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Quem será a primeira pessoa que desejo voltar a abraçar quanto terminar a quarentena?

Escolher viver como crente significa deixar-se interpelar pela vida, em que se reconhece uma Palavra que Deus nos dirige, mas a vida fala sempre no presente. O nosso presente está na crise do coronavírus, e ainda que estejamos envolvidos pela névoa que torna incertos os contornos do futuro, mesmo nesta situação podemos e devemos interpelar-nos, para responder de maneira sábia, isto é, a passo com os ritmos do Verbo que tem na mão todas as coisas, inclusive aquelas que não nos agradam, e tudo conduz ao amor do Pai.

Neste sentido, que perguntas é que o nosso presente me coloca? Obviamente, não serei o único com estas interrogações, mas não tenho a pretensão de que alguém se sinta por elas interpelado da mesma maneira, ou que todas tenha dentro de si.

Qual é o específico do padre, hoje? O que é apropriado que as pessoas esperem dele? Impedido o acesso às celebrações litúrgicas, encerradas as paróquias, saltadas as agendas, os padres, em vez de cruzarem os braços, centuplicaram os seus esforços para pregar, ensinar, criar exercícios espirituais, organizar momentos de oração, confortar os aflitos; a quase toda a hora é possível encontrar (e sucede só agora, nos dias do coronavírus!) missas na internet, momentos de adoração eucarística, tutorias sobre liturgia, introduções à oração… e as pessoas estão a responder com gratidão, não se sentindo abandonadas.

Para não falar dos padres (e dos bispos, e dos cardeais) infetados pelo vírus, da sua fidelidade ao ministério, dos padres entubados aos ventiladores, dos padres que morreram por causa da pandemia.



E agora aproximamo-nos da Semana Santa: estudamos atentamente os textos que a liturgia nos proporá, contemplamos com os olhos do coração as cenas que elas pintarem em nós



A crise atual, despojando os sacerdotes de muitos deveres de manutenção do habitual, está a fazer brilhar de maneira luminosa os múnus do padre pastor do seu rebanho, mestre de oração, oficiante dos divinos mistérios em representação de todo o povo.

No domingo passado, uma mãe, após um momento de oração organizado pela internet com as crianças da primeira Comunhão, escreveu-me a seguinte mensagem: «M. [a filha de nove anos] disse-me que o P. Alexandre é como Jesus, quer bem a todos nós e reza por nós». Haverá mais alguma coisa a acrescentar sobre a perceção dos fiéis acerca do essencial do sacerdócio ministerial?

Se a primeira pergunta a coloquei enquanto padre, as outras, mais simplesmente, coloco-as como homem que, como todos, terá de enfrentar, um de cada vez, os dias incertos que estão para chegar. Espero que possam estimular algumas reflexões úteis, pelo menos para alguns.

Quem será a primeira pessoa que desejo voltar a abraçar quanto terminar a quarentena? Este jejum quaresmal dos contactos induz-nos, inevitavelmente, a examinar as nossas relações, colocando em evidência aquelas que para nós, no fim de contas, são as mais vitais. Esperamos que, depois, não as esqueçamos.



Se quisermos interpretar a nossa vida como uma liturgia, poderemos aceitar que todas as cores que a tingem dão glória a Deus, e revelam a nossa inalienável dignidade



Qual é a coisa que verdadeiramente me faz mais medo em todos estes acontecimentos? Esta pergunta, em certo sentido, é a mesma da primeira, sob uma perspetiva mais sombria, a do medo da perda. Ou pode desalojar outros medos recônditos em nós, que talvez nos digamos solidamente crentes. Pois bem, façamos sair todos estes medos, chamando-os pelo nome, e decidamos enfrentá-los com as armas da fé, da esperança, do abandono nas mãos de Deus, Podemos vencê-los.

Tenho realmente vontade de voltar à normalidade? Uma pergunta surpreendente, que me faz um pouco corar de vergonha, sobretudo se penso nos pobres mortos, nos médicos e nos enfermeiros na trincheira, na crise económica que está para chegar… no entanto, não é um acaso que seja esta a pergunta que mais vezes nestes dias ouvi formular inclusive por outros. A verdade é que estávamos demasiado habituados ao stress, a vidas alienadas sempre a correr, aos afetos familiares que se viam só à noite ou ao fim de semana. Como seria belo poder levar consigo os espaços de novidade adquiridos, quando tivermos ultrapassado a crise!

E agora aproximamo-nos da Semana Santa: estudamos atentamente os textos que a liturgia nos proporá, contemplamos com os olhos do coração as cenas que elas pintarem em nós… a púrpura de chumbo do deserto e a seriedade necessária envolver-nos-ão e talvez nos oprimam com os tons do perigo e do abandono; quando por um instante aparecer o branco puro do amor, da amizade e do pão partilhado [missa de Quinta-feira Santa, instituição da Eucaristia], bem depressa ele se dissipará no vermelho silencioso e trágico da violência e de uma condenação que crava e que parecerá calar na escuridão a esperança [Sexta-feira Santa]… mas o branco voltará a fulgurar, a esperança reflorirá, vencerá, no fim, a luz [Vigília Pascal e Domingo de Páscoa].

Se quisermos interpretar a nossa vida como uma liturgia, poderemos aceitar que todas as cores que a tingem dão glória a Deus, e revelam a nossa inalienável dignidade.


 

Alessandro Di Medio
In SIR
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: Rido81/Bigstock.com
Publicado em 04.04.2020

 

 
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