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“Toma um pouco de vinho com moderação”: Papa prefacia livro de S. João Crisóstomo

O papa Francisco assina o prefácio do livro “Prendi un po’ di vino con moderazione. La sobrietà cristiana” (“Toma um pouco de vinho com moderação. A sobriedade cristã”), em que S. João Crisóstomo medita sobre as virtudes cristãs.

O texto, lançado hoje em Itália, contém uma homilia na qual o padre com “boca de ouro” comenta o passo da primeira carta bíblica a Timóteo em que o autor, S. Paulo, convida o seu discípulo a beber vinho, tendo em conta a sua frágil saúde.

O volume, publicado pela editora do Vaticano, assume-se como instrumento de reflexão para viver a preparação para a Páscoa, chegando ao «prazer da alegria cristã, que encontra o ápice na ressurreição, através da sobriedade, o jejum e a moderação».

 

Papa Francisco
In "Prendi un po’ di vino con moderazione: La sobrietà cristiana" (Lucio Coco, org.)
Libreria Editrice Vaticana

A vida cristã consiste em descobrir-se amado por Deus Pai de maneira incondicional e gratuita. Esta é a bela notícia do Evangelho que Jesus nos anunciou e testemunhou «até ao fim», mas que se tornou realidade para cada um de nós no dia do Pentecostes [descida do Espírito Santo sobre os apóstolos, em Jerusalém, 50 dias após a Páscoa] – e no Pentecostes pessoal de cada um de nós que é o Batismo –, quando o Espírito Santo, o amor infinito do Pai pelo seu Filho, foi derramado nos nossos corações. Somos verdadeiramente amados como o Filho Jesus, verdadeiros filhos do Pai, autênticos irmãos e irmãs uns para os outros.

Acolher este dom gratuito muda a vida, e sobretudo transforma o olhar sobre a vida, sobre nós próprios, sobre os outros, sobre o presente, sobre o passado, e sobretudo sobre o tempo que nos espera: o grande amor com que somos amados manifesta-se como aquela luz quente e forte que reveste de Deus a vida, a realidade, as relações. Como num dia de sol, a natureza, e até as nossas cidades, se tornam mais velas, assim a fé oe o acolhimento do amor do Senhor desvelam o quando cada detalhe da nossa existência é precioso, único, irrepetível, apesar dos problemas, as dificuldades e as nossas incoerências.



S. João Crisóstomo tem a oportunidade de ensinar aos fiéis que a criação é boa, mas deve ser saboreada sabiamente, para descobrir que foi feita precisamente para nós, para o nosso bem, como um dom precioso, a fim de que nos descubramos amados e possamos alegrar-nos juntos



É também por isso que comecei a minha exortação apostólica sobre a santidade com este convite, extraído do Evangelho de Mateus: “Gaudete et exsultate” (alegrai-vos e exultai). A alegria, que é decerto diferente da euforia, é o sentimento de um coração banhado pelo amor – mesmo no meio das provações da vida – e é um dos traços autênticos da verdadeira santidade, inclusive daquela da pessoa da porta ao nosso lado.

É uma alegria autêntica, simples, que permite saborear as oportunidades de bem que a vida nos oferece, que se manifesta, entre outros aspetos, também numa boa refeição partilhada, num olhar de compreensão e apoio, e – porque não? – num brindar por um aniversário ou um feito de um amigo… Refiro-me àquela alegria que se vive em comunhão, que se partilha e em que se participa, porque se é «mais feliz no dar do que no receber». O amor fraterno multiplica a nossa capacidade de alegria, pois torna-nos capazes de nos alegrarmos pelo bem dos outros.

Por vezes, ao contrário, também nós, cristãos, demonstramos não saber ainda alegrar-nos verdadeiramente pelas coisas da vida, ou porque vamos direitos aos prazeres ocasionais e passageiros, ou vice-versa, porque sendo vítimas de um certo rigorismo, somos tentados a não mudar, a deixar as coisas como estão, a escolher o imobilismo, impedindo assim a ação do Espírito Santo, que traz consigo a novidade da alegria. A alegria, portanto, é um fruto do discernimento no Espírito Santo, que consiste precisamente na constante arte de preferir o nós ao eu e as pessoas às coisas, não obstante os mil enganos a que o mal e o nosso egoísmo nos impelem.

Com efeito, esta alegria – que é verdadeiramente uma graça – deve ser salvaguardada e protegida, assim como é o caso da fé, das amizades, das relações: em suma, como todas as coisas importantes da vida. É uma sábia atitude espontânea que todos temos: quando há algo de valor, seja afetivo ou económico, temos especial cuidado com ele, e é justo que seja assim.

A alegria do amor de Deus derramada no coração do Espírito Santo protege-se através da sobriedade, que é a capacidade de submeter o desejo do prazer e da satisfação pessoal à medida do justo e das relações interpessoais. Com efeito, ninguém se salva sozinho, como indivíduo isolado, mas Deus atrai-nos tendo conta da complexa trama de relações interpessoais que se estabelecem na comunidade humana.



O que é a vida de Cristo em nós se não uma vitória do amor sobre os nossos medos e preocupações por nós próprios, que nos permite, por nossa vez, ser dom, simples e quotidiano, nas pequenas coisas, para o Senhor e para os irmãos?



Este livro contém uma breve homilia de S. João Crisóstomo, um Padre da Igreja do século IV, famoso pela capacidade retórica, sepultado na basílica de S. Pedro, aqui no Vaticano, em que comenta uma breve passagem da primeira carta de S. Paulo a Timóteo, em que o convida a beber «um pouco de vinho, por causa do estômago e dos (…) frequentes distúrbios» (5, 23). Desta maneira, S. João Crisóstomo tem a oportunidade de ensinar aos fiéis que a criação é boa, mas deve ser saboreada sabiamente, para descobrir que foi feita precisamente para nós, para o nosso bem, como um dom precioso, a fim de que nos descubramos amados e possamos alegrar-nos juntos. Também S. Francisco de Assis, afetado por um mal-estar no estâmago, como no convento os frades não tinham vinho, abençoa um copo de água que, milagrosamente, se torna num excelente vinho que lhe restabelece as forças.

A sobriedade, por isso, e a alegria, são duas atitudes que, creio, podem ajudar-nos a viver a Quaresma em vista da Páscoa, que é precisamente a celebração da nossa ressurreição com Cristo, a nossa vida nova, celebrada de uma vez para sempre no Batismo, e no entanto renovada particularmente em cada Vigília Pascal. O que é, com efeito, a vida de Cristo em nós se não uma vitória do amor sobre os nossos medos e preocupações por nós próprios, que nos permite, por nossa vez, ser dom, simples e quotidiano, nas pequenas coisas, para o Senhor e para os irmãos? «A comunidade que guarda os pequenos particulares do amor, onde os membros cuidam uns dos outros e constituem um espaço aberto e evangelizador, é lugar da presença do Ressuscitado, que a vai santificando segundo o projeto do Pai».

Foi isto que escrevi na exortação “Alegrai-vos e exultai”, quando recordava uma passagem dos escritos de Santa Teresa do Menino Jesus: «Uma noite de inverno, cumpria, como de costume, o pequeno ofício. (...) De repente, ouvi ao longe o som harmonioso de um instrumento musical. Então imaginei um salão bem iluminado, todo resplandecente de dourados, de donzelas elegantemente vestidas, dirigindo-se mutuamente cumprimentos e cortesias mundanas. A seguir o meu olhar pousou na pobre doente que amparava; em vez de uma melodia, ouvia, de vez em quando, os seus gemidos queixosos (...). Não consigo exprimir o que se passou na minha alma; o que sei é que o Senhor a iluminou com os reflexos da verdade, que ultrapassavam de tal maneira o brilho tenebroso das festas da terra, que não podia acreditar na minha felicidade».


 

In Vatican Insider
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: D.R.
Publicado em 04.03.2019

 

 

 
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