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Stanley Donen: Jornal do Vaticano evoca realizador de “Serenata à chuva”

A 21 de fevereiro, poucos dias antes de Hollywood se celebrar a si mesma com a cerimónia de entrega dos Óscares, desapareceu em Nova Iorque um dos últimos grandes nomes do seu período dourado: o génio do musical Stanley Donen.

Nascido em Columbia, capital da Carolina do Sul, em 1924, o realizador começa a sua obra no fim dos anos 40, quando a “fábrica dos sonhos” não está longe de iniciar a sua parábola descendente e o género emanado da Broadway parecia já ter dado tudo nas duas décadas anteriores.

No entanto, graças também à preciosa associação com um bailarino e coreógrafo do nível de Gene Kelly (creditado como co-realizador nos filmes em que colaboraram juntos), Donen ainda vai a tempo de revelar alguma coisa de revolucionária logo com a sua primeira película. “Um dia em Nova Iorque” (1949) é, com efeito, a obra-prima que finalmente desvincula o musical das suas heranças teatrais.

O denominado musical de bastidores, isto é, a narração da preparação de um espetáculo, que até àquele momento tinha monopolizado o género, e que já o genial Busby Berkeley tinha tentado expandir com as suas pirotecnias e coreografias caleidoscópicas, é definitivamente desmantelado com um filme em que os números musicais invadem literalmente as ruas – reais ou reconstruídas –, numa eletrizante manta de retalhos figurativa, e em que dança e canto se fundem com diálogos e ações “normais” com uma naturalidade que permanecerá, talvez, incomparável, até da parte de Vicente Minnelli, que já tinha tentado dizer algo de análogo no ano anterior com “O pirata dos meus sonhos”, experiência seminal, mas ainda imatura, nessa direção.

A segunda obra-prima no espaço de poucos anos é “Serenata à chuva” (1952). Aqui, o perfeito mecanismo narrativo, recentemente inventado, está ao serviço de uma evocação da Hollywood empenhada na passagem do cinema mudo ao sonoro.

Um jogo metacinematográfico que incorpora o velho musical de palco com uma atitude que é tanto uma homenagem como um gracejo. A segurança da realização de Donen vai até ao limiar de um cinema pós-moderno decididamente à frente de seu tempo, consistentemente apoiado por uma estética hiper-realista que ainda hoje surpreende.

Com “Sete noivas para sete irmãos” (1954), volta-se a invadir o mundo, que neste caso é representado pelos montes do Oregon. Ao falar dos rudes madeireiros e ao confiar – desta vez ao menos conhecido Michael Kidd – coreografias muito atléticos e muito pouco “glamour”, sempre, todavia, no contexto de uma produção da esplêndida Metro Goldwin Mayer, Donan confirma-se como autor inteligentemente iconoclasta.

Entre os seus outros musicais que merecem pelo menos citação está “Dançando nas nuvens” (1955), em que desafia Minnelli e George Cukor no terreno de um espetáculo de gosto mais amargo e reflexivo. O que impressiona, de novo, é a modernidade da sua consciência metacinematográfica. Os três protagonistas que regressam da frente de guerra são claramente a versão crepuscular dos três marinheiros do filme de estreia. Nos anos 60, encerrada fisiologicamente o tempo do musical, o cineasta dedicar-se-á à comédia, com excelentes resultados, como “Charada” (1963) ou “Caminho para dois” (1967).


 

Emilio Ranzato
In L'Osservatore Romano
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: D.R.
Publicado em 25.02.2019

 

 
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