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É tempo de vida autêntica, de passar do umbral para o centro da História

«Que coisa ou quem procuras?» são as perguntas que Jesus dirige constantemente a cada um de nós, e que são vitais, inclusive para o ateu, para poder compreender o que é que nos está a estimular. Elas solicitam uma resposta consciente, que parte de uma consciência das necessidades reais e pessoais, para as poder gerir e conjugar com o sentido da existência. É a condição que permite descontaminar o campo que muitas vezes está obstruído por uma busca superficial e sem objetivos a alcançar.

Hoje, quem ou o que é que procuras? A tentação de chorar as cebolas do Egito está à espreita. Pelos comentários que circulam, evidenciam-se que muitos gostariam de retomar a sua vida como antes. Como se nada tivesse acontecido neste tempo!

A precariedade e a fragilidade foram experimentadas com intensidade diferente por todos, e não foi fácil para muitos descobrir os seus contornos limitativos, sobretudo quando foi tocado o pó de que somos feitos. Cada um foi obrigado a acertar contas com os efeitos da pandemia, teve de redimensionar o delírio da sua omnipotência, romper a imagem intocável construída ao longo dos tempos.

Descobrimo-nos frágeis, inseguros, inconsistentes, fluidos. Cada pessoa, por raiva ou por fé, viu-se em contacto com o limite, procurou superá-lo ou rompê-lo, viu-se diante do inultrapassável ou do Invisível.



Não podemos permitirmo-nos permanecer como espetadores no limiar da História. É urgente o envolvimento na política, «a forma mais alta de caridade», como é definida pelo papa Francisco, na sociedade, para levar a cada contexto o contributo livre, e não ideológico, humano e evangélico que tenha em conta não só a pessoa singular, como também o bem comum



Implodimos ou estamos abertos à busca? Consideramos anacrónicas as perguntas sobre o sentido, e, na verdade, só as acantonámos. Sem a clareza do sentido da vida, também nós, cristãos, em alguns momentos, vimo-nos às apalpadelas na escuridão ou na confusão.

De quem andamos à procura, e como somos portadores de bem onde quer que vivamos? A História interpela-nos hoje, muitas vezes, com o silêncio. Chegou o tempo de opções evangélicas que tornam a nossa vida credível com o testemunho. Não basta conhecer intelectualmente Deus, é preciso procurar constantemente o seu rosto, seguir Jesus Cristo e o Evangelho, estabelecer constantemente uma relação com Ele. Vivendo na presença de Deus, apesar de ainda estarem presentes comportamentos individualistas, podemos construir com o Ressuscitado uma sociedade de amor que cuida de cada ser vivo.

Não podemos permitirmo-nos permanecer como espetadores no limiar da História. É urgente o envolvimento na política, «a forma mais alta de caridade», como é definida pelo papa Francisco, na sociedade, para levar a cada contexto o contributo livre, e não ideológico, humano e evangélico que tenha em conta não só a pessoa singular, como também o bem comum, para favorecer a justiça, a paz, a solidariedade, o acolhimento e o dom de si, sempre como Jesus.

A pessoa que reconhece, conjuga, desenvolve e harmoniza cada aspeto da sua vida, demonstra no tempo uma identidade clara. A integração dos vários elementos oferece uma personalidade capaz de reorientar constantemente a existência segundo Jesus Cristo e o Evangelho, dando sentido à vida.

Com quanto esforço, nestes meses, fomos “obrigados” a acertar contas com a nossa individuação e o sentido de pertença! A experiência das fronteiras estilhaçadas da nossa vida tão mergulhada no mundo globalizado, errante entre conexões, não nos permitiu estarmos com toda a corporeidade no momento presente.



Será este um tempo propício para decidir viver humanamente como Jesus para regozijar-se com a beleza da existência?



Ao navegar nas ondas virtuais, nem sempre conseguimos definir-nos como pessoa, familiarizando-nos com a profundidade da nossa existência. Ao confundir a nossa vida com a flutuação do tempo, continuamos a arriscar-nos a não estarmos no tempo, porque perdemos o contacto com a realidade.

Experimentando, por vezes, a estranheza não só para connosco próprios, mas também para com os outros, a nossa mente está muitas vezes noutro lado, e, por isso, nem sempre estamos dispostos a abrir o coração, para acolher ao ir ao encontro do outro/a; aliás, muitas vezes entrincheiramo-nos dentro de uma defesa exasperada que anula o sentido de pertença a uma pessoa, a um grupo, a uma comunidade. E tudo isto para nos defendermos de quê?

Chegados a este ponto, podemos perguntar-nos se esta experiência da pandemia nos está a ajudar no crescimento pessoal. É verdade que o cansaço experimentado nos impele a não colher o positivo, mas, na realidade, neste tempo treinámo-nos a permanecer em relação com os outros para além da presença física: a busca espasmódica dos contactos diz-nos alguma coisa sobre isto!

Se sofremos tanto pela ausência das pessoas que nos são queridas, dos locais habitualmente frequentados, como queremos continuar a dar valor às relações, e como adquirir ou aprofundar um olhar contemplativo da vida? Permanecendo voltados sempre para o Tu/tu do Outro/outro, podemos superar os limites das nossas muralhas, por vezes tranquilizadores, para descobrir na História a presença do amor fiel de Deus revelado por Jesus Cristo, que se desdobra na beleza do ser, próprio e de cada pessoa, no sentido e no significado da vida humana, na ligação harmoniosa à Criação.

Será este um tempo propício para decidir viver humanamente como Jesus para regozijar-se com a beleza da existência?


 

Diana Papa
In SIR
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: DisobeyArt/Bigstock.com
Publicado em 13.07.2020

 

 
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