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Cultura e cidadania

«Tempos de exigência»: Documento do Grupo Sociedade e Política do Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura

No dia 5 de junho os Portugueses votaram e no dia 21 de junho assistiram à tomada de posse do seu novo Governo. Os resultados eleitorais e o novo Governo demonstram que os Portugueses decidiram mudar. No entanto, a análise dos resultados eleitorais e a esperança inerente à entrada em cena de um novo Executivo não podem fazer esquecer a abstenção que continua a revelar o descrédito da política e dos seus atuais intervenientes, mesmo considerando as muitas dúvidas que existem quanto à sua real dimensão.

A verdade é que os tempos são de exceção, o que impele alguns a participarem de alguma forma na política e necessariamente a exercerem o seu direito de voto; mas a verdade é também que para muitos Portugueses não ficou muito claro se, de entre os que se apresentaram a eleições, estaria a pessoa certa para levar o barco a bom porto.

Pela voz de mudança expressa através do voto ou pelo silêncio da abstenção, os Portugueses estão unidos numa insatisfação séria com a atual situação do País. Esta é talvez a única conclusão clara dos resultados eleitorais de 5 de junho. A pergunta é qual vai ser a nossa atitude nos próximos anos? Os que votaram na mudança vão continuar motivados? Os que pretendiam outro rumo vão colaborar com o novo Governo? Vai ser possível mobilizar os descrentes?

No atual contexto, a tendência natural é a de que a insatisfação silenciosa conduza à insatisfação com voz, à insatisfação a que Martin Luther King chamou de divine dissatisfaction e defendeu ser a única forma de exigir o “renascimento” da sociedade norte-americana perante o flagelo da segregação racial.

Depois de experimentar o resultado do abandono da política, a Sociedade vai ter que se desinstalar. Mudar paradigmas, mudar discursos. Contribuir muito mas exigir ainda mais. Exigir de cada um de nós, daqueles que nos rodeiam e dos políticos que nos governam. Exigir respeito dos seus representantes e pugnar pela defesa dos nossos interesses acima de qualquer outro interesse.

Mas como concretizar essa exigência e essa participação? Na busca do método e na falta de esperança no resultado, padecem muitos e bons cidadãos, tanto os que permaneceram em Portugal como aqueles que tiveram que emigrar mas que acordam diariamente com a esperança de poderem regressar e contribuir para a reconstrução do País.

Os meios de participação para aqueles que não têm vocação de participação política partidária, aparentam ser áridos e ineficazes. E mesmo para os que tenham tal vocação e capacidade de sacrifício, poder-se-ão esperar resultados?

É certo que pouco podemos fazer para evitar a tempestade perfeita que parece avizinhar-se: não controlamos o impacto da quase certa reestruturação da dívida grega, os mais de 20 por cento de desemprego em Espanha (que todos dizem que não é bem assim, mas que ninguém sabe como é), o teatro da economia italiana, a Bélgica sem governo, a Praça Tahrir e as suas ramificações, o défice e a instabilidade do Euro e das políticas europeias, as dúvidas norte-americanas, bem como as suas (e nossas) guerras. Neste contexto, a pergunta começa por ser qual o grau em que Portugal não depende simplesmente do exterior.

A resposta, verdadeiramente, ninguém a tem. Das poucas certezas que ainda podemos ter é que é preciso fazer por “renascer”.

Temos que voltar a cuidar dos valores essenciais da nossa Sociedade pois só com um verdadeiro espírito de união e um atento olhar solidário poderemos ultrapassar os próximos tempos como País e como Nação.

Devemos apostar no nosso trabalho e nas nossas profissões de forma exemplar, empenhada e produtiva. O mundo à nossa volta não parou nem vai ficar à espera da nossa recuperação, pelo que, mais uma vez nos vai ser pedido que caminhemos mais depressa do que os outros. Desta feita teremos que o conseguir e não ficar pelas palavras e intenções.

É crucial que o cidadão contribuinte tenha consciência da sua importância e da necessidade de assumir a sua parte no esforço conjunto que teremos que levar a cabo. Só com uma justiça distributiva, poderemos ultrapassar esta crise. Entre os compromissos assumidos pelo País, vai caber aos cidadãos assegurar que o contributo é dado por todos e de forma justa.

No entanto, talvez mais importante ainda seja que o cidadão contribuinte encontre formas de exigir que os líderes políticos e o novo Governo empossado deem o primeiro exemplo de coragem e determinação. Não há margem para erros. Cabe ao País não deixar de exigir continuadamente provas de confiança dos homens do leme. A estes é exigida verdade e lealdade para com o País. Ainda que, para isso, tenham que ser “desleais” para com a tradicional lógica de favores dos aparelhos partidários (como disse Kennedy sometimes party loyalty asks too much).

Haverá, pois, que encontrar formas de crescente e consistentemente os cidadão e os políticos comunicarem, de serem feitas novas propostas por grupos da sociedade civil e de serem analisadas e criticadas as propostas do Governo (e dos partidos, em geral). A crise proporcionou algumas iniciativas válidas nesse sentido. Importa serem criadas novas e dar continuidade às existentes.

Num inquérito recente 43% dos portugueses ativos demonstraram vontade ou intenção de continuar a vida profissional fora de Portugal, o que revela a descrença atual que reina na classe produtiva mas também o espírito não acomodado de um povo que já no passado procurou melhorar de vida noutras paragens. Era bom que este espírito não acomodado viesse agora a corporizar-se num contributo para a mudança do nosso País e na exigência de que a mesma aconteça, e que ainda fosse possível continuar cá.

Este é o tempo em que Portugal terá que se reencontrar. Compete-nos a todos, e não apenas aos políticos, reinventar a democracia. Por cada um de nós, pelos que nos antecederam e pelos nossos filhos. O nosso amanhã nasceu hoje.

 

Grupo Sociedade e Política - Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura
© SNPC | 03.07.11

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