"O Evangelho da alegria"
Primeira exortação apostólica do papa Francisco lembra Átrio dos Gentios e insiste no diálogo com não crentes
O Átrio dos Gentios, plataforma da Igreja católica para o diálogo com os não crentes, é lembrada pelo papa na sua primeira exortação apostólica, "Evangelii gaudium" (O Evangelho da alegria).
«Como crentes, sentimo-nos próximo também de todos aqueles que, não se reconhecendo parte de qualquer tradição religiosa, buscam sinceramente a verdade, a bondade e a beleza, que, para nós, têm a sua máxima expressão e a sua fonte em Deus. Sentimo-los como preciosos aliados no compromisso pela defesa da dignidade humana, na construção duma convivência pacífica entre os povos e na guarda da criação», assinala Francisco.
«Um espaço peculiar é o dos chamados novos Areópagos, como o «Átrio dos Gentios», onde «crentes e não crentes podem dialogar sobre os temas fundamentais da ética, da arte e da ciência, e sobre a busca da transcendência», refere o documento publicado esta terça-feira.
O texto acentua que a evangelização implica «um caminho de diálogo» em que a Igreja deve marcar presença, «cumprindo um serviço a favor do pleno desenvolvimento do ser humano e procurando o bem comum».
Francisco começa por referir-se ao «diálogo com os Estados, com a sociedade – que inclui o diálogo com as culturas e as ciências», a partir da «experiência» da Igreja, longa «de dois mil anos» e que «conserva sempre na memória as vidas e sofrimentos dos seres humanos».
A identidade e a história da Igreja «ultrapassa a razão humana, mas também tem um significado que pode enriquecer a quantos não creem e convida a razão a alargar as suas perspetivas».
«É hora de saber como projetar, numa cultura que privilegie o diálogo como forma de encontro, a busca de consenso e de acordos mas sem a separar da preocupação por uma sociedade justa, capaz de memória e sem exclusões», aponta o papa.
A seguir, a exortação faz referência ao «diálogo entre ciência e fé», com a Igreja a propor um caminho que requer a «síntese entre um uso responsável das metodologias próprias das ciências empíricas e os outros saberes como a filosofia, a teologia, e a própria fé que eleva o ser humano até ao mistério que transcende a natureza e a inteligência humana».
«A fé não tem medo da razão; pelo contrário, procura-a e tem confiança nela, porque a luz da razão e a luz da fé provêm ambas de Deus», e não se podem contradizer entre si», nota o papa.
A Igreja «está atenta aos progressos científicos para os iluminar com a luz da fé e da lei natural, tendo em vista procurar que sempre respeitem a centralidade e o valor supremo da pessoa humana em todas as fases da sua existência».
O documento relembra que «a Igreja não pretende deter o progresso admirável das ciências» e que, nesse sentido, « alegra-se e inclusivamente desfruta» com esses avanços, «reconhecendo o enorme potencial que Deus deu à mente humana».
«Quando o progresso das ciências, mantendo-se com rigor académico no campo do seu objeto específico, torna evidente uma determinada conclusão que a razão não pode negar, a fé não a contradiz. Nem os crentes podem pretender que uma opinião científica que lhes agrada – e que nem sequer foi suficientemente comprovada – adquira o peso dum dogma de fé», refere o papa.
Francisco salienta, no entanto, que em certas ocasiões «alguns cientistas vão mais além do objeto formal da sua disciplina e exageram com afirmações ou conclusões que extravasam o campo da própria ciência», levando a que não seja «a razão que se propõe, mas uma determinada ideologia que fecha o caminho a um diálogo autêntico, pacífico e frutuoso».
No âmbito da situação da Igreja no espaço público, a exortação salienta que «o respeito devido às minorias de agnósticos ou de não crentes não se deve impor de maneira arbitrária que silencie as convicções de maiorias crentes ou ignore a riqueza das tradições religiosas».
O documento lembra que por vezes «desprezam-se os escritos que surgiram no âmbito duma convicção crente, esquecendo que os textos religiosos clássicos podem oferecer um significado para todas as épocas, possuem uma força motivadora que abre sempre novos horizontes, estimula o pensamento, engrandece a mente e a sensibilidade. São desprezados pela miopia dos racionalismos».
«Será razoável e inteligente relegá-los para a obscuridade, só porque nasceram no contexto duma crença religiosa? Contêm princípios profundamente humanistas que possuem um valor racional, apesar de estarem permeados de símbolos e doutrinas religiosos», sustenta o papa Francisco.
Nota: Texto não oficial.
Rui Jorge Martins
© SNPC |
27.11.13

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