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Quem é Deus para ti? Respostas de jovens de hoje (2)

Lá fora, entre praças e paredes, há muitos jovens que não conseguem nem querem identificar Deus. Quero continuar a dar-lhes voz. Explorar a negação, promover as dúvidas, dilatar a reflexão, alimentar a esperança. Uma graduação baseada não na intensidade das palavras, mas na leve e impercetível matiz dos pensamentos. A evolução da pessoa e o elusivo da história. Um percurso rumo ao intangível.

«Há dois anos estava em Lyon», diz Emílio, «chegado ao ponto mais alto da catedral de S. João senti a necessidade de ir ter com o sacerdote para lhe colocar uma pergunta: “Se Deus existe, porque é que eu não acredito? Porque é que Deus criou indivíduos que o colocam em discussão e não o percecionam em lado algum?”. A minha relação com a eventual presença de Deus é muito contrastante. Se existe, para mim não é simpático, e eu não lhe sou simpático».

E prossegue: «A propósito, gostaria de citar dois episódios. O primeiro foi quando vi, em criança, as imagens da guerra. Recordo que fiz uma comparação entre a Terra e um jardim, entre Deus e um jardineiro: se Deus criou a Terra, porque deixam que aconteçam coisas tão terríveis? Porque é que um jardineiro planta flores para depois deixar morrer algumas tão brutalmente?».

«O segundo episódio está ligado à morte da mãe de uma das minhas primeiras namoradas. Tínhamos 11 anos. No funeral, o sacerdote explicou como Deus toma para si aqueles que mais ama, e que essa ausência devia ser entendida como um gesto de amor. Para mim tudo foi e é inconcebível. Pensar que Deus, por um afeto pessoal, pode arrancar a quatro filhos a sua mãe, fez-me experimentar mal-estar e aversão.»

Destes dois acontecimentos, uma conclusão: «Num mundo tão cheio de injustiças é-me difícil acreditar que Deus exista. E, se existe, não é correto, e muito menos bom. Como respondeu o sacerdote de Lyon à minha falta de fé? Que o colocar-lhe uma pergunta do género era já uma procura da fé».



«Quando reflito sobre quem é Deus para mim, penso na música “Anthem” de Leonard Cohen: há uma fenda em cada coisa, e é assim que a luz entra»



Uma jovem, que prefere permanecer anónima, buscou uma resposta escavando nos seus 19 anos de vida. «Deus existe, sei-o. Vejo-o na história de certas pessoas, nos mistérios da natureza, nas respostas que te deram outros jovens. Deus existe, mas, em mim, nunca esteve. Não estava quando o meu pai se foi embora de casa. Não está presentemente, nas inseguranças de um adolescente e nas lágrimas escondidas debaixo de uma almofada. Não está também na minha imobilidade quanto ao futuro-»

«Tudo isto me faz sentir abandonada. Traída. Castigada. Porquê os outros sim e eu não? Porque é que o caminho para Deus é tão difícil, se é tão grande como dizem? Porque é que nunca encontrei alguém capaz de me fazer aproximar dele? Talvez eu tenha demasiadas expetativas. Um pouco como com o meu namorado, é isso.»

Depois temos as palavras do Marco. «Antes de mais declaro que não sou crente, mas gosto de identificar Deus num momento que pode acontecer a qualquer um. Deus, para mim, é uma sensação. Um instante de tranquilidade particularmente forte, que brota de uma alegria vivida com os outros. Um fragmento de vida em que se compreende estar em perfeita sintonia com o que está à volta.»

Por exemplo, «durante um passeio, uma viagem de automóvel, um silêncio prolongado. O único momento suficientemente profundo em que penso que pode existir alguma coisa. Esta é a maneira que Deus tem para se manifestar em quem acredita. Para mim, por agora, basta compreender como os crentes podem sentir-se em contacto com Ele em momentos do género. E, por isso, respeitá-los».

Por fim, Valentina. E, com ela, um clarão no nevoeiro. «Quando reflito sobre quem é Deus para mim, penso na música “Anthem” de Leonard Cohen: há uma fenda em cada coisa, e é assim que a luz entra. Considero Deus como aquela luz que, impercetivelmente, penetra entre as feridas do ser humano. Insere-se entre as dores, as dúvidas, as perguntas sem solução. E, penetrando, aclara. Deus é uma mensagem de esperança.»

«É por isso que, ainda que não seja crente, abstenho-me de me definir ateia. Não nego de todo a existência de Deus, nem me rendo a um esgotado desinteresse só porque sou incapaz de encontrar a resposta. Porque sei que, quando o nosso conhecimento se mostra limitado, a fé pode intervir. E pode salvar-te a vida.»


 

Guglielmo Gallone
In L'Osservatore Romano
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: MiaStendal/Bigstock.com
Publicado em 29.04.2021

 

 
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