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Presenças invisíveis

Ao caminhar pelas colinas da cidade de Lisboa e pensando nos 250 anos de nascimento do compositor alemão Ludwig van Beethoven, os acordes da sua música misturam-se com reminiscências do que foram, ao longo dos tempos, companhias invisíveis, aquele tipo de presenças que nos impelem, alentam e alimentam. A música move-nos e comove-nos, impulsiona para a entrada no mundo inexplicável do divino. A escala musical é aquela escada de Jacob que os anjos se esqueceram de retirar e que nos permite o movimento entre a terra e o céu (Elie Wiesel).

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Anos de indagação arrebatada, infindáveis estradas arrebatadoras, montanhas acidentadas e planuras floridas, rasgos de libertação e de inconformismo, sonhos e buscas. Muitas horas embebidas em sol pungente; a espera e as boleias como sinal de confiança mútua por numerosas nações, povos e línguas. Desta vez, em França. Encontrava-me à entrada da autoestrada, mochila às costas e violino na mão, e um mercedes preto travou bruscamente, fez marcha atrás e o condutor convidou-me a que entrasse. Era o violinista israelita Ivry Gitlis, agora quase centenário. Ele ia a caminho de Arles e iria dar um concerto, juntamente com um pianista, de cujo nome não me recordo. Também não me recordo do programa na sua totalidade, mas sei que a Sonata Kreutzer, de Beethoven, fazia parte do concerto: obra em que o compositor já deixa antever o seu génio inovador na história da música do seu tempo.

Durante o jantar, as conversas eram frugais, não abandonando o estrado da superficialidade. Notava, porém, que havia ali aquilo que eu poderia denominar «afago do transcendente» no ambiente não crente, embora ainda com muitas distrações que impediam a senda da autêntica introspeção. Escutando aqueles que rodeavam Gitlis, a quem ele ia respondendo em francês, inglês ou alemão, parecia-me que todos queriam viajar na boleia da sua fama. Para alguns, ele parecia ter adquirido dimensão quase divina. Um ambiente de buscadores, ainda não inteiramente despertos para a relação íntima entre arte e transcendência. Sem dúvida, um chão periférico e auspicioso, terreno basilar para um exercício de profunda reflexão sobre as nossas fomes.

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Uma outra obra de Beethoven com que tive um encontro profundo foi a Missa Solemnis. O local não poderia ser mais contrastante (ou talvez não): Calcutá. Foi por ocasião da primeira vez que visitei Nirmal Hriday («coração puro»), a casa destinada a acolher doentes terminais que a Madre Teresa de Calcutá fundara naquela cidade. Estávamos na década de 1980, época em que muitos jovens, descontentes com o que a sociedade consumista ocidental lhes oferecia, calcorreavam muitas nações em busca de uma espiritualidade que sentiam esvair-se e chegavam à Índia e ao Nepal, onde uns se perdiam e outros se encontravam. Naquela casa destinada a acolher moribundos, o número de voluntários a alimentarem os corpos esqueléticos, a lavarem-lhes as feridas ou a transmitirem-lhes um pouco de afeto no momento da morte mostrava o poder da esperança, da abnegação e do serviço. É que «chegamos ao cúmulo da felicidade quando nos esquecemos de nós mesmos» (Timothy Radcliffe).

Era o dia do meu aniversário natalício. Fui ao Instituto Goethe, pois queria passar lá algumas horas, bebendo chá e escutando música: depois de um ano de viagem, queria mergulhar nas funduras de mim mesmo e encontrar-me com o invisível. Escolhi a Missa Solemnis, de Beethoven. Auscultadores nos ouvidos, olhava para a janela onde caíam pesadas gotas de chuva do final de estação. «A solidão é uma tormenta silenciosa / que quebra todos os nossos ramos mortos. / Porém, faz afundarem-se mais as nossas raízes / No vivo coração da terra viva »(Kahlil Gibran). Sentia a urgência de me libertar de ramos mortos e afundar as minhas raízes até à seiva que parecia esvair-se como areia seca em mão aberta. A Missa Solemnis guiava-me pelas minhas salas secretas e descerrava em mim portas que iam deixando entrar rajadas de vento pelas quais era transportado até aos altos cumes himalaicos.

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De regresso à Alemanha, era aquela tormenta silenciosa que fazia com que eu, após mais uma visita a Bona e à casa de nascimento de Beethoven, me sentasse no canto da minha sala e me transformasse em mergulhador de profundidade dos quartetos de cordas, especialmente os mais tardios, percorrendo com os olhos a partitura, enquanto o coração vivia cada abalo provocado pelos acordes sublimes desta música composta por um homem já surdo. «Ó vós, humanos, que me julgais ou declarais hostil, obstinado ou misantropo, como sois injustos para comigo, pois não sabeis as causas secretas que me forçam a parecer como tal». Palavras que iniciam o Testamento de Heiligenstadt, que Beethoven terá redigido a 6 de outubro de 1802, quando contava apenas 32 anos de idade, e revelam a sua solidão e a sua angústia em virtude da progressiva surdez. Eu parava muitas vezes na Cavatina do op. 130 ou procurava penetrar no túnel do enigmático Muss es sein? Es muss sein! Es muss sein! («Tem que ser? Tem que ser! Tem que ser!») do op. 135, e estancava junto à soleira da interrogação.

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Estou de novo em Lisboa. Percorro as ruas desta cidade luminosa, acompanhado por presenças invisíveis, fantasmas mais reais do que a calçada que piso; presenças que unem pessoas e situações e que eu não quero e não posso menosprezar. Sinto um aperto no coração e aquela saudade de trilhar de novo os degraus da escada de Jacob que os anjos se esqueceram de retirar e que nos fazem tocar o divino quando somos verdadeiramente humanos e escutamos música verdadeira.


 

Adelino Ascenso
Imagem: "Ludwig van Beethoven" | Joseph Karl Stieler
Publicado em 12.02.2020

 

 
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