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Leitura: “Ressurgir – 40 perguntas sobre a pandemia”

Manuela Ramalho Eanes, António Bagão Félix, Eugénio Fonseca e D. Carlos Azevedo são algumas das personalidades que comparecem no novo livro “Ressurgir – 40 perguntas sobre a pandemia”, que a Paulinas Editora leva às livrarias nos próximos dias, obra que termina com uma reflexão de Tomáš Halík, que apresentamos na íntegra.

«O título deste livro convida a Ressurgir. Mas como? Os psicólogos e psicoterapeutas falam de resiliência. Os sociólogos querem instituições credíveis. Os economistas apontam para a sustentabilidade. Os filósofos apelam para a sabedoria como estilo de vida. Os religiosos falam da necessidade de conversão. Onde está essa nova visão, uma vista diferente do futuro, quase ausente nas lideranças atuais?», questiona-se na introdução, texto assinado por Mendo Henriques, Artur Morão e Nuno André, organizadores do volume, a que se junta Diana Ferreira.

Dividido em cinco capítulos, “Vida, saúde e solidariedade”, “Pessoal-Familiar”, “Ciência, informação & cultura”, “Economia sustentável” e “Espiritualidade”, o volume aborda questões como a solidariedade em tempos de pandemia, estilos de vida, humor, amor, educação, direitos humanos, desigualdades, concertação social, comunidade científica, televisão, economia, teletrabalho, ecologia, turismo, mundo digital, liderança, Europa, China, diálogo inter-religioso, Igreja e cultura.

«Neste panorama local, português, e, ao mesmo tempo, global, tentámos lidar com a calamidade presente. Não a aceitamos como fatalidade, mas aspiramos, ao resistir-lhe, a uma epifania, a uma intimação à mudança. Recusamos a resignação ao que simplesmente vier e não enjeitamos o esforço de criar sentido e valor num País e num mundo confrontado com desafios sem precedentes», lê-se na introdução.



«Muitas formas antigas e novas de magia aparecerão no mercado religioso, prometendo a milagrosa transformação das pedras em pão e oferecendo as fiáveis armas dos anjos a todas as pessoas frágeis, o ópio económico para os inseguros e uma cura infalível para todas as dores. Espero que os discípulos de Jesus consigam repelir tais tentações»



Os editores realçam que «a resposta à calamidade da Covid-19 revelou que um País também se torna “hospital de campanha”. Quando se trata da vida nua, os pobres são mais importantes do que os ricos, em todos os sentidos. São mais importantes os que cuidam de nós na necessidade, do que quem acalenta as nossas frágeis prosperidades. E nestas questões de vida ou morte, a diferença, segundo Noberto Bobbio, é entre os que pensam e os que não pensam ou, como aponta Tomáš Halík, a diferença não reside propriamente entre crentes e ateus, mas entre os que procuram e os que se julgam ricos; os que procuram estão inconformados com o que o mundo revela; os que desistem de questionar ou estão satisfeitos ou, então, alienados».

Depois de observar «vai ficar tudo bem», diziam-nos, infantilizando-nos. Como poderia assim ser, se já quase tudo estava mal?», os coordenadores concluem o texto de abertura com uma proposta diferente: «Acompanha-nos o dito de Vaclav Havel: “A esperança não é a convicção de que tudo vai correr bem, mas a certeza de que algo faz sentido, independentemente de correr bem”».

Os programas da Ecclesia na Antena 1 que vão para o ar de segunda a sexta-feira a partir das 22h45, iniciam na próxima semana um conjunto de entrevistas a personalidades envolvidas no livro. Alfreda Ferreira da Fonseca, Annabela Rita, Artur Morão, Isabel Baltasar e Mendo Henriques são os convidados das cinco primeiras emissões.

 

O mundo depois da pandemia
Tomáš Halík
In “Ressurgir – 40 perguntas sobre a pandemia”

Ao longo dos últimos meses vimos, por obra da pandemia, as igrejas vazias, a restrição das festas litúrgicas, tendo-se até omitido a celebração pública e comunitária da Páscoa. Anunciarão os templos despovoados uma nova fase do Cristianismo no continente europeu?

O mundo em que viveremos depois da pandemia será vulnerável, instável e complexo. Nós, cristãos, devemos introduzir nele um testemunho de fé vivida como confiança de que este mundo, precisamente, nos é confiado como dom e missão, e a fé como fonte de força para aceitar e levar esse objetivo ao seu cumprimento.

Devemos tomar em consideração vários cenários de possíveis desenvolvimentos futuros. As previsões dos peritos variam de forma radical. É provável que a humanidade fique mais pobre a nível global, que muitos países e muitos setores da sociedade passem da prosperidade à pobreza e da pobreza à miséria. As consequências sociais mudarão a cena política internacional, as relações entre os Estados e as representações no poder das sociedades individuais: algumas serão erradicadas, outras saberão aproveitar a ocasião para se destacarem.



«Talvez este tempo de edifícios eclesiais vazios traga simbolicamente à luz o vazio escondido das Igrejas e o seu futuro potencial, se não se fizer uma tentativa séria de mostrar ao mundo um rosto do Cristianismo completamente diferente»



Esperamos que a pandemia de coronavírus seja detida pela ciência médica e que as suas consequências económicas sejam resolvidas por economistas e políticos. Permanece, porém, um profundo estado de choque na autoestima do homem moderno, que brota da experiência da vulnerabilidade do nosso mundo e das limitações do nosso poder humano. Todos nós o devemos enfrentar, e a solução não virá do exterior.

A procura de uma religião fundamentalista que ofereça respostas simples para perguntas complexas e que esteja disposta a celebrar alianças com os populistas na vida política está destinada a aumentar. Muitas formas antigas e novas de magia aparecerão no mercado religioso, prometendo a milagrosa transformação das pedras em pão e oferecendo as fiáveis armas dos anjos a todas as pessoas frágeis, o ópio económico para os inseguros e uma cura infalível para todas as dores. Espero que os discípulos de Jesus consigam repelir tais tentações.

Contudo, não posso deixar de me interrogar sobre se este tempo de igrejas vazias e fechadas não representa uma espécie de advertência para aquilo que poderá vir a suceder num futuro não muito distante: dentro de poucos anos elas poderão estar assim em grande parte do nosso mundo. Porventura não fomos já advertidos tantas vezes por aquilo que tem ocorrido em muitos países, onde cada vez mais igrejas, mosteiros e seminários se foram esvaziando ou fechando? Por que razão temos vindo a atribuir esse fenómeno, há tanto tempo, a influências exteriores (o «tsunami secularista»), em vez de nos darmos conta de que estávamos a chegar ao fim de mais um capítulo da história do Cristianismo e de que era tempo de nos prepararmos para um capítulo novo?

Talvez este tempo de edifícios eclesiais vazios traga simbolicamente à luz o vazio escondido das Igrejas e o seu futuro potencial, se não se fizer uma tentativa séria de mostrar ao mundo um rosto do Cristianismo completamente diferente.



«Não creio que um ateu, se for verdadeiramente honesto, perante um tal grau de sofrimento, não se interrogue sobre se não deveria antes procurar a fonte de força e de esperança mais profundamente do que aquilo que este mundo tem para oferecer»



Ao mesmo tempo, devemos refletir sobre a metáfora tão grata ao papa Francisco, ou seja, sobre a imagem da Igreja como um «hospital de campanha»; trata-se de uma metáfora segundo a qual ela não se deve manter magnificamente isolada do mundo, mas derrubar as próprias fronteiras e levar ajuda aonde quer que as pessoas se encontrem física, mental, social e espiritualmente aflitas.

A Igreja como hospital não é uma estrutura interna da Igreja orientada apenas para os seus membros. Deve prestar ajuda a todos aqueles que dela necessitam. O «ecumenismo do sofrimento» e a dor partilhada requerem o «ecumenismo da compaixão» e a unidade de todos aqueles que querem e podem ajudar.

Um dos grandes dons da pandemia do coronavírus é a queda dos muros de separação não só entre as Igrejas individuais, mas também entre «crentes» e «não-crentes». Não creio que uma fé que não treme perante tal sofrimento e que não dirige a si própria as interrogações que Job dirigiu a si mesmo, para escândalo dos seus devotos amigos, possa realmente estar viva e ser verdadeiramente humana. Também não creio que um ateu, se for verdadeiramente honesto, perante um tal grau de sofrimento, não se interrogue sobre se não deveria antes procurar a fonte de força e de esperança mais profundamente do que aquilo que este mundo tem para oferecer.

A escuridão da dor que tem envolvido o nosso planeta ao longo destes meses requer uma nova dimensão do ecumenismo, o ecumenismo «do interrogar-se e do partir em busca». Impele-nos ainda a procurar uma comunidade da qual se possa fazer parte sem uma certidão de batismo e na qual, todavia, seja possível estar com Cristo.



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Edição: Rui Jorge Martins
Imagem: Capa | D.R.
Publicado em 09.07.2020

 

Título: Ressurgir - 40 perguntas sobre a pandemia
Coordenação: Artur Mourão, Diana Ferreira, Mendo Henriques, Nuno André
Editora: Paulinas
Páginas: 224
Preço: 13,00 €
ISBN: 978-989-673-741-1

 

 
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