igrejas e coordenou uma intensa acção pastoral, foi-nos deveras útil. Em 2009, quando cumprimos vinte e cinco anos de actividade ininterrupta, achámos que era de toda a justiça dedicar-lhe o projecto “Silêncio”, uma iniciativa de carácter ecuménico no campo da música sacra, com a participação de compositores de renome internacional – Ivan Moody (ortodoxo), Andrew Smith (anglicano) e João Madureira (católico). Assente no revisitar de momentos-chave da Bíblia e da tradição medieval, “Silêncio” despertou o entusiasmo do público e da crítica. Isto deixa-nos felizes, pois o projecto corresponde a ideias caras à nossa Diocese.

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D. António Vitalino Dantas, que assumiu a cátedra pacense em 1999, é outra referência do nosso trabalho. Vem-nos ajudando muito com a sua visão objectiva, pragmática e desprendida das coisas, uma característica da espiritualidade carmelita, tão presente ainda no Alentejo. Adepto das novas tecnologias, que conhece pormenorizadamente, é sensível à importância do diálogo com a cultura contemporânea, algo essencial num mundo em rápida transformação. O facto de ter estudado e trabalhado na Alemanha, primeiro, e numa grande paróquia da periferia de Lisboa, depois, deu-lhe uma visão global, descontraída e humanista dos problemas. O seu conselho – e o dos seus colaboradores mais directos – ajudam a optimizar os poucos recursos de que dispomos, orientando-os para a sociedade mais alargada. Trata-se de uma preocupação presente no dia-a-dia de D. António, um bispo que conhece os “dossiers” da região e é sensível à importância de pensar em termos globais para agir depois localmente. Pessoa próxima e acessível, nunca lhe faltam palavras fraternas para quem delas precisa.
Em relação às outras estruturas da Igreja, ao nível nacional, temos encontrado simpatia, para não dizer respeito, pelo trabalho efectuado no Baixo Alentejo. Várias dioceses mostraram interesse em conhecer mais de perto esta experiência. Já recebemos estagiários de algumas delas. O mesmo sucede com a Pontifícia Comissão para os Bens Culturais da Igreja, que acompanha de perto as nossas actividades e apoiou iniciativas extremamente importantes para Portugal, como a exposição que efectuámos em Roma, na sequência do Jubileu de 2000. Temos participado discretamente nas actividades do Secretariado Nacional dos Bens Culturais da Igreja, onde eu próprio desempenhei em tempos as funções de director-adjunto. Ficamos contentes por saber que o que se faz na Diocese de Beja é apreciado e pode revelar-se útil também noutras paragens.
Vivemos num mundo sem fronteiras estanques e as causas da cultura e do património têm tudo a ganhar com uma colaboração mais alargada. O tempo dos egoísmos já passou. Uma certa visão míope dos interesses regionais e locais, assente na inveja pacóvia, na imitação, na megalomania, na concorrência desenfreada prejudicou enormemente a valorização da herança cultural portuguesa. Somos poucos para defender um conjunto de valores em risco e é imperioso que actuemos num espírito de unidade quanto ao essencial.

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Quais têm sido as maiores dificuldades e incompreensões no trabalho do Departamento?
O Departamento surgiu durante um contexto algo difícil, no rescaldo dos anos quentes que se seguiram a 25 de Abril de 1974 e tiveram grande repercussão no Alentejo. Aliás, os motivos mais imediatos que levaram à fundação deste organismo procuraram responder a problemas delicados: a subida exponencial do número de furtos de arte sacra, incluindo o desaparecimento de obras-primas, como a imagem em pedra de Santa Maria da Cola, em Ourique, um peça notável do Gótico, de grande veneração popular, cujo roubo traumatizou a opinião pública; e a realização de obras pouco criteriosas ou, pior ainda, de pseudo-restauros em igrejas, por falta de preparação dos párocos e das comissões fabriqueiras, incluindo por vezes a alienação indevida (e até escandalosa) de peças patrimoniais. Foi necessário combater estes flagelos com inteligência. D. Manuel Franco Falcão e as câmaras municipais da nossa região deram um contributo oportuno nesse sentido, ajudando a superar a tirania dos santeiros e do amadorismo. Pugnámos sempre para que só pudessem actuar no património técnicos qualificados.
De início, encontrou-se alguma hesitação por parte das comunidades, muitas das quais se tinham habituado a viver em autocracia, sem a noção do que é pertencer a uma diocese. Pouco a pouco, no entanto, o trabalho foi-se impondo, especialmente devido à dimensão pedagógica que o Departamento sempre procurou incutir às suas actividades, um aspecto aprendido com um pioneiro no campo da arte sacra, o Pintor José Bénard Guedes, que realizou grande parte do inventário artístico do Patriarcado de Lisboa, na qualidade de vogal da Comissão de Arte Sacra desta diocese. Eu e outros membros da equipa de Beja aprendemos muito com ele e estamos gratos pelos conselhos que nos deu. Um deles teve que ver precisamente com a necessidade de esclarecer e informar as paróquias sobre os bens que possuem. Na área do património cultural, de pouco serve impor se as pessoas não aderirem e não se organizarem.

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Quando as comunidades sentiram que havia um conjunto de voluntários disponível para as ajudar, abriram-se e principiaram a cooperar com normalidade. Aconteceu o mesmo em relação ao poder local. Por vezes surge um ou outro problema, nada que não se resolva numa linha de diálogo. É indispensável ter-se espírito de serviço, o que implica, além de um bocadinho de modéstia, encontrar tempo para ouvir os outros e compreender as suas inquietudes. Os alentejanos, crentes e não-crentes, possuem enorme orgulho no seu património religioso, vendo nele um dos fios condutores da identidade regional. Existe um evidente apreço pelo esforço do Departamento para estudar, preservar e valorizar as igrejas históricas e os seus acervos. É uma iniciativa transversal à região. Sabemos que não estamos sozinhos e que muita gente acompanha com atenção o que fazemos. Isto dá-nos ânimo, mesmo em momentos difíceis – como aconteceu neste Inverno, cujo rigor causou enormes problemas em vários edifícios.
A principal dificuldade sentida pelo Departamento prende-se com o processo de rarefacção humana que o nosso território atravessa. Tal como acontece em muitas outras zonas do interior, o Baixo Alentejo ressente-se das consequências do abandono do mundo rural. Sem pessoas não é plausível conservar a herança cultural que nos foi transmitida e temos a obrigação de fazer perdurar, se possível enriquecida com os testemunhos contemporâneos. A maior batalha, aqui, tem que ser pelo desenvolvimento regional. Corremos o risco de se quebrar a continuidade. O património cultural tem que ser visto, não como um ónus, mas como uma mais-valia, um dos recursos decisivos para o crescimento sustentável da região. À Igreja cabe aqui um papel importantíssimo. Se deixarmos perder os santuários rurais, o que sucede a um ritmo acelerado, confrontamos as populações com o abandono do derradeiro baluarte. Nos centros históricos, habitados maioritariamente por idosos, acontece algo similar. As nossas gentes são muito sensíveis a estes aspectos. É também por isso que não podemos cruzar os braços e abandonar os monumentos religiosos, mesmo aqueles que já não têm hipótese de servir para o culto.

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Mesmo em tempos de crise há realidades favoráveis. O Alentejo está a evoluir de forma positiva e existem indicadores que levam a esperar um futuro melhor. Sines, Alqueva, o aeroporto de Beja, as novas vias ferro e rodoviárias, o incremento de nichos concretos da agricultura, da indústria transformadora e do turismo são, entre outros, sinais de esperança. A questão está em conseguir que o património atravesse a fase actual e sobreviva ao longo período de carência que nos foi dado viver.
Não há que ter medo das incompreensões quando se tem a casa arrumada e há um espírito de serviço público. No entanto, defrontamo-nos com alguns problemas difíceis de ultrapassar. Um deles prende-se com a falta objectiva de meios. Nos sítios onde existem habitantes, as pessoas têm geralmente a capacidade de se organizar, enfrentando necessidades concretas dos seus monumentos. É uma questão de mobilização. Mas na nossa região há mais de uma centena de igrejas, muitas delas da maior importância patrimonial, que estão isoladas em pleno campo. Conservá-las representa um desafio enorme, especialmente quando os poderes públicos são indiferentes ao seu destino. Precisamos de conseguir que a sociedade civil se aperceba dos riscos que o património religioso corre e se organize para o salvar. Temos feito um esforço grande para consciencializar a opinião pública do que está em risco, mas os resultados são escassos.
Outra coisa um bocadinho chocante prende-se com a falta de sensibilidade dos serviços técnicos. Se um monumento classificado vier a soçobrar, ninguém deixa de dormir por causa disso. Mas se uma qualquer entidade decidir salvar aquilo que é, antes de mais, responsabilidade do sector público, as dificuldades burocráticas são enormes. Por vezes gasta-se mais energia a conseguir o parecer necessário ao licenciamento de uma obra urgente do que a resolver todos os outros problemas. Temos que modificar esta atitude sobranceira, que desmobiliza o empreendedorismo. É preciso não cruzar os braços e acreditar no valor da persistência e do diálogo. Mas é preciso ter também a coragem de denunciar os obstáculos, especialmente quando estão em causa valores colectivos.

Qual a importância da estética, da arte e do património para a evangelização?
O “homo aestheticus” é indissociável do “homo religiosus”, eis uma realidade tão conhecida pelos historiadores da arte como pelos historiadores do Cristianismo. Este binómio, caracterizado por Hegel nas “Lições de Estética”, mantém intacta a sua força. Como demonstrou Ellen Dissanayake, a arte, elemento-chave da cultura, representa algo essencial ao desenvolvimento e à sobrevivência do homem, correspondendo a uma habilidade inata em cada pessoa – algo tão fundamental para a nossa espécie como o alimento, o calor ou o abrigo de um tecto.

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Surgida no contexto de um império em que se atribuía a maior relevância ao fenómeno estético, inclusivamente do ponto de vista da supremacia política, a Igreja encontrou na arte um meio privilegiado de expressão. Na verdade, após alguns momentos de hesitação, bem compreensíveis quando se pensa no aceso debate entre Paganismo e Monoteísmo, vislumbrou na arte, afinal, uma consequência lógica da misteriosa realidade da Encarnação. Iniciou-se assim a aventura da criação de uma “civilização artística” (realidade plural, dispersa por vários continentes e por diferentes morfologias culturais) que fez da Igreja não só um formidável mecenas, mas também um grande teorizador das artes.
Este legado continua presente no nosso quotidiano, embora se revele, para muitos, um tesouro quase inacessível. De certo modo perdemos a chave que permitia, durante muitas e muitas gerações, compreender a plenitude da sua mensagem. Hoje, temos dificuldade em mergulhar nos significados mais profundos de tal herança porque se perdeu uma linha de continuidade. É desesperante observar como os visitantes das nossas igrejas ou dos nossos museus, mesmo os que possuem uma formação mais atenta, ficam perplexos face aos que lhes é dado contemplar. No entanto, conservamos a ingenuidade do nosso olhar e somos sensíveis aos valores da arte. Hoje como ontem, o mundo precisa desesperadamente de beleza. Não a beleza fugidia do “tempo sem tempo”, mas a beleza que propicia um encontro mais profundo com o ser e com a verdade.
O património religioso mantém intacta a sua magna função como recurso evangelizador, mas não fala por si só, precisa que lhe emprestemos a nossa voz. Um dos grandes dramas da Igreja pós-conciliar foi o de ter esquecido um pouco, sob a compreensível pressão do “aggiornamento”, esta realidade. Trata-se de um esquecimento grave, cujas consequências estão bem patentes no quotidiano do nosso país. Porém, não é uma fatalidade irreversível, bem pelo contrário. O apelo do regresso às grandes fontes da tradição cristã está na ordem do dia. A sociedade aguarda um grande contributo cultural de parte da Igreja, o que, aliás, não representa nada de novo. Só que o tabuleiro em que se movem as pedras do xadrez é, nos primórdios de um novo milénio, muito distinto do que conhecemos. Mudaram inclusivamente as regras do jogo. Mas o coração da humanidade permanece igual. E espera que continuemos a acender fogueiras na noite escura como breu.

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O Departamento tem-se distinguido não só por preservar o património mas também pelo diálogo com as expressões artísticas contemporâneas. Porquê?
Trata-se de uma opção de fundo, que faz parte dos nossos cromossomas. O Departamento integra há muito artistas plásticos na sua equipa, o que o enriqueceu extraordinariamente. A mediação dos criadores contemporâneos ajudou a compreender que a arte, como a cultura, é um fluir constante, capaz de unir o passado, o presente e o futuro. Por vezes existe a tendência para privilegiar uma visão estática do pretérito, mitificando tempos gloriosos. Em Beja apercebemo-nos de que isto poderia empobrecer o nosso trabalho. Mais ainda: aceitámos que a criação deve ser, nas suas múltiplas facetas, o corolário lógico do devir do património em cuja conservação está empenhada a Diocese, trazendo-lhe contributos muito relevantes e permitindo dinamizar monumentos e obras de arte já sem uso regular.
Mas há outras razões profundas. Somos cidadãos do século XXI e pertencemos a comunidades vivas. Faz todo o sentido que, ao reflectirmos sobre as certezas e as inquietudes dos nossos dias, utilizemos a linguagem, os meios expressivos, as formas de comunicação do tempo actual. A integração da criação contemporânea no nosso património é um direito e um dever. Há que fazê-lo com sentido de equilíbrio, sem ceder a modismos nem à tendência, deveras perigosa, do “espectáculo pelo espectáculo”. A arte constitui, mesmo na sua informalidade, algo muito sério, que não é compatível com amadorismos ou improvisações, designadamente quando pensamos em espaços monumentais dotados de referências explícitas, como a maior parte dos nossos locais de culto.
Dentro da modesta margem de manobra que possuímos, tem-se procurado levar a cabo uma estratégia de dinamização da criação contemporânea, em diversos domínios, da música e da literatura às artes plásticas e às artes performativas, sem esquecer o cinema. É um trabalho a longo prazo. Pressupõe encomendas a profissionais, constituição de acervos, mobilização de recursos e vontades. A apetência para o debate, a coragem cívica, a fidelidade do território e à missão de um serviço diocesano, o bom gosto e o bom senso (coisas bem difíceis de definir, hoje em dia!) jogam aqui um papel decisivo. Mas afigura-se o único caminho que não irá conduzir, mais cedo ou mais tarde, a um beco...

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Qual a origem dos recursos financeiros das várias iniciativas promovidas pelo Departamento, dado que ele se insere numa das dioceses mais pobres do país?
A Diocese de Beja é, de facto, a mais pobre e a mais desertificada. Não se lhe podem exigir recursos que não possui. Basta ver que os nossos bispos vivem pobremente, encontrando uma grande liberdade, de resto, neste despojamento. No entanto, o facto do Baixo Alentejo entesourar um património extremamente vasto e diversificado tem constituído um acicate para não cruzarmos os braços perante as dificuldades.
O Departamento é sustentado essencialmente pelos seus membros e por alguns outros amigos, que formaram para o efeito uma associação denominada Pedra Angular. Este grupo está a dar os primeiros passos e o seu nome assume um profundo significado para nós, já que simboliza o esforço de resgate da memória eclesial do Alentejo em que o Departamento se empenhou.
Para as actividades de requalificação e dinamização patrimonial, tem-se contado, além dos fundos das paróquias e do Seminário, com apoios da União Europeia, do Ministério da Cultura, da Secretaria de Estado do Turismo e dos municípios da nossa região. Existe um certo orgulho quando se diz aproveitámos até ao último cêntimo os fundos comunitários que foram postos ao serviço da região, investindo-os na requalificação de monumentos e obras de arte. Num território como o nosso, a ajuda da Europa mostrou-se importante. Estamos gratos por ela e não escamoteamos as responsabilidades que trouxe, designadamente em matéria de cooperação transnacional.

Como classifica, em termos gerais, a actuação da Igreja em Portugal em relação ao seu património?
A Igreja sente com acutilância as transformações ocorridas ao longo do último século e encontra-se ela própria num processo contínuo de evolução – uma evolução por vezes vertiginosa. Em Portugal a situação é complexa, devido ao nosso modelo jurídico-administrativo. Somos um país que, do ponto de vista patrimonial, está a meio-termo. Começámos por desenvolver um modelo de administração cultural que apostou numa forte componente do sector público, mas não conseguimos dar-lhe o vigor necessário. Hoje dispomos de infra-estruturas muito razoáveis, mas sem uma programação à altura, como reconheceu de modo certeiro a ministra da Cultura, oriunda do mundo das artes e ciente do labirinto em que está o país.

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Por outro lado, a entrada do sector público nos domínios do património anestesiou boa parte da intervenção da sociedade civil, Igreja incluída, que descansou nos ofícios de um Estado paternalista – mau pai, mas pai, apesar de tudo. Chegámos assim ao actual estado de coisas, com um sector público depauperado, sobrecarregado de responsabilidades, e uma sociedade civil ainda pouco atenta para os problemas existentes (tanto mais que alguns insistem dramaticamente em escondê-los sob o tapete, assobiando para o lado). É preciso ultrapassar este impasse e pôr em marcha novos paradigmas.
Não se pode esquecer que o conjunto patrimonial da Igreja surgiu e desenvolveu-se, ao longo de séculos, num quadro institucional baseado na interdependência em relação ao Estado, situação muito distinta da actual, pressupondo competências e recursos que a evolução social e política veio modificar radicalmente. A maior parte das dioceses não possui já meios humanos, técnicos e financeiros suficientes para fazer frente aos encargos da conservação dos seus bens culturais. Fenómenos de alcance nacional, como o declínio dos centros históricos e, pior ainda, a morte do mundo rural, hipotecado à política agrária comunitária, vieram agravar um panorama já de si preocupante. O Estado e os municípios deram alguns balões de oxigénio que permitiram restaurar este ou aquele monumento; no entanto, a problemática de fundo permanece. Restaurar é um passo decisivo, mas tem que ser seguido por uma capacidade real de manutenção e valorização. Fazem-se obras em igrejas arruinadas que, dez anos mais tarde, voltam a entrar em decadência, à míngua de uso continuado.
Estas e outras questões estão hoje na ordem do dia e é evidente uma maior sensibilização, por parte das comunidades, para a salvaguarda do património religioso. Basta, porém, um período invernal mais rigoroso ou a presença de quadrilhas mais organizadas de ladrões para nos apercebermos das fragilidades do sistema instaurado. É preciso criar uma estratégia nacional para a arte sacra que encare de frente a seguinte questão, já há muito diagnosticada noutros pontos da Europa: estamos a perder património a um ritmo frenético. Existem muitos monumentos fechados para os quais não existe outra solução do que uma reafectação de uso.

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Como fazê-lo? Há que saber trabalhar em rede e construir mecanismos de colaboração territorial que, preservando a identidade própria dos locais de culto, viabilizem a sua fruição – condição indispensável à sua sobrevivência. Isto implica formas de organização em parceria que estão ainda a dar os primeiros passos no país. Em certos casos não existe outra solução senão a da reafectação, provisória ou definitiva, a usos distintos. É preferível que uma igreja se torne um museu, uma biblioteca, um “atelier” artístico ou um ponto de acolhimento dos visitantes do que simplesmente caia. Temos igualmente que encontrar mecanismos de autofinanciamento, opção que não se coaduna com improvisações nem contas de mercearia...
Face ao emagrecimento do sector público, incapaz de responder a todas as expectativas criadas, só o sector civil poderá suprir com os recursos necessários. Não falamos só de dinheiro; o mais importante é o envolvimento das pessoas, a consciência de que estão em risco valores essenciais para a colectividade. A Igreja, com a sua longa experiência de mobilização, pode realizar aqui um trabalho notável, como já o faz noutros âmbitos. Admiro muito a acção generosa das Misericórdias e de outras instituições da área social. Dão uma excelente resposta para os problemas de hoje. Precisamos de uma dinâmica similar nos campos da cultura, do património e do ambiente. 

Que projectos estão em curso e quais as iniciativas planeadas para curto e médio prazo?
A Diocese criou no passado dia 12 de Março, por ocasião da visita do Sr. Presidente da República à igreja de Nossa Senhora ao Pé da Cruz, em Beja, uma fundação para acudir aos monumentos religiosos abandonados e que os seus proprietários (sejam eles as fábricas das igrejas paroquiais ou outras instituições) já não conseguem manter. Muitos deles pertencem a paróquias do campo, a braços com o desaparecimento dos habitantes, mas há também casos graves nos meios urbanos. Este património vai desaparecer se não se actuar rapidamente. Temos que procurar fazer tudo o que estiver ao nosso alcance para o evitar, principiando pelos imóveis de maior relevância que estão em perigo iminente. Preocupa-nos que a parcimónia de recursos obrigue a deixar de fora muitos outros edifícios notáveis. 
Uma das medidas fundamentais para que o património alentejano não continue a perder-se passa pela criação de percursos de turismo cultural, religioso e ambiental. As igrejas são um dos seus principais recursos. Precisamos de duplicar o número de visitantes para que a estrutura funcione. Estamos a trabalhar com o Turismo e os municípios nesta linha, trazendo nova vida a realidades um pouco obscurecidas, como o Caminho de Santiago, a rota de peregrinação a Compostela que suscita hoje o regresso dos peregrinos, ou as antigas canadas, por onde circulavam os rebanhos que praticavam a transumância com o centro do país ou mesmo com a vizinha Estremadura. Há que continuar o esforço de internacionalização do Alentejo, o que implica um ciclo de exposições, dentro e fora da nossa geografia.
Vamos prosseguir com o Festival Terras sem Sombra de Música Sacra do Baixo Alentejo, uma parceria com a Arte das Musas que conta com a colaboração da Direcção-Geral das Artes do Ministério da Cultura, dos municípios e da Delta e se desenvolve, de forma itinerante, em diferentes pontos do nosso território. Tem sido um excelente meio de dar palco a jovens intérpretes e a grupos portugueses com carreiras internacionais, mas pouco escutados em Portugal. A adesão do público tem sido deveras positiva, sendo habitual contar-se com “casa cheia”. Estamos igualmente a procurar dinamizar uma estratégia que não esqueça as artes visuais e performativas, o cinema, a literatura, o design... Colocamos grandes esperanças na exposição que está a ser preparada com Filipe Faísca. Outros artistas, como o pintor António Paizana ou os escultores Nuno Afonso e Fernando Fonseca, têm projectos connosco para os próximos anos.

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Se não houvesse impedimentos financeiros, que projectos gostaria de realizar?
Preocupa-nos muito o problema da interpretação do património religioso. Os visitantes, mesmo com formação cristã, pedem-nos um esforço de esclarecimento e de informação. Faltam recursos pedagógicos, guias preparados, bibliografia e outros instrumentos de trabalho. Um património mudo é um património condenado à morte. Gostaríamos de poder levar a cabo um projecto educativo de fundo, ao nível da extensão cultural, que ajudasse a responder a esta necessidade. Existe um esforço para colmatar lacunas, mas sentimo-nos aquém do necessário. Por exemplo, Beja precisa de um ponto de introdução ao património religioso da cidade e do concelho. Acreditamos que um dia será possível instalá-lo num ponto de referência do centro histórico.
Outra iniciativa cujo arrastamento nos angustia é do Museu de Arte Sacra de Santiago do Cacém, peça fundamental para a dinamização da zona antiga desta cidade, fulcro de uma região com um património extraordinário. Adquiriu-se um belo edifício para o efeito, o hospital medieval do Espírito Santo, fez-se uma parceria com o Ministério da Cultura e a Câmara Municipal e entregou-se o projecto a um mestre cimeiro da arquitectura actual, Eduardo Souto de Moura, que tem raízes em Santiago. O projecto está concluído, aprovado e pronto a executar, as colecções estão identificadas, há famílias e instituições que pretendem depositar obras importantes, mas falta o financiamento (e talvez a energia local para captá-lo). A arte sacra é fundamental para a afirmação do Alentejo litoral como destino de excelência ao nível do turismo cultural. Sem um museu à altura, que possa funcionar também como centro interpretativo das igrejas dispersas pelo território, não se irá longe.

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Para quando a presença do Departamento na Internet através de um site ou de um blogue?
Mantemos presença nos sites de Europae Thesauri, a associação internacional dos museus de Igreja, com sede na catedral de Liège e de que o Departamento foi um dos fundadores; do Festival Terras sem Sombra de Música Sacra; e de dois projectos europeus relacionados com o Caminho de Santiago, “Loci Iacobi” (Espanha, França, Portugal) e “Ultreia” (Espanha, França, Irlanda e Portugal). Colaboramos também em blogues vocacionados para a promoção do património regional. Pareceu-nos mais interessante valorizar projectos em rede que precisavam de algum apoio do que avançarmos sós. Vamos lançar agora o “site” do Atlas do Património Religioso do Baixo Alentejo, um projecto preparado ao longo de mais de uma década e que só agora se concretiza, integrado numa parceria com o Instituto dos Museus e da Conservação, o Turismo do Alentejo, o Instituto Politécnico de Beja, a Autoridade Nacional de Protecção Civil e todos os municípios do nosso território. É um navio grande, mas valeu a pena esperar por ele, pois assim iremos mais longe.

 

Fotografia: Departamento do Património Histórico e Artístico da Diocese de Beja
© SNPC | 13.04.10

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Basílica de Castro Verde

 

 

 

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