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Santo Sudário: O que diz a ciência recente?

Os sinais de tortura visíveis no Santo Sudário (alguns estudiosos contaram 123) serão compatíveis com as flagelações usadas ao tempo de Jesus, revela uma análise conduzida por Flavia Manservigi, investigadora da Universidade de Bolonha e membro do Centro Internacional de Estudos sobre o Sudário.

Sabemos dos Evangelhos que, antes da crucificação, Jesus sofreu a flagelação. E sabemos, através de várias fontes históricas, que no mundo antigo essa era uma prática brutal, uma forma de tortura particularmente cruenta, de tal maneira que não podia ser infligida aos cidadãos romanos, mas apenas a criminosos fora dessa cidadania e escravos, ou seja, pessoas consideradas quase como animais. Por isso, foi esse o destino que Jesus padeceu nas horas tremendas da paixão. E disso o Sudário guardado na catedral de Turim poderá dar testemunho, em forma de imagens.

Para os crentes, o Sudário, ou seja, o lençol que, segundo a tradição, envolveu o corpo de Jesus após a deposição da cruz, é antes de tudo um ícone, isto é, uma referência espiritual, a ler com os olhos da fé.

Mas, o que diz a arqueologia? Tentar responder significa escancarar um mundo de perguntas. Sim, porque a autenticidade (mas só o termo é já problemático) do Sudário é uma questão continuamente debatida, que vê ilustres especialistas alinhados em frentes opostas: há quem considere que se trata de um documento compatível com a época de Cristo, e quem sustente que se trata de uma manufatura medieval.



Num artigo publicado em fevereiro na revista “Forensic Science International: Reports”, o imunologista norte-americano Kelly Kearse coloca em dúvida a afirmação de que se trata de sangue humano, conclusão a que tinham chegado alguns estudos conduzidos nos anos 80 (houve até quem identificasse o grupo sanguíneo: AB)



O Centro Internacional de Estudos sobre o Sudário evitou sempre enfileirar em posições pré-concebidas, procurando, antes, aproximar-se dele com um olhar o mais rigoroso possível e livre de preconceitos. E é neste quadro que se colocam os recentes estudos sobre a flagelação. Vejamos, mais em detalhe, de que se trata.

Manservigi começou a sua investigação comparando os sinais presentes no Sudário com as formas de alguns flagelos conservados nos Museus do Vaticano, e constatou uma possível compatibilidade. Nestes últimos meses, expandiu o estudo, procurando outras fontes. Gradualmente, estão a emergir testemunhos pertencentes a épocas diferentes e disseminadas na Europa: de Verucchio, próximo da cidade italiana de Rimini, a Londres, onde se conservam alguns flagelos do tempo saxão.

«Movemo-nos num terreno delicado», refere a jovem estudiosa. «Estamos a falar de instrumentos  feitos com materiais perecíveis: por isso, os testemunhas que chegaram até nós são poucos. Mas também escasseiam as fontes iconográficas: objetos deste género eram raramente representados no mundo antigo, a não ser que tivessem uma valência simbólica ou fossem associados a algum mito».

Todavia, os dados disponíveis até hoje, embora não abundantes, permitem considerar «que no mundo antigo foram espalhados flagelos como terminações globulares, como pequenas esferas». E é a instrumentos com essa aparência que parecem fazer referência os traços do Sudário.

Emerge, entre outros, um detalhe que provoca reflexão: «Alguns destes objetos são, na realidade, classificados como aguilhões para cavalos, mas é possível que fossem também usados para infligir torturas a escravos e condenados, pessoas que na mentalidade do tempo não tinham um estatuto plenamente humano, mas eram quase assimiláveis a animais. Isto impele-nos a interrogar-nos também sobre o papel que o cristianismo teve na promoção da dignidade da pessoa».



«Partimos do pressuposto que o sangue começa a degradar-se assim que sai do organismo. No caso de sangue antigo, conseguir identificar a espécie é muito difícil, a menos que o sangue tenha sido conservado em condições ótimas». Não é, decerto, o caso do Sudário, submetido ao longo dos séculos a diversos agentes contaminantes



A propósito de estudos recentes, reabre-se o debate sobre vestígios de sangue presentes no tecido. Num artigo publicado em fevereiro na revista “Forensic Science International: Reports”, o imunologista norte-americano Kelly Kearse coloca em dúvida a afirmação de que se trata de sangue humano, conclusão a que tinham chegado alguns estudos conduzidos nos anos 80 (houve até quem identificasse o grupo sanguíneo: AB).

Segundo Kearse, a identificação da espécie seria dúbia: com os métodos de análise usados à época dos estudos, por efeito das denominadas reações cruzadas, poder-se-ia ter obtido resultados análogos também a partir de sangue não humano. Atente-se, no entanto, que liquidar a questão falando de “sangue falso”, como por vezes ocorre nestes casos, seria um erro grave. Kearse não diz, com efeito, que o sangue é “falso” (por muito que a palavra possa ter sentido em âmbito científico), mas apenas que os métodos usados não permitem chegar a conclusões certas.

O testemunho de Walter Memmolo, cirurgião e membro do Centro Internacional de Estudos sobre o Sudário, ajuda-nos a compreender o quanto é difícil conduzir estudos sobre vestígios hemáticos do género.

«Partimos do pressuposto que o sangue começa a degradar-se assim que sai do organismo. No caso de sangue antigo, conseguir identificar a espécie é muito difícil, a menos que o sangue tenha sido conservado em condições ótimas». Não é, decerto, o caso do Sudário, submetido ao longo dos séculos a diversos agentes contaminantes, incluindo elevadas temperaturas. Além disso, as amostras disponíveis no lençol turinense são extremamente exíguos, «e não se trata sequer de sangue  inteiro, mas de sinais de coágulos, com halos de soro», esclarece Memmolo.

Em todo o caso, deve relevar-se que os vestígios hemáticos se associam à imagem de um homem torturado e crucificado. Uma marca misteriosa, da qual não conhecemos a origem (seguramente não é uma pintura, nem uma impressão, nem uma imagem obtida a partir de um baixo-relevo ou com outras técnicas conhecidas), sobre a qual ninguém até agora pôde dizer a última palavra.


 

Lorenzo Montanaro
In Famiglia Cristiana
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: Sínodo de Turim | D.R.
Publicado em 10.07.2020

 

 
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