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Santo António e a sementeira milagrosa

Final da tarde de um domingo de outubro. Após uma semana de intensa atividade pastoral e laboral, o Fr. Giancarlo concede-se meia hora de leitura no seu quarto, no convento de Santo António, em Pádua. Toca o telefone, o religioso atende. É da portaria: avisam que no parlatório está um casal de meia-idade que gostaria de falar com um frade. «Temos uma história para contar», confiaram os dois ao porteiro.

O Fr. Giancarlo desce logo as escadas para não fazer esperar em demasia os dois hóspedes, segundo a melhor tradição franciscana do acolhimento. Os dois cônjuges terão entre os 40 e os 50 anos. Vieram visitar Santo António, na sua basílica, para lhe agradecer pessoalmente. Mas a gratidão pessoal não basta. Querem que todos conheçam a incrível história de devoção que liga a sua família a António, e que se renovou de geração em geração.

No silêncio do parlatório, o Fr. Giancarlo põe-se à escuta. É o marido o primeiro a tomar a palavra: «Padre, viemos ver o santo para lhe agradecer ter velado pela nossa família. Desculpe-me se estou confuso, mas há uma semana acompanhei o meu pai ao cemitério, e a dor ainda é profunda. No entanto, não podíamos deixar de vir rapidamente, porque a descoberta que fizemos poucos dias após a morte do meu pai, e o que aconteceu a seguir, confirmaram-nos que realmente o santo esteve e está presente na nossa vida, e na de quem a ele se dirija».

Começa assim uma história que tem início oitenta anos antes. Nesse tempo, o pai do nosso peregrino tinha apenas cinco anos. Filho de agricultores, era habitual seguir os pais para o trabalho nos campos, quando o tempo o permitia: enquanto eles aravam, semeavam, ceifavam, ele punha-se a um canto a brincar. A narrativa continua.



O avô recordou-se, naquele momento, da invocação que tinha erguido ao Céu no momento em que tinha visto desaparecer o filho debaixo do cilindro: «Santo António, peço-te, ajuda-nos!»



«Daquela vez, o avô estava a semear. Depois de ter arado e lançado as sementes do trigo, os agricultores passavam pelo terreno um cilindro de pedra com nove quintais de peso, que servia para enviar para o fundo a semente, e a fazer com que a terra assentasse sobre ela, tendo em conta a chegada do inverno. O meu pai observava, atento, os bois que, arduamente, arrastavam o pesado atrelado. Curioso, pensou aproximar-se um pouco, para ver melhor, mas um pé em falso fê-lo escorregar e, num ápice, ficou debaixo do cilindro. O avô, a avó e todos os presentes começaram a gritar e a desesperar-se. Recolheram o pequeno, chocados: na terra estavam ainda decalcados os seus contornos.

Levaram-no de imediato para casa, enquanto alguém foi chamar o médico, que chegou apressadamente e logo o visitou. O doutor não acreditava no que via: a criança assustara-se muito, mas nenhum membro, nenhum osso ou órgão interno pareciam ter sido afetados. “Não sei explicar como aconteceu – disse ao avô –, creio que só a intervenção divina pode ter protegido o vosso filho. Ide e acendei uma vela a Nossa Senhora!”. O avô recordou-se, naquele momento, da invocação que tinha erguido ao Céu no momento em que tinha visto desaparecer o filho debaixo do cilindro: “Santo António, peço-te, ajuda-nos!”. Por isso, disse à mulher: “Temos de agradecer a Santo António. Foi ele que salvou a criança”».

«Desde então, António tornou-se presença assídua na família – confia o peregrino ao Fr. Giancarlo. O avô e a avó continuaram a rezar ao Senhor através dele todos os dias, pedindo-lhe para nunca fazer faltar a sua proteção à família, e transmitiram esta sua profunda devoção também aos filhos. O meu pai também esteve sempre ligado a Santo António: a sua devoção não era superficial, via-se que a relação era profunda. A nós, filhos, nunca nos explicou a razão. Descobrimo-la eu e a minha mulher quando, há poucos dias, depois da sua morte, pegámos nas cartas que guardava cuidadosamente numa gaveta. Num pequeno caderno tinha anotado esta história incrível. Ele era um homem tímido, mas não queria que este acontecimento e a proteção milagrosa que lhe tinha sido concedida por Santo António fosse fossem esquecidos com a sua morte.»



O Fr. Giancarlo, ainda sorridente, enquanto revive aquele diálogo para nós, pensou bem em confiá-lo a estas páginas, para que todos os leitores conheçam um acontecimento verdadeiramente extraordinário na sua normalidade



O Fr. Giancarlo surpreende-se com um sorriso nos lábios: quantas histórias, pequenas ou grandes, semelhantes a esta, escutou na sua vida! Todavia, o espanto renova-se de cada vez como se fosse a primeira. Pela “grandeza” de Santo António, seguramente, mas também pelo afeto que vê retratado nos rostos dos muitos peregrinos que enfrentam quilómetros e desconfortos para dar as suas graças ao santo.

O que o frade ainda não sabe, porém, é o fim da história, que lhe é confiada pela mulher do peregrino, que até àquele momento tinha permanecido em silêncio: «Sabe, padre, sucedeu também outra coisa que para nós é incrível. Quando, terminado o funeral do meu sogro, os homens da funerária nos perguntaram o que queríamos fazer de um grande cesto de flores que tinha sido dado para a triste ocasião, nós respondemos que, se ficasse no cemitério, depressa se estragaria, pelo que pedimos que o levassem para a igreja, para o colocar diante do altar de Nossa Senhora.

Mas quando nós fomos à igreja, para agradecer ao pároco a sua presença no funeral, não encontrámos o cesto diante do altar de Nossa Senhora, mas diante de um altar lateral sobre o qual estava entronizada uma estátua de Santo António. Pode imaginar o nosso espanto. Perguntámos ao pároco o motivo, e ele respondeu que tinha sido ele próprio a dizer aos empregados da funerária para o colocar ali, dado que a imagem, naquele dia, não tinha flores a ornar o seu altar. Poder-se-ia dizer que foi um acaso, mas nós, padre, estamos seguros de que foi Santo António a guiar o pároco na sua decisão, quase a querer sublinhar o laço com o meu sogro e a nossa família era e é real e autêntico».

Terminada a história, os dois cônjuges estão radiantes: com as suas palavras deram testemunho de António. Confiaram o que lhes aconteceu às mãos de um frade, um confrade do santo: estão certos de que ele saberá o que fazer da narrativa. E o Fr. Giancarlo, ainda sorridente, enquanto revive aquele diálogo para nós, pensou bem em confiá-lo a estas páginas, para que todos os leitores conheçam um acontecimento verdadeiramente extraordinário na sua normalidade.

Nunca saberemos realmente quais são as intervenções milagrosas de António. Decerto há experiências que não se explicam, há histórias que não se podem compreender profundamente a não ser com os olhos da fé, essa fé simples e essencial que dá graças ao Senhor por cada dia concedido nesta Terra, e que conduz a confiar-se a ele com a imediatez de uma criança.


 

Sabina Fadel
In Messaggero di sant'Antonio
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: "Semeador" (det.) | Van Gogh
Publicado em 21.01.2020

 

 
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