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Quaresma: Do deserto ao jardim

Do deserto ao jardim: do deserto de pedras e tentações ao jardim do sepulcro vazio, fresco e resplandecente na aurora, enquanto que do lado de fora é primavera: é este o percurso da Quaresma. Não é, portanto, penitencial, mas vital.

Das cinzas sobre a cabeça à luz que faz resplandecer a vida. Deserto e jardim são imagens bíblicas que acompanham a história e os sonhos de Israel, que contêm um projeto de salvação integral que envolverá e transfigurará cada coisa existente, humanidade e todas as criaturas, que em conjunto compõem a tapeçaria da criação.

Com a Quaresma não começamos um percurso de penitência, mas de imensa comunhão; não de sacrifícios, mas de germinação. O ser humano não é pó ou cinzas, mas filho de Deus e semelhante a um anjo, e a cinza posta sobre a cabeça não é sinal de tristeza, mas de novo início: voltar a partir da criação e da fecundidade, sempre, não importa as circunstâncias, mesmo quando se parte do quase nada que ainda resta entre as mãos.

As tentações de Jesus no deserto constituem a prova a que é submetido o seu projeto de mundo e de homem, o seu modelo de Messias, inédito e revolucionário, e o seu próprio Deus.



Jesus responde que não são os anjos, mas «a Palavra que atua em vós, que acreditais». Que Deus intervém com o milagre humilde e tenaz da sua Palavra: lâmpada para os meus passos; pão para a minha fome; mutação das raízes do coração



A tentação é sempre uma escolha entre dois amores. Diz a esta pedra que se transforme em pão. Transforma as coisas em bens de consumo, reduz a mercadoria inclusive as pedras, põe tudo ao serviço do lucro.

As palavras do inimigo (cf. Lucas 4,1-13) desenham em filigrana um ser humano que pode, a seu bel-prazer, usar e abusar de tudo o que existe. E assim procedendo, destrói, em vez de cultivar e proteger. Todos tentados a reduzir os sonhos a dinheiro, a transformar tudo, inclusive a Terra e a beleza, em coisas para consumir.

Dar-te-ei todo o poder, tudo será teu. O paradigma do poder que seduziu e destruiu reinos e pessoas, falsos messias e novos profetas, é colocado diante de Jesus como o máximo dos sonhos. Mas Jesus não quer poder nenhum, Ele é mendigo de amor. E quem se torna como Ele, não se ajoelhará diante de ninguém; será, ao contrário, servidor de todos.

Atira-te daqui abaixo, e Deus mandará os seus anjos para te guardarem. Mostra a todos um Deus imaginário que desmonta e monta a natureza e as suas leis, para seu deleite, como se fosse o seu brinquedo; que é uma segurança contra os infortúnios da vida, que salva de cada problema, que te protege do esforço de avançar passo a passo, e até na escuridão.

Jesus responde que não são os anjos, mas «a Palavra que atua em vós, que acreditais». Que Deus intervém com o milagre humilde e tenaz da sua Palavra: lâmpada para os meus passos; pão para a minha fome; mutação das raízes do coração para que germinem relações novas comigo próprio e com a criação, com os outros e com Deus.


 

Ermes Ronchi
In Avvenire
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: ribeiroantonio/Bigstock.com
Publicado em 07.03.2019

 

 
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