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Rua da Saudade

Santa Sofia

Muito se tem escrito, por estes dias, sobre Santa Sofia, a extraordinária basílica bizantina que o imperador Justiniano mandou construir em 532 e que foi inaugurada passados cinco anos, dedicada à Divina Sabedoria. Com a queda de Constantinopla, em 1453, Santa Sofia foi convertida numa mesquita. Tornou-se museu em 1934, por decisão do Conselho de Ministros turco, presidido por Mustafa Kemal Atatürk.

Por estes dias, todos fomos surpreendidos com a decisão – de Recep Tayyip Erdogan – de convertê-la novamente em mesquita. Multiplicaram-se as reações. No mundo católico, mesmo em Portugal, têm-se escutado todo o tipo de argumentos e até o Papa Francisco manifestou-se «muito desolado».



E as comunidades cristãs? Sem consciência da história cultural da Igreja e sem sensibilidade estética, ficaram com o que sobrou: espaços periféricos em que predomina a indigência artística e cultural, causa e consequência de uma liturgia sofrível, de um lastimável desinvestimento na pastoral da cultura, etc., etc.



Tolero menos as minhas contradições do que as contradições dos outros, motivo pelo qual não posso deixar de questionar a posição dominante no mundo ocidental e nos meios católicos, com a qual não me identifico, em coerência com o que tenho escrito sobre o princípio em questão.

É certo que não me agradaram muitas das decisões de Erdogan, tanto no âmbito da política interna turca, como no âmbito da política internacional. É também certo que desconheço a sua «agenda» em relação a este ou a outros assuntos mais ou menos mediáticos. Mas a questão aqui é outra: é o princípio universal subjacente a esta decisão particular.



Todos conhecemos bem a erosão de um progressivo e consistente processo de secularização no mundo ocidental, na Europa católica… que, ocasionalmente, ainda suspira pela Cristandade, tentação passadista tão ingénua e tão perversa como qualquer outra tentação



É verdade que a Basílica de Santa Sofia, durante quase mil anos, foi um dos mais extraordinários lugares do mundo cristão, tal como a Mesquita de Córdoba – entre os séculos X e XIII – foi um dos mais impressivos lugares do mundo islâmico. Em 1453, a história condenou a Basílica de Santa Sofia a tornar-se uma mesquita, tal como a Mesquita de Córdova, em 1236, tinha sido condenada à condição catedral. São muitos os exemplos destes complexos processos históricos.

São também muitos, como sabemos, os atentados contra o património que estes contextos permitem. Algo que se deve lamentar em relação ao passado e que se deve prevenir em relação ao presente e ao futuro.

Importa lembrar os mais suscetíveis que, 150 depois do Grande Cisma do Oriente [1054] e na sequência da Quarta Cruzada [1202-1204], a Basílica bizantina de Santa Sofia foi uma catedral católica [entre 1204 e 1261]. Quando foi restituído o governo bizantino de Constantinopla, a Basílica já não tinha muitos dos seus antigos tesouros, então espalhados por igrejas do Ocidente e – muitos deles – agora nas vitrinas de importantes museus. Não me parece que seja importante saber se nos deveríamos sentir mais desolados com o que se passou depois de 1204 ou com o que se passou depois de 1453.



Muitos mosteiros foram convertidos em requintadas unidades hoteleiras, com as portas abertas para quem consegue pagar o preço de uma «degustação» desse pretérito mundo monástico. Uma parte do património arquitetónico cristão já não pertence à Igreja e não são poucas as catedrais e os mosteiros que exigem bilhete de ingresso



Tal como a Mesquita de Córdova é – há quase oitocentos anos – uma catedral, a Basílica de Santa Sofia foi – entre 1453 e 1934 – uma mesquita; durante os últimos 86 anos foi um museu e, por estes dias, recuperou a condição de mesquita.

Pergunto: nós – católicos – queríamos mesmo que se mantivesse como um museu? Preferíamos que recuperasse o estatuto de uma basílica bizantina? Ou estaríamos dispostos a ter aí um memorial do Império Latino de Constantinopla?



Não posso dizer que fique desolado, mas entristece-me querer celebrar a minha fé numa basílica ou catedral e, com ou sem bilhete de ingresso, depois de passar horas em filas intermináveis, ter de circular entre o imenso rebanho de turistas deste «admirável mundo novo»



Todos conhecemos bem a erosão de um progressivo e consistente processo de secularização no mundo ocidental, na Europa católica… que, ocasionalmente, ainda suspira pela Cristandade, tentação passadista tão ingénua e tão perversa como qualquer outra tentação.

Neste nosso mundo «largamente desdivinizado», essa «coisa sem transcendência» [como denunciou Ortega y Gasset] que engendrou a mise en scène da «aldeia global», o melhor património arquitetónico dos históricos domínios da tradição cristã europeia é hoje pouco mais do que mera atração turística. E uma boa parte do restante património artístico jaz morto em museus ou em espaços requintados, agora «higienicamente» laicos.

As melhores coleções de arte sacra estão expostas ou guardadas nos armazéns dos grandes museus nacionais. As principais obras da música sacra são, hoje, «objetos neutros» apresentados em salas de espetáculo, também elas «higienicamente» laicas. Muitos mosteiros foram convertidos em requintadas unidades hoteleiras, com as portas abertas para quem consegue pagar o preço de uma «degustação» desse pretérito mundo monástico. Uma parte do património arquitetónico cristão já não pertence à Igreja e não são poucas as catedrais e os mosteiros que exigem bilhete de ingresso. Também não são poucas as igrejas históricas das cidades europeias que só estão abertas para os turistas, na medida em que já não acolhem comunidades cristãs.

E as comunidades cristãs? Sem consciência da história cultural da Igreja e sem sensibilidade estética, ficaram com o que sobrou: espaços periféricos em que predomina a indigência artística e cultural, causa e consequência de uma liturgia sofrível, de um lastimável desinvestimento na pastoral da cultura, etc., etc.



Resta perceber se nós – católicos – acreditamos que o espírito ecuménico beneficia da condição museológica de Santa Sofia. Resta perceber se a sua reconversão em mesquita obstaculiza ou retrasa aquela que deveria ser a nossa prioridade: o Reino de Deus



Num dos artigos em que se criticava a decisão de Erdogan, alguém se referiu a Mustafa Kemal Atatürk como o «pai da Turquia laica e republicana». No seu contexto, esta expressão guarda o tom embevecido do elogio. Seria como se os católicos portugueses evocassem suspirosamente os «pais» do Portugal laico e republicano, a propósito – por exemplo – da expropriação do património da Igreja.

Resta perceber se nós – católicos – acreditamos que o espírito ecuménico beneficia da condição museológica de Santa Sofia. Resta perceber se a sua reconversão em mesquita obstaculiza ou retrasa aquela que deveria ser a nossa prioridade: o Reino de Deus.

Quando visito um museu, sinto que é um mal menor. Muitas vezes, o museu está para as obras de arte como o jardim zoológico está para os para os animais: é uma daquelas perversões que nunca aparecem sem os enfeites da «coisa comum».



São os sinais dos tempos: depois de termos convertido oficiosamente em museus as basílicas da Sagrada Família, em Barcelona, ou a de São Pedro de Roma, ficamos indignados e/ou desolados com a decisão de reconverter Santa Sofia numa mesquita



Entretanto, se houver respeito pela sua história cultural e artística, fico feliz por Santa Sofia acolher novamente – para além dos turistas – crentes que aí celebrem a sua fé. E não me incomoda que sejam islâmicos.

Não posso dizer que fique desolado, mas entristece-me querer celebrar a minha fé numa basílica ou catedral e, com ou sem bilhete de ingresso, depois de passar horas em filas intermináveis, ter de circular entre o imenso rebanho de turistas deste «admirável mundo novo».

São os sinais dos tempos: depois de termos convertido oficiosamente em museus as basílicas da Sagrada Família, em Barcelona, ou a de São Pedro de Roma, ficamos indignados e/ou desolados com a decisão de reconverter Santa Sofia numa mesquita.



Imagem vvoevale/Bigstock.com

 

José Rui Teixeira
Investigador, poeta
Imagem de topo: Gabriel Pacheco | D.R.
Publicado em 29.07.2020

 

 

 
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