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Rumo ao amor, dia 31: Ritmos acelerados e loucos

Por vezes pergunto-me se não faço uma vida de idiota, com os ritmos loucos que o coração não consegue seguir.

Charles Baudelaire escreveu que «as cidades, hoje, transformam-se mais rapidamente do que o coração de um homem».

Hoje há um excesso de gente amassada num espaço demasiado pequeno, demasiadas pessoas, demasiados olhares, demasiados odores, demasiado de tudo em relação àquilo que somos capazes de suportar.

Há algum lamento por causa disso, mas a velocidade agrada-nos, faz-nos sentir úteis, como uma droga habitua e preenche os tempos mortos, distanciando-nos cada vez mais de nos olharmos por dentro.

O crescimento do ritmo ocorre durante muito tempo sem consequências visíveis, mas a certo ponto chega-se a um limiar e tudo resvala para algo diferente.

O ativismo desmantela-te o centro, onde tu és, e conduz-te para um mundo perdido e desorientado de fragmentos.

Vivemos relações humanas frágeis e descontínuas que tornam cada vez mais difícil quer as amizades profundas e duradouras, quer as relações amorosas.

Em África dizem: «Paremos para permitir às nossas almas que nos alcancem».



Na vida verdadeira, onde o quotidiano tem o seu preço mais alto, o ritmo a que devemos obedecer deve ser lento, para não trair ninguém, para não se ser infiel à diversidade



Agora vivemos no mundo ativo do sol, sem respeitar as exigências da lua, sem ter satisfeito a necessidade de lentidão e de “autocura” que as nossas vidas e o nosso corpo requerem. A pressa anestesia, mas não permite que as feridas se curem.

É forte a sensação de que os espaços em que domina a velocidade são demasiados, e a depressão é um grito de ajuda para desacelerar o ritmo da existência.

A vida quotidiana é, por natureza, lenta: aprende-se lentamente a conhecer as pouquíssimas coisas em que dura o eterno.

A aceleração do tempo torna o presente volátil, e isto faz-nos medo porque o presente é o lugar das emoções, dos encontros, das escolhas, e requereria mais do que enchermo-nos de coisas que nos fogem, requereria um tempo de estabilidade a valorizar e a viver.

A sobreabundância de acontecimentos, de palavras e de coisas exige voltar a dar um sentido ao presente, torna-lo um espaço onde se despe a armadura e se desfazem as malas para poder voltar a habitar os sentimentos, os ambientes e os pensamentos.

Não habitar o espaço conduz-nos a tornarmo-nos estranhos a nós próprios, aos nossos objetos, à nossa casa, às pessoas, ao nosso corpo.

Diz-se que os flocos de neve que nascem velozmente no céu têm a forma mais complexa, enquanto aqueles que se formam lentamente são mais simples. Na vida verdadeira, onde o quotidiano tem o seu preço mais alto, o ritmo a que devemos obedecer deve ser lento, para não trair ninguém, para não se ser infiel à diversidade.

A lentidão serve-nos para compreender que o nosso afeto é mais rico do que qualquer palavra nossa, que a ansiedade tem um coração que bate, que alguém, desde a aurora dos mundos, preparou o teu hoje.


 

Luigi Verdi
In Il domani avrà i tuoi occhi, ed. Romena
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: UK-VIT/Bigstock.com
Publicado em 27.03.2020

 

 
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