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Sobre vós construirei a minha Igreja doméstica

Jesus escolhe os seus discípulos, em particular aqueles com os quais quer contar como pastores, com um critério que não é fácil de compreender. Depois do grande milagre da multiplicação dos pães, o Senhor fica em terra, sozinho, enquanto os doze começam uma difícil travessia do mar da Galileia: «A barca estava já a muitas milhas de terra e era agitada pelas ondas: o vento, com efeito, era contrário (Mateus 14,24). E os discípulos sentem-se sós e abandonados, e começam a esquecer as grandes coisas que viram: apenas sentem a ameaça das ondas e a distância de Jesus.

Tempestades haverá sempre, a paz prometida por Jesus não é a calma plana de uma vida sem imprevistos. Não conseguireis – parece dizer Jesus – dominar as contrariedades, as perseguições, os muitos maremotos que tereis de enfrentar pessoalmente e todos juntos. Mas ao terminar a noite, Ele foi ao seu encontro caminhando sobre o mar. Não vos ensino a acalmar a tempestade, mas a navegar, apesar do medo: mesmo que não tenhais a situação sob controlo, sabei que nunca estareis sós.

Vendo Jesus que chega a caminhar sobre as ondas, os discípulos gritam: é um fantasma! E o Mestre tranquiliza-os: coragem, sou Eu, não tenhais medo. E Pedro vence o medo, salta a borda da barca e apoia um pé a seguir ao outro sobre a superfície do mar, dando-se conta, com grande surpresa, que é capaz de caminhar sobre as ondas. A sua fé, todavia, é imperfeita, de tal maneira que após poucos passos começa a duvidar e a afundar-se. Mas o primeiro dos apóstolos não foi escolhido por ser sólido e imperturbável, nem por a sua confiança no Mestre, que é autêntica e generosa, ser perfeita.



«Sobre esta pedra edificarei a minha Igreja». Não sobre um monólito perfeito e sem fissuras, mas precisamente sobre vós, tal como sois e como Eu vos chamei: quero construir a minha Igreja doméstica sobre o vosso amor conjugal que se renova dia após dia»



Vêm em nosso auxílio algumas palavras de Chesterton: para assentar as bases da sua Igreja, «Cristo não escolhe como pedra angular o genial Paulo ou o místico João, mas um trapalhão, um snob, um cobarde: numa palavra, um homem». Os impérios humanos, construídos sobre o mito do Super-homem, desabaram por causa da «intrínseca e constante fragilidade de terem sido fundados por homens fortes sobre homens fortes. Mas esta realidade única, a histórica Igreja cristã, foi fundada sobre um homem fraco, e por esse motivo é indestrutível. Porque nenhuma corrente é mais forte do que o seu elo mais fraco».

Normalmente, aplicamos os ensinamentos deste episódio sobretudo às pessoas que têm tarefas de governo na Igreja. Pode, porém, revelar-se iluminador pensar também nos pais, escolhidos pelo Senhor para governar, nos limites do possível, a Igreja doméstica que é cada família. Não temas, diz Jesus a cada mãe e a cada pai, se não controlas a situação: a saúde do sogro, os resultados escolares da filha, o diálogo com aquele ramo da família com o qual há uma grande tensão…

E não temas se os teus filhos se derem conta das tuas imperfeições e fraquezas; também Pedro as tinha, e Deus escolheu-o, e a ti, para confiar as suas ovelhas, que são precisamente aquelas criaturas que tens em casa. Só te peço que não duvides do meu amor por ti, e que, em família, avancem juntos, mesmo quando tudo parece incerto e pouco confiável, mesmo quando te peço para caminhar sobre as águas… «Sobre esta pedra edificarei a minha Igreja». Não sobre um monólito perfeito e sem fissuras, mas precisamente sobre vós, tal como sois e como Eu vos chamei: quero construir a minha Igreja doméstica sobre o vosso amor conjugal que se renova dia após dia.

«A família é – ensina o papa Francisco –, mais do que qualquer outro, o lugar em que, vivendo juntos no quotidiano, se experimentam os limites próprios e dos outros, os pequenos e grandes problemas da coexistência, do pôr-se de acordo. Não existe a família perfeita, mas não é preciso ter medo da imperfeição, da fragilidade.» Não é preciso ter medo de caminhar sobre as águas da vida quotidiana familiar.


 

Carlo De Marchi
In L'Osservatore Romano
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: diignat/Bigstock.com
Publicado em 05.08.2020

 

 
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