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Rezar a “Laudato si’” com louvores, preces e imagens

Tu, ó Senhor, deste-me a vida graças ao teu sopro, um espírito de vida que me tornou um ser vivo. E depois, em torno a mim, criaste um jardim maravilhoso, com o toque das tuas mãos criaste magníficas plantas de todo o género, ao caminhar e tocá-las sinto-lhes o perfume, e depois flores de todas as cores e frutos requintados. E a água, fonte de vida, escuto o rumor dos rios e sentado ao sol contemplo as maravilhas da natureza. A tua bondade ao criar este lugar maravilhoso põe-me em paz e em comunhão com esta natureza… Paz, silêncio somos eu e Tu. Mas fizeste mais: deste-me as chaves para que eu protegesse tudo isto, cuidasse. A tua bondade é infinita, e estou-te grato por ela. Puseste-me junto a uma mulher para partilhar tudo isto, e éramos felizes. Mas depois eu quis mais, não te reconheci por estes dons. A minha relação contigo interrompeu-se. Descobri-me frágil, só, tive medo, escondi-me. Mas Tu não te afastaste de mim, procuraste-me ao passear no jardim, querias dialogar comigo. Que fizeste? Agora o mundo já não é assim, a Terra que nos ofereceste já não é o jardim do Éden, fomos nós a explorá-la sem piedade, a criar divisões, construir barreiras, esquecendo-nos que a única maneira de reencontrar a harmonia é confiar em ti como Criador. Mas não é demasiado tarde, neste momento em que ficámos fechados nas nossas casas a natureza retomou o seu lugar. Agora podemos aprender a respeitá-la, e graças à tua infinita misericórdia que tens por cada um de nós, deixas-nos aberto um horizonte de esperança… saberemos recomeçar e cuidar?



Imagem Serra de Capivara, Piauì, Brasil, 10.000 a.C.


De um lugar árido, uma terra ocre, inicia uma explosão de cores. Luz clara, vento suave envolvem e movem tudo. Os meus olhos não conseguem parar de contemplar tudo isto. Prados floridos, árvores, montanhas, e depois, só depois, o Pai se curva para animar um pequeno ser. O pequeno olha-o, dá-lhe a mão, e através do Pai faz a experiência de tudo aquilo que vê. Um passarinho caído do ninho, o perfume de uma flor, o ruge-ruge na erva alta, a transparência da água. O Pai condu-lo e passeia com ele, contente. Fê-lo para isto, para que seja feliz, ali. Tudo lhe agrada, e agrade-lhe o pequeno. Que quando se torna grande, ainda que com o Pai tenha vivido no jardim, se vai embora. «Onde estás?» Faço reemergir em mim aquela criança conduzida pelo Pai no seu jardim. Esta memória acompanha a minha vida e as minhas ações. Para que o Pai possa nele ainda passear.



Imagem Cuevas de las Manos, Santa Cruz, Argentina, 7.300 a.C.


Estou estendida na erva aos pés da árvore da vida e olho-a: é imensa e maravilhosa. Cores, perfumes, sons, luzes, vento, frescura. A terra é macia e acolhedora, estou num agradável torpor, saciada e satisfeita. Temos tudo para nós. Cultivar, proteger: para quê? Para quem? Depois vejo crianças esfomeadas com a barriga inchada que remexem em montanhas de lixo nas descargas, e vejo o olhar triste, tristíssimo de Deus. Oiço a sua voz, «onde estás?», que me atinge o coração, e volto a ouvi-la muitas vezes. Gostaria de voltar a ser criança e receber o seu sopro de vida nova para recomeçar do princípio, aprender a cuidar, ter o seu olhar.



Imagem "Paraíso" | Lucas Cranach o Velho | 1530


No início vejo um deserto, depois terra árida, argilosa e poeirenta, com as fendas, como quando não chove há muito. Deus apanha um punhado dela com as mãos. De repente, quando Deus sopra nas narinas de um modelo que plasmou, o homem anima-se, é adulto e belíssimo. O homem vive com a sua companheira num grande parque, com árvores seculares para a sombra e árvores de fruto para o alimento. Deus almoça, conversa e brinca com o casal, sentados a uma mesa à sombra de um grande árvore. Os animais deslocam-se, imperturbáveis mas distantes. Sinto que Deus está contente por fruir a brisa da manhã e que antegoza o momento em que poderá conversar com o casal de humanos. É para Ele uma alegria e um repouso. Quando Deus pergunta «onde estás?», intuo a angústia e a tristeza de Deus, como quando alguma coisa a que está muito ligado se rompe irremediavelmente. Deus sabe imediatamente que o ser humano que tanto amava se estragou, perdeu algo de belíssimo, não compreendeu, já não poderá conversar com Deus como antes. Mas esta perda vale também para Deus, que perdeu a companhia do ser humano. No regresso ao presento intuo que quando Deus nos olha se entristece muito, vê a corrida do ser humano para chegar ao domínio da inteligência artificial, o abandono de si mesmo à tecnologia, e a corrida ao consumo de solo e de almas, com os arranha-céus e as habitações alveolares ou como formigueiros. Pergunta-se o quão cegos somos, e quão necessitados de ajuda somos para sair destes paradigmas que nos afastam da harmonia da criação e, portanto, dele. Tem muito que nos ajudar. Converso com os companheiros: enquanto orava, uma mosca fastidiosíssima começou a zumbir pela sala, como louca. Quereria tê-la esmagado, mas disseram-me que isso não seria coerente com o tema da oração. No fim de contas também ela era uma criatura. Veio à minha mente as pessoas que por vários motivos não nos agradam, mas que também são nossas irmãs, e têm as suas angústias.



Imagem "O jardim do Éden" | Adi Holzer | 2012


O Eterno cria o tempo e entra no tempo com gestos que movem galáxias, e com palavras que ninguém pode escutar forma correntes de vida primeiro que alguma coisa tenha um nome. Cores e sons. Sons e cores e perfumes. Quem sou eu, quem sou para ver tudo isto? Êxtase. E quem sou eu, quem sou para ver miasmas infernais, colunas de fumo negro terror, distãncias abissais do desígno de amor que, então como agora, promete que nos espera? Meu Senhor, meu Deus, concede a esta tua criatura que enxugue algumas lágrimas com bálsamos de esperança, com asas de borboletas encantadas como naquele primeiro jardim. Concede a esta voz, grata de tanta beleza e testemunha da destruição que uma humanidade ávida, cruel e insensata lhe inflige, furando corações, crucificando inocentes. Concede, ó Deus, a esta voz quase sem voz que cante o canto da vida que só em ti pode viver.


 

In Centro Culturale e Galleria San Fedele
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem de topo: "O jardim do Éden" (det.) | Erastus Salisbury Field | 1860
Publicado em 26.05.2020

 

 
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