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Quem entra e quem sai: Todos sem rede

Não há dia na prisão de que sou capelão, mas penso em todas as prisões, que não se vejam novas chegadas e detidos que saem – uns em liberdade condicional, outros para prisão domiciliária, alguns transferidos para outras penitenciárias, outros por terem chegado ao fim da sua pena.

Naqueles que chegam nota-se a desorientação de quem entra pela primeira vez, também devido ao isolamento sanitário; há depois as dificuldades para compreender como funciona a vida “dentro”, como satisfazer as primeiras necessidades (produzidas pela higiene, lençóis, vestuário – também aqui, naquilo que é possível, intervimos nós, voluntários). Há também aqueles que não entram na prisão pela primeira vez, sabem já como se hão de mover e reencontram de imediato “velhos conhecidos”. Infelizmente.

Mas a minha atenção é sobretudo para quem sai, com os seus sacos de poucas coisas. Sol ou chuva, calor ou frio, dia útil ou festivo, quando sais para fora das barras tens de te desenrascar. Os mais afortunados têm parentes que os vêm buscar e uma casa para onde ir.

Para os estrangeiros, os sem-teto, os muitos que durante os anos de detenção perderam familiares, casa e trabalho, é muito pior. Ficam perdidos. Não sabem sequer onde começar o caminho para a liberdade. Por isso, procura-se dar-lhes uma mão: alguns encaminho-os para uma estrutura, que raramente se encontra; a outros dou um par de bilhetes para o metro; a outros, ainda, acompanho-os à estação, comprando-lhes o bilhete de comboio para um destino longínquo, esperando que alguém os acolha.

Mas o problema mais urgente de quem sai da prisão é o do trabalho, como sublinho sempre. É daqui que se deve partir, porque o trabalho permite que cada pessoa procure honestamente o necessário para viver, para procurar uma casa, para ser autónomo. E afasta a tentação de voltar a aproximar-se de ambientes criminosos. É indispensável, por isso, que os serviços prisionais atuem para favorecer o mais possível a sensibilização do mundo produtivo das cidades para facilitar o encontro entre os ex-detidos e o mundo do trabalho.

Muitos que saem da prisão esperam, de alguma forma, um apoio, ou pelo menos um acompanhamento da parte das instituições. Em vez disso sentem-se abandonados, como joguetes. E eu cada vez mais tenho dificuldade e sinto-me entristecido por pouco ou nada poder fazer por estes amigos que procuram ter na sua mão as rédeas da sua vida.

Um jovem, fora da prisão há algum tempo, disse-me: «São tudo historietas, aquelas que se ouvem “dentro”. O assistente, os educadores, prometem-te ajuda: “Não te preocupes, não faças aquilo, não faças aqueloutro, e ajudar-te-emos”. Eu saí, encontrei-me sem ajuda e fui em frente com o pequeno fundo que amealhei ao trabalhar na prisão. O único lugar que encontrei foi no dormitório da Cáritas».


 

Lucio Boldrin
In Avvenire
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: VadzimMashkou/Bigstock.com
Publicado em 23.11.2021

 

 
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