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Se o Covid-19 assusta, então devíamos ficar apavorados com as alterações climáticas

«É pior, muito pior, do que pensa.» É assim que o jornalista David Wallace-Wells abre o seu livro “A terra inabitável” (ed. Lua de Papel, 2019, 368 pp.), sobre as alterações climáticas globais. Esta frase descreve adequadamente as terríveis circunstâncias que o nosso planeta enfrenta agora e nos próximos anos, mas é igualmente uma descrição apropriada para as consequências atuais e futuras da pandemia do coronavírus.

No passado domingo passaram cinco anos que o papa Francisco promulgou a sua encíclica “Laudato si’ – Sobre o cuidado da casa comum”. Para assinalar este acontecimento, apelou à adesão ao “Ano Laudato si’”, que começou naquela data.

A esta luz, tenho pensado muito no livro de Wallace-Wells e o seu pessimismo, cientificamente baseado, sobre o futuro da vida naquela que o papa denomina «a nossa casa comum», especialmente num período em que enfrentamos uma pandemia global que não tem paralelo nos últimos cem anos. Como os iminentes efeitos das alterações climáticas globais em geral, a crescente ameaça e realidade das pandemias globais são piores, muito piores, do que se pode pensar.

Se ainda não tomou a sério a mudança climática global pela ameaça que é, agora é o tempo oportuno – e talvez a sua última oportunidade – para abraçar a “conversão ecológica”. Durante décadas, muitas pessoas, incluindo mulheres e homens de fé, minimizaram ou puseram abertamente de parte a realidade das consequências humanas no ambiente. Desde explicações despreocupadas para perturbações nos padrões climáticos, na linha do «sempre houve um ciclo natural de mudança climática», até teorias de conspiração absolutamente absurdas segundo as quais a mudança climática é simplesmente uma "farsa", as pessoas, por várias razões, desconsideraram o que a ecologia estava a revelar.



À medida que o planeta continua a aquecer, as regiões de clima tropical expandir-se-ão e alcançarão novos lugares até então não acostumados a esse calor e humidade. Juntamente com a mudança climática, chegarão efeitos como mosquitos e carraças transmissores de doenças



Talvez a ameaça parecesse demasiado remota - em termos de geografia, tempo ou espécies mais afetadas - para sensibilizar a experiência diária de muitos de nós. Talvez a negação tenha sido enraizada na ganância financeira e motivada por valores capitalistas que consideram tudo, menos o beneficiário, como meio para um fim monetário.

Seja qual for o motivo, por demasiado tempo aqueles que minimizaram e descartaram os riscos aterradores da mudança climática convenceram-se de que elas não as afetam. (Mesmo algumas vítimas dos denominados "desastres naturais", como inundações e incêndios florestais, recusam-se a ver a ligação causa-efeito.)

Como muitos outros angustiados com a inação coletiva e a ignorância pessoal, perguntei-me o que seria necessário para mais pessoas começarem a levar a ameaça a sério. Poderia haver um momento em que algo tão catastrófico, tão antropocêntrico, poderia ocorrer para despertar os negadores do clima da sua autoilusória sonolência? A pandemia poderia encaixar-se nesses pressupostos.

Se não gosta da realidade atual da generalização da doença, morte, colapso económico e confinamentos, então deveria direcionar as suas energias para combater as mudanças climáticas.



O que é verdadeiramente arrepiante é o ritmo em que as coisas podem mudar tão dramaticamente e, possivelmente, irreversivelmente. Pense em fevereiro deste ano. Onde é que estava? O que estava a fazer? Como é que vivia? Agora pense em como se transformou a vida do dia a dia um mês depois



Algumas pessoas falam sobre um eventual regresso à vida "normal" assim que uma vacina for desenvolvida ou a imunidade de grupo ter sido conseguida. Mas os especialistas alertam para não sermos tão otimistas. Outros falam de como a atualidade - máscaras em público, distanciamento social, viagens restritas – pode ser indicativa de um "novo normal".

Mas mesmo esses alertas não levam em consideração o facto de não termos alcançamos um novo equilíbrio. Nem sequer estamos perto. Não há nada "normal" (novo ou não) sobre o que estamos a experimentar durante a pandemia, porque, como Wallace-Wells escreve, «a verdade é, na realidade, muito mais assustadora. Ou seja, o fim do normal; nunca mais normal». As coisas tendem a ficar muito, muito piores, e não há indicações de que possamos voltar ao local histórico de onde viemos.

Wallace-Wells dedica um capítulo às “pragas do aquecimento”, no qual descreve a probabilidade assustadora de que o que estamos a testemunhar com o Covid-19 são apenas os preliminares de «flagelos existentes realocados, religados ou mesmo “re-evoluídos” pelo aquecimento [global]». Ele dá vários exemplos de como a mudança climática vai exacerbar futuras pandemias.

À medida que o planeta continua a aquecer, as regiões de clima tropical expandir-se-ão e alcançarão novos lugares até então não acostumados a esse calor e humidade. Juntamente com a mudança climática, chegarão efeitos como mosquitos e carraças transmissores de doenças como a febre-amarela, dengue, malária e doença de Lyme. Como propõe Wallace-Wells, a cada ano novos surtos dessas e outras doenças são registados em locais onde antes não ocorriam.



Embora muito mais pudesse ter sido feito para minorar o sofrimento desnecessário e extremo que testemunhámos no mundo devido à incompetência política e à fraca liderança, esta pandemia não poderia ter sido totalmente evitada



Além disso, essas doenças infeciosas vão continuar a sofrer mutações, causando estragos em populações cada vez maiores, de maneiras novas e, por vezes, totalmente imprevisíveis. Pense-se em 2016 e no surto de zica. Wallace-Wells observa que poucas pessoas no chamado norte global se preocuparam com essa doença (ou sequer ouviram falar dela) há apenas alguns anos. «Uma razão para não se ter ouvido falar sobre o zica até recentemente é que ele estava preso no Uganda e no sudeste da Ásia; outra é que, até recentemente, não parecia causar deficiências à nascença». Parece que a doença sofreu uma mutação na sua jornada para as Américas, e suas consequências tornaram-se terríveis de maneiras novas e assustadoras.

Após a pandemia, é compreensível a preocupação com bactérias e vírus nocivos, como o SARS-CoV-2, que causa o COVID-19. Mas e os bilhões de "boas bactérias" das quais dependemos para viver e desempenhar funções corporais básicas, como a digestão? Como sublinha Wallace-Wells, «atualmente, mais de 99% das bactérias presentes no corpo humano são desconhecidas pela ciência, o que significa que estamos a operar com uma ignorância quase total sobre os efeitos que as mudanças climáticas podem ter sobre os organismos que estão no interior, por exemplo, das nossas entranhas».

Se não está preocupada com a possibilidade de as mudanças climáticas afetarem diretamente os triliões de bactérias que já vivem dentro de si, transformando-as, potencialmente, em inimigos mortais em vez de em amigos necessários, reserve algum tempo para conhecer o que aconteceu aos antílopes saiga em 2015, cuja maioria da população global morreu subitamente de uma infeção bacteriana. Se há algo que a pandemia do Covid-19 nos deve ensinar é que também somos criaturas suscetíveis às mesmas coisas de todos os outros organismos deste planeta.



Se existe uma consequência para o medo e perda ocasionados pela atual pandemia, talvez seja a de não voltarmos a subestimar a realidade e a ameaça das mudanças climáticas globais



O que é verdadeiramente arrepiante é o ritmo em que as coisas podem mudar tão dramaticamente e, possivelmente, irreversivelmente. Pense em fevereiro deste ano. Onde é que estava? O que estava a fazer? Como é que vivia? Agora pense em como se transformou a vida do dia a dia um mês depois.

Embora muito mais pudesse ter sido feito para minorar o sofrimento desnecessário e extremo que testemunhámos no mundo devido à incompetência política e à fraca liderança, esta pandemia não poderia ter sido totalmente evitada. A imprevisibilidade de tais crises globais continuará, e as mudanças climáticas só as irão piorar.

Durante a Guerra Fria, falava-se muito sobre a "destruição mutuamente garantida" que controlava dois Estados nucleares rivais. Mas quando se trata de mudanças climáticas globais, não existe um acordo de cavalheiros; existe apenas "destruição universalmente garantida", que ameaça todas as criaturas, humanas ou não. Se existe uma consequência para o medo e perda ocasionados pela atual pandemia, talvez seja a de não voltarmos a subestimar a realidade e a ameaça das mudanças climáticas globais. Pois o que está em jogo não é apenas a vida como a conhecemos, mas qualquer vida.


 

Daniel Horan, ofm
In National Catholic Reporter
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: volrab vaclav/Bigstock.com
Publicado em 27.05.2020

 

 
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