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Rosário: Dos santos aos papas, de Mozart a Fátima

No mês de maio, o povo cristão, armado de “grinaldas”, redescobre o rosto de Jesus na escola da Virgem Maria, a Rainha do Santo Rosário. Rosário é o substantivo proveniente do latim “rosarium”, roseiral, jardim de rosas, que a partir do contexto do monaquismo do século XII, com os Cartuxos e os Cistercienses, e ainda antes no século IX nos mosteiros da Irlanda, assume a conotação religiosa, marcada em especial pelo uso de colocar uma coroa ou grinalda de rosas nas imagens de Nossa Senhora, simbolizando as muitas orações perfumadas oferecidas a Maria, a que se seguiu a utilização do cordão de contas como instrumento para a recitação.

A afirmação da prática e os seus “direitos de autor” pertence a S. Domingos de Gusmão (1170-1221), fundador dos frades pregadores, e aos seus filhos, que a assumiram por duas razões principais: deter a difusão de movimentos heréticos do seu tempo, como os cátaros, e instruir o povo sobre os principais mistérios da fé e a devoção à Nossa Senhora da Misericórdia. É por isso que em cada igreja dominicana os frades reservam um lugar de honra à Senhora do Rosário.

Esta oração foi a consequência lógica do facto de S. Domingos recitar «mil vezes ao dia a primeira parte da Ave-maria, meditando nos acontecimentos principais da revelação cristã, e os seus filhos desenvolveram a devoção do Santo Rosário e dela se tornaram os propagadores».

Em cerca de 800 anos de história, a oração do Rosário atraiu, envolveu e nutriu um número incontável de fiéis, revelando-se ainda hoje como forja formidável de devoção mariana, ainda mais porque é indicada sobretudo como instrumento espiritual de contraposição aos males da sociedade. Não é por acaso que neste mês de maio de trinta santuários de todo o mundo, como o de Fátima (no dia 13) se elevará a maratona de oração do Terço como sinal profético de esperança pelo fim da pandemia.



«Logo após a sinfonia, para festejar fui ao Palais Royal, comi um gelado, recitei o Rosário que tinha prometido e fui para casa»



Uma maneira simples, mas repleta de significado, diria a carmelita Santa Teresa de Lisieux (1873-1897) num dos seus pensamentos dedicados à oração do Rosário, por ser uma longa cadeia que liga o Céu à Terra; uma das extremidades está nas nossas mãos e a outra nas da Virgem. «O Rosário, com efeito, apesar de caracterizado pela sua fisionomia mariana, é oração do coração cristológico. Ne sobriedade dos seus elementos, concentra em si a profundidade de toda a mensagem evangélica, da qual é quase um compêndio» (S. João Paulo II, carta apostólica “Rosarium Virginis Mariae”).

Entre os alunos mais insignes da escola de Maria está o Padre Pio de Pietrelcina (1887-1968), que, escreveu: «Que feliz é o mês de maio! É o mais belo do ano. Como prega bem as doçuras e as belezas de Maria! Inumeráveis foram os benefícios que me fez esta querida mamãzinha! Quantas vezes lhe confiei as penosas ansiedades do meu coração agitado e quantas vezes me consolou! Gostaria de voar para convidar todas as criaturas a amar Jesus, a amar Maria».

Também os papas gravaram, ao longo dos séculos, palavras indeléveis. O dominicano S. Pio V (1504-1572), com a carta apostólica “Consueverunt romani pontifices" definiu a forma tradicional do Rosário; Leão XIII (1810-1903) foi denominado o papa do Rosário, a quem dedicou doze documentos; S. Paulo VI (1897-1978), autor da celebérrima exortação apostólica “Marialis cultus”, de 1974. Um lugar significativo vai também para S. Luís Maria Grignion de Monfort (1673-1713), autor de um importante escrito, intitulado “O segredo maravilhoso do Santo Rosário para converter-se e salvar-se”. Ou Santo Inácio de Loyola (1491-1556), que habitualmente levava a coroa do Rosário; e, ainda, Santa Mria Goretti (1890-1902) que enfrentou o martírio com o Rosário.

A oração do Rosário permite a cada pessoa poder meditar e contemplar os momentos salientes da vida de Jesus, assim como a própria Maria fez continuamente em silêncio durante os dias da vida terrena. O seu sentido está aqui: «Para recitar o Rosário é preciso uma fé viva; mas antes de tudo saber fazer silêncio e meditar» (Romano Guardini). Destaque-se também o que Wolfgang Amadeus Mozart escreveu sobre o Rosário, segundo carta que dirigiu ao P. Leopold em julho de 1778, um só acontecimento que sugere familiaridade: «Logo após a sinfonia, para festejar fui ao Palais Royal, comi um gelado, recitei o Rosário que tinha prometido e fui para casa».

A concluir, a propósito do problema da oração em relação à espiritualidade contemporânea, conta-se que um dos alunos de S. Boaventura de Bagnoregio lhe perguntou: «Mestre, o que pode saber de teologia aquela velhinha à beira da estrada?». Respondeu o santo: «É mais fácil encontrar uma fé sólida numa velhinha que num douto teólogo».


 

Roberto Cutaia
In L'Osservatore Romano
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: Digital Stock/Bigstock.com
Publicado em 04.05.2021

 

 
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