

Alguma vez sonhou tornar-se uma mulher ou um homem de cultura? Alguém que move a cabeça com um grave aceno de cabeça quando se lhe refere o nome de Ishiguro ou a quem se iluminam os olhos ao ouvir falar de Wenders?
Nos séculos passados, uma vocação deste género teria sido apanágio de poucos privilegiados, aqueles que podiam permitir-se o luxo de uma rica biblioteca, o acesso às representações teatrais e líricas, a possibilidade de fazer viagens de coche pela Europa. Coisas de rico, em resumo. Hoje a cultura é certamente mais democrática, e também graças às maravilhas da internet, quase popular. Se a questão económica não é uma barreira inultrapassável, apresenta-se, no entanto, uma outra não menos temível: o tempo.
A cultura tem um custo em termos de horas que não é simples quantificar. Para um filme ou para um disco pode confiar-se no tempo apresentado na capa. Mas quantos dias são precisos para ler todo o Proust? A tecnologia vem em auxílio dos leitores dos livros digitais (no “Kindle” há a função “tempo de leitura”), com aplicações que estimam a vossa velocidade e, daí, calculam a duração total da leitura. Para fazer uma ideia, em média conseguimos ler cerca de 250 palavras por minuto. Alguns leitores asseguram que uma hora de leitura por dia é suficiente para completar um romance por semana.
Pessoalmente, tenho reservas, tendo em conta que, viajando nos transportes públicos com um livro na mão e a outra usada para me apoiar e para voltar as páginas, consigo ler textos de divulgação, mas não um romance que me obriga a recordar quem são os personagens envolvidos na trama. Há uma qualidade do tempo que, habitualmente, não coincide com a quantidade. Mas também admito que haja pessoas imperturbáveis, capazes de ler em qualquer circunstância (e de recordar o que leem…).
Umberto Eco estimava que eram necessários 180 anos para ler os grandes clássicos. Se depois se acrescentar as séries de televisão que não se pode não ver, o filme do século, o espetáculo de que todos falam, então podemos ficar em paz: ninguém tem tanto tempo à disposição para estar à altura do título de pessoa de cultura.
Daqui extraio dois ensinamentos. O primeiro é que não me sinto culpado se alguém cita um “must”, dando por adquirido que eu o tenha visto ou lido, ao passo que mal sei que existe. O segundo é que a vida é demasiado breve para desperdiçar tempo em filmes ou livros que não nos dizem nada, mas que foram (mal) aconselhados. Um homem pode revelar-se um péssimo marido apenas depois de alguns anos de casamento, mas certos romances são terríveis logo a partir das primeiras páginas, pelo que mais vale largá-los logo.
P.S.: Se este artigo não vos disse nada de interessante, só perderam um par de minutos.