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Transfigurações

1. Os arménios têm uma palavra, Varvatar, que significa «decoração com rosas», porque essa era a festa pagã do primeirodia do mês de Navasart antes da sua conversão, durante a qual se decoravam os altares com elas. S. Gregório, o iluminador, transformou esta festa numa festa cristã, a Transfiguração. (...) Diz o evangelista [Lucas] que Jesus tomou consigo Pedro, Tiago e João e foi rezar para a montanha. «E enquanto rezava, alterou-se o aspeto do seu rosto e as suas vestes ficaram de uma brancura refulgente».

2. Tudo nesta festa é glória. A glória é a essência de Deus. Aos olhos dos filhos de Israel, o aspeto da glória de Javé era como um fogo devorador em que só Moisés podia entrar. Javé, quando fala com Moisés, protege-o com a sua mão para o impedir de ver a kabod [glória] que cega. Desse encontro, o semblante de Moisés ficou com um tal fulgor que os Hebreus não podem olhá-lo, cobrindo por isso o rosto com um véu. Diz-se que esta aparição de luz visava armar os discípulos para as trevas que a cruz conhece.

3. Reparemos no texto de Lucas. Repare-se na rarefação do lugar, antes de mais. Os evangelistas falam de um lugar, deslocalizando-o: separado, porque «elevado» e situado aparte, lugar único, ou sem especificação, como aqui. Este lugar está desconectado do espaço das trocas e da comunicação comum ou da topografia do relato englobante. Os atores são transferidos para uma outra cena - como a do sonho - em que a visão vai poder mostrar aquilo que não se vê no espaço comum.

Há um tempo do espetáculo e um tempo da nuvem por que a voz irrompe. Tempo da metamorfose e tempo da anamorfose. O primeiro tempo, da metamorfose - em que Jesus foi metamorfoseado - é o do espetáculo. Jesus aparece com traços levados ao excesso de visibilidade. Tudo excede os limites do percetível, como para mostrar a visibilidade do que torna as coisas visíveis - «rosto como o sol», «manto branco como luz». Nesta cena as personagens mortas há séculos coexistem com um personagem vivo. Outro limite apagado: o que separa os vivos dos mortos. O dispositivo é especular, visando instaurar espectadores presos à cena pela vista mas excluídos dela como atores - o que Pedro acentua propondo o espaço do espetáculo em três tendas - skèmai = cenas.

Imagem

4. Este excesso de beleza provoca uma satisfação em que se quereria permanecer: «é bom estar aqui». Lucas dirá que Pedro não sabia o que estava a dizer, propondo três tendas para permanecer nesse efeito de sideração. Ora, no tempo da anamorfose, o dispositivo inverte-se. A estrutura especular e cénica é anulada. Três índices dessa anulação: a nuvem que envolve a todos, as personagens da visão e os discípulos. À vista, substitui-se o ouvido: «escutai-o!». O objeto do espetáculo fracassa: o olhar é velado. Em Marcos, eles olham à volta e não veem ninguém. O medo apodera-se deles. A apreensão agora dá lugar à fruição. Jesus diz em Mateus: «levantai-vos!» - vocabulário da ressurreição. Que se passou? O personagem luminoso, se não aparece coberto pela nuvem, torna-se fascinante, capta a vista na cena. Há uma espécie de interdito que é colocado no momento da metamorfose e que nos remete para a cena em que Moisés está diante da «Glória».

5. Os discípulos adormeceram. O mesmo acontecerá na tarde de Quinta-Feira Santa no monte das Oliveiras antes da Paixão. Os evangelistas não douram a imagem dos três primeiros amigos de Jesus. São gente como nós que adormecem quando rezam ou meditam ou têm uma dificuldade imensa para reconhecer a centelha de divino nos outros. Passamos ao lado do que hoje os média com alarido nos mostram, de um primeiro momento de estupefação ao sono e à indiferença. A rotina encarrega-se de nos adormecer sobre o terrível que é a morte e a destruição.

Transfiguração Rafael (det.)

6. Dois homens conversavam com ele: eram Moisés e Elias aparecidos na glória e que falavam da morte de Jesus. Estes dois homens foram os únicos a ter tido o privilégio de beneficiar das aparições de Deus no Sinai. Hoje eles beneficiam da manifestação do Filho de Deus na montanha. Falavam com ele da sua morte. Daí o escândalo. S. Lucas emprega a palavra «êxodo», palavra que lembra Moisés e a saída do seu povo da servidão. Com Jesus, não é apenas um povo mas a humanidade inteira que é conduzida para a transformação que toda a Páscoa anuncia. O perigo está em querer instalar-se no conforto espiritual ou ideológico. A nossa droga de todos os dias é a indiferença à morte e à desgraça dos outros.

7. É para nos proteger desta tentação que Jesus só raramente permite este momento de Tabor na nossa vida. A oração verdadeira deve levar-nos a descer da montanha para retomar a monotonia das planícies espirituais. «Este é o meu Filho bem-amado: escutai-o». Há dois milénios que este apelo é dirigido aos crentes. O mal não terá a última palavra. Este Evangelho é um resumo de toda a Revelação. Aí estão Moisés e Elias, que apresentam Cristo aos apóstolos. Somos nós hoje que somos enviados a anunciar a ressurreição. Os apóstolos tiveram esta revelação no dia da Transfiguração e sobretudo na manhã de Páscoa.

Transfiguração

8. Os discípulos descobrem que a oração de Jesus é transfigurante. Eis aqui uma boa nova para o nosso mundo tão desfigurado pelo ódio, a violência, o rancor, as guerras, a corrida aos interesses pessoais. O primeiro testemunho que podemos dar-lhe é o da atenção ao que nos afeta. Todos conhecemos momentos de graça e de iluminação na nossa vida. É a partir dessa iluminação que retomamos as forças para nos levantarmos e continuarmos. Santo Inácio diz-nos que a alegria é um dos frutos do Espírito, enquanto a tristeza e o desencorajamento denunciam a presença de Satã, o adversário. A ação mais profunda de Deus em nós é aquela em que ele se gera pelo Espírito, através da oração. Ora, só o desejo reza. Não como tendência, nem pulsão, nem gozo mas como esperança. O desejo visa o real que não conhecemos e que só podemos esperar, como algo que nos é dado. Visa sempre um além do prazer, o que é impossível imaginar, a Vida. A origem do desejo é o Espírito em nós. Só conhecemos o desejo pelos seus efeitos: a alegria. «Escutai-o!»; responder à palavra separa-nos do eu, desaloja-nos. Temos de ouvir o Espírito mais do que dizê-lo. Falar com o outro entre duas portas ou de uma sala a outra nunca permitirá que o outro tome o lugar de interlocutor. O caminho é o tempo da paciência, da espera. Este é o tempo para reinventar o risco e a aventura contra a segurança e o conforto. E porque esse é o caminho do amor, que o Espírito para lá nos conduza.

9. Quando o sofrimento nos bate à porta, cobre-nos como um manto de neve, silenciosa e fria. Esse é o nosso inverno e a nossa desolação. Pedimos então que no nosso corpo se cumpra a metamorfose por que passou o Filho amado. Porque nós somos também a coroa que Deus ama. Por breves instantes, somos introduzidos na nuvem da glória, à espera que a sua Palavra nos aqueça e mova. Que o Espírito nos revele o sentido de todas as coisas para caminharmos na inteligência da fé, sem medos nem fantasmas, com alguma luz no coração e em boa companhia para a passagem por que todos teremos de passar.

 

Fr. José Augusto Mourão
In Quem vigia o vento não semeia, ed. Pedra Angular
09.03.14

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ImagemTransfiguração (det.)
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