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Rumo ao amor, dia 16: A simplicidade

Estou na praça da aldeia com o meu amigo invisual, falo, brinco, ironizo sempre com ele como se estivéssemos numa sala fechada e escura onde comunicamos sem cores nem espaços, altura e profundidade. De repente, vem ao nosso encontro o Pascoal, o louco-sábio da terra, que me pergunta: «Quem é?».

Respondo-lhe, baixinho: «É um amigo meu invisual, chama-se Sílvio». Ele agarra-lhe a mão e diz: «Olá Sílvio, chamo-me Pascoal, estamos na praça da aldeia, a praça é bela, o sol está no horizonte, na praça há muita gente, e tudo isto sorri para ti». Emudeço: em tantos anos, nunca fui tão simples como o Pascoal.

Não sabemos ser simples porque nos falta a coragem e a humildade de ser tal como somos; essa simplicidade que, como diz Dante Alighieri, é a beleza do branco como a síntese de todas as cores; simplicidade que é como o ar de que se vive sempre, mas de que só te dás conta quando é mais puro.

Se soubermos ser simples, quando chega a dor, a crise ou a morte, bastar-nos-á um pequeno passo, se somos complicados precisaremos de muitos.

Simplicidade como a de Jesus, que escuta o grito, que lava os pés, que é criança, que é jovem operário, que não se serviu do divino para encontrar o pão, que não se aliou aos poderosos, que não se lançou do pináculo do tempo para fazer fáceis milagres; simplicidade que teve no momento em que chegou a provação e não escapou.

Quanta banal estupidez há em quem pensa que produz por si a simplicidade. A verdadeira simplicidade é um mistério que não se alcança com os próprios esforços ou com as próprias virtudes, mas é o reflexo em nós de uma luz que nos é dada pelo mais simples dos simples: Deus.



Quantas vezes experimentei que quando pensava a ser eu a decidir e a programar, sucedia que, inesperadamente, a um canto oculto e silencioso, o essencial se tornava visível



Simplificar: é este o empenho contínuo que tentei concretizar nos pensamentos, no falar, no projetar. Busquei sempre um, dois ou no máximo três pontos para esquematizar os pensamentos. Quando escrevo, tento ser breve, condensar, reler e eliminar tudo aquilo que é inútil: o ser-se conciso faz ganhar sempre em força. Experimentei que se ganha sempre no retrabalhar-se.

Hoje, para além da sabedoria dos livros e do gritar convertei-vos, acredito que é preciso outra coisa: curar, e não gritar, porque não faltam as pregações, faltam a graça e a simplicidade.

Para além de buscar uma espiritualidade complicada, é-nos dito: «Se não vos tornardes como crianças…». Crianças que se maravilham e escutam.

Cada palavra de Jesus deve corresponder a atos; de outra maneira, como muitas vezes me aconteceu, o entusiasmo inicial acaba no vazio.

A coisa que espanta de Jesus é o poder da sua liberdade e a sua espontaneidade. Mete medo este homem de coração grande, universal e ao mesmo tempo de vida simples. É grande o seu natural acolher aquilo que é compreensível e aquilo que não o é: o simples oferece sempre hospitalidade à diversidade.

Hoje procura-se com a lanterna pessoas das quais se irradie algo da luz e da proximidade das origens, procura-se, cada vez mais, pessoas abençoadas que saibam indicar a este nosso tempo um exemplo de como viver.

Hoje é fácil encontrar um amor generoso, mas quão raro é um amor delicado e respeitoso por cada criatura, quão poucos filhos do silêncio, com o estilo que Charles de Foucauld sempre me indicou: «Sê ternura, amor, confiança total».

Quantas vezes experimentei que quando pensava a ser eu a decidir e a programar, sucedia que, inesperadamente, a um canto oculto e silencioso, o essencial se tornava visível.

Sim, muitas coisas me confirmaram que Deus é o Deus dos particulares e das pequenas atenções.


 

Luigi Verdi
In La realtà sa di pane, ed. Romena
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: Iryna Imago/Bigstock.com
Publicado em 12.03.2020

 

 
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