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O que significa ficar em casa

Permanecer em casa em tempos de coronavírus é necessário. Aliás, é devido. Melhor ainda, é obrigatório. Mas não se diga que é belo. Circulam na internet e grupos do Whatsapp piadas sobre pais de família para quem ficar em casa, nos primeiros dias, é uma experiência gratificante, mas que menos de uma semana depois já só desejam lançar-se da janela. Quando, no próximo ano, olharmos para este tempo, diremos que foram semanas de “baby boom”, ou que terá sido o “boom” dos divórcios ou das separações? Perguntamo-lo, porque a questão é terrivelmente séria.

Os capelães das prisões sabem perfeitamente as implicações enormes da pena de redução da liberdade. Estar fechado em poucos metros quadrados com pessoas que têm de se defrontar com maneiras de viver completamente diferentes das nossas é, para o ser humano, uma tortura.

Não é só uma exaustão: usei o termo tortura e não volto com a palavra atrás. Daqui até abril – e esperamos que esta quarentena seja suficiente – estaremos todos reclusos, ou, pelo menos, em prisão domiciliária. Com os filhos que querem sair e não podem, com os pais e as mães que veem o trabalho o como uma ilha feliz de relações mais simples e serenas em comparação com às do lar. E não porque no escritório tenham o(a) amante, mas porque os colegas são parte essencial da nossa “dieta de relações felizes”.

Acrescentemos ao cocktail que é melhor não levar os pequenos aos avós, visto que as crianças têm grandes recursos imunitários, e precisamente por isso podem ser “formidáveis” propagadores para os idosos, e a bomba está espoletada. Que soluções dar? A primeira é a de não maquilhar a vida, pintando as semanas que nos esperam como se fossem umas “longas férias”.



Quando há dificuldades, é preciso olhá-las na cara, para depois tomar decisões. Depois de termos compreendido que temos de ficar em casa, a tomada de consciência é o passo que nos aguarda



Se caíssemos neste erro, o contragolpe emocional seria terrível. Retratar uma situação de grande dificuldade como aquela que nos toca como se fosse o idílico momento para ver filmes, ler livros ou até escrevê-los arriscar-se-ia a fazer explodir o nosso núcleo familiar. Os apóstolos, quando se encontraram perante o primeiro problema da Igreja nascente – o das viúvas –, convocaram os discípulos e falaram (cf. Atos 6,2); falemos, portanto, com quem está ao nosso lado, do problema que teremos. Espera-nos um período dificílimo. Talvez nós ou algum dos nossos próximos será contagiado, e é possível que os hospitais não consigam cuidar deles da mesma maneira que em tempos normais. Além disso, todo o país atravessará uma gravíssima crise económica.

Muitos pobres “normais” já não sabiam como chegar ao fim do mês; agora, na situação que se aproxima, podem ficar à beira do desespero. É a realidade. Por fim, devemos ter presente que esta conjuntura durará muito. Fala-se da possibilidade de o pico do contágio ocorrer no fim de abril. Falemos entre nós daquilo que nos espera. Preparemo-nos. Estudemos os remédios.

Uma das poucas coisas que nos é permitida é telefonar. Façamo-lo não só com os amigos, mas também com especialistas. Penso nos psicólogos e educadores. Delineemos juntos como enfrentar um regime de vida que não escolhemos; assumamos que se não escolhemos viver como iremos viver, significa que somos feitos para uma vida diferente daquela que teremos nas próximas semanas e meses. Quereremos preparar-nos?

Quando há dificuldades, é preciso olhá-las na cara, para depois tomar decisões. Depois de termos compreendido que temos de ficar em casa, a tomada de consciência é o passo que nos aguarda. Como viver este tempo de forçada convivência com aqueles que, até agora, foram os nossos entes queridos? O que fazer para que, uma vez passado o tempo do coronavírus, continuem a ser “os nossos entes queridos”?


 

P. Mauro Leonardi
In Avvenire
Tradução e adaptação: Rui Jorge Martins
Imagem: NataliAlba/Bigstock.com
Publicado em 16.03.2020

 

 
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