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Teologia para todos

Uma das expressões mais surpreendentes da “Evangelii gaudium”; a exortação do papa Francisco sobre o anúncio do Evangelho no mundo atual, é «mística popular» (nn. 124, 237). Estimula uma relação: não poderia evocar também uma teologia popular? Antes de mais, há um chamamento a sair do elitismo a todos os níveis, e a reconsiderar o “povo de Deus” como o sujeito principal da fé, da piedade, da missão, da sinodalidade e também da teologia.

Mas quando se fala de teologia, pensa-se sempre num saber alto, culturalmente contextualizado, lançado para os pináculos arrojados da reflexão e da contemplação, distante do sentir da fé, da linguagem do povo cristão.

O símbolo destas elevações é a cátedra, que antes era alcançada por professores que subiam vários declives para chegar, talvez já sem fôlego, ao planalto onde estava situada, e aí se sentarem para iniciar os ensinamentos.

Não estou a ironizar esta cena, que conheci na Universidade Gregoriana como estudante nos anos setenta. Aliás, eu esperava por essa cena na aula magna, e recordo-a com comoção e nostalgia. Quanta luz descia daquele alto pódio, e quantas flechas de fogo os teólogos lançaram para as mentes e corações dos alunos (é melhor este termo do que o de estudante, porque significa “aqueles que se nutrem”): a partir desses anos, em grande parte, ficaram como que seduzidos e enamorados da teologia para sempre.

 

Também é possível uma teologia popular

Mas a teologia é só a da cátedra? Se é um dos serviços da Palavra, porque não o é também para todo o povo de Deus? E se é um pensar a fé, que é experiência inevitável dos fiéis leigos, porque é que estes (inclusive nas paróquias, nas unidades pastorais) não podem fazer, ao nível possível, mas não descuidado, a experiência do pensamento crente ou da fé pensada?

O problema é o de remover da teologia a pátina antipática da seriedade, o preconceito da consciência elitista. Se nunca esquecêssemos que o seu objeto é sempre Deus e o seu mistério, qualquer que seja o tema particular a que se dedica, então compreender-se-ia com relativa facilidade que ao conhecimento daquele objeto-não objeto teriam direito a aproximar-se (nas maneiras simples e possíveis) mais daqueles que fazem a experiência de Deus.

Para fazer teologia são precisos, sem dúvida alguma, muitos recursos intelectuais, um conjunto de competências cognoscitivas, criatividade alta, mas também capacidade de mediação entre o objetivo cristão-eclesial e o existencial cristão, com uma referência não secundária à experiência religiosa e cristã, que decerto não se confunde com o tipo de experiência das ciências positivas.

Esta é a lacuna grave que hoje se regista na teologia: a ausência da ótica experiencial, paradoxalmente quando todos os saberes fazem da experiência o ponto de partida, de investigação e de controlo.

Na sua pequenez, uma teologia popular aceita o desafio de ajudar a pensar a fé aqueles que no discurso sobre Deus dispõem só, ou principalmente, da experiência dele, e isto não é pouco, mas muito.

Em síntese, também na denominada alta teologia se parta da experiência crente e desenvolva-se o discurso não só com um pensamento categorial, mas também com formas não categoriais, precisamente experienciais. Resumidamente, a teologia não deve só responder à pergunta «quem é Deus, quem é Cristo, o que é a Igreja», mas também a outras (que experiência se faz de Deus, de Cristo, da Igreja?).

 

Uma experiência pastoral

Confio agora uma pequena experiência pastoral, realizada numa paróquia média, que descrevo em traços largos. Voltando, após muitos anos, a ser pároco, apesar de nunca ter saído da paróquia, tive sempre o desejo-dever de tornar o serviço teológico ao povo, evidentemente não à comunidade paroquial no seu conjunto (ainda que as várias pregações ofereçam uma certa possibilidade de o fazer), mas de qualquer modo às “pessoas do povo”, em particular aos colaboradores da vida pastoral (catequistas, educadores, homens e mulheres que desejam pensar a fé).

Os serviços à Palavra devem estar todos presentes na vida pastoral; por isso, o teológico não é suprimível nem da catequese, nem da homilia, nem da “lectio divina” [conhecimento, meditação e contemplação que decorrem da leitura da Bíblia]. Com esta convicção, decidi começar com uma “aula” de teologia na minha comunidade, estimulado na pastoral da cultura pela circunstância de ter uma igreja paroquial assinada por um autor de muito valor.

Para acompanhar os escritos deste curso, preparei de vez em quando uma folha de síntese, e, naturalmente, o registo comunicativo é o coloquial, simples, mas também preciso e não aproximativo. “A escola” acontece nos locais da paróquia, após o jantar, e é transmitida em direto pela internet.

Estou verdadeiramente satisfeito. A teologia popular pode ser feita se se obedecer ao critério que o grande pedagogo Comenio indicava para qualquer forma de ensino: “omnia, omnibus, omnino”. Pode ensinar-se tudo (“omnia”), a todos (“omnibus”), de maneira acertada (“omnino”).

Tal como não faz sentido pretender adiar as respostas às perguntas de uma criança, com a ofensiva frase «ainda não tens idade para perceber, hás de perceber quando fores crescido», igualmente ofensivo é evitar para o povo o conhecimento da teologia, dizendo-lhe, na prática: isto não é para ti.


 

A partir de texto de Michele Giulio Masciarelli
In L'Osservatore Romano
Trad. / edição: Rui Jorge Martins
Imagem: PhotoGranary/Bigstock.com
Publicado em 24.03.2020

 

 
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