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Três cantores, três religiões, uma única mensagem: Fraternidade

Três homens, três registos de voz, três religiões unidas para celebrar a fraternidade entre crentes contra o fundamentalismo, na consciência de que ser-se irmãos supõe «ter um pai comum, significa que não escolhemos uns aos outros, e que concordar, viver juntos e amar-se supõe um caminho para o outro, que não é dado como adquirido».

Matthieu de Laubier, sacerdote numa paróquia parisiense com formação de canto lírico, Philippe Darmon, cantor judeu de origem israelita, e Farid Abdelkrim, ex-membro da Fraternidade Muçulmana, atualmente artista comprometido na luta contra o extremismo religioso no contexto prisional, realizaram o disco intitulado “Liberté” (Liberdade), que reúne canções famosas da música ligeira francesa e peças inéditas, mais espirituais.

Por feliz coincidência, a saída do disco ocorreu ao mesmo tempo que a publicação da encíclica “Fratelli tutti”, do papa Francisco, uma confluência de circunstâncias de que se regozijam os membros do trio, batizado “Ensemble”, ao notar algumas semelhanças entre as duas obras. Em particular, explica o P. Matthieu, no CD «não nos contentamos em exprimir o nosso desejo de viver em paz respeitando as nossas diferenças, como é certamente verdade, mas afirmamos que as nossas religiões oferecem às pessoas de hoje um horizonte, um caminho de crescimento pessoal e de amor, para cada um e para toda a sociedade». «É por causa da nossa fé que afirmamos que a fraternidade não é uma utopia, e que as nossas religiões são instrumentos para a realizar. Se mais não houvesse, porque reconhecemos um pai comum», acrescenta.



«Tinha duas apreensões, que eram o risco do sincretismo e o do angelismo, mas foram rapidamente eliminados, depois de ter encontrado Darmon e Abdekrim: queremos ser irmãos, apesar de termos fés diferentes»



Na origem do projeto está o produtor discográfico católico François Troller, e a sua associada Fati Amar, ambos desde há muitos anos presentes no mundo musical francês. A ideia de fazer cantar três homens de fés diferentes germinou nas suas mentes em 2017, a seguir ao assassinato do P. Jacques Hamel na sua igreja de Saint-Etienne-du-Rouvray, e dois anos após ter perdido familiares no atentado ao Bataclan, a sala de concertos de Paris onde se contou o maior número de vítimas dos ataques terroristas na capital.

«Perguntámo-nos o que poderíamos fazer no nosso contexto para demonstrar que as religiões são algo de diverso da guerra», explica Troller. Deste desejo nasceu o projeto de reunir um imã, um padre e um rabino para cantar textos de paz. Todavia, admite o produtor, foram numerosos os obstáculos que testaram duramente a sua perseverança. Não tendo conseguido convencer um imã a participar, abandonaram a ideia inicial, e dirigiram-se a um artista árabe de fé muçulmana, que aceitou com entusiasmo.

Por isso, foi só nestes últimos meses que o terceto se completou, permitindo levar a iniciativa a bom termo, precisamente num momento em que, mais do que nunca, é preciso multiplicar gestos e iniciativas de paz e de harmonia como contraparte dos ataques terroristas, cometidos em nome de Deus, que recentemente atingiram novamente a França. A esta violência, os três cantores responderam com o inédito “E Deus nisso tudo”, o “single” principal do álbum, «uma verdadeira profissão de fé da parte de todos, que não é, todavia, certamente um credo comum», refere o P. Matthieu.



Permanece mais que intacto o seu desejo de proclamar a todos as palavras incluídas na última faixa do disco, “Em uníssono”: «Cantamos em coro com a fé; há um só Deus para ti e para mim; em uníssono com uma mesma voz: um Deus único em que acredito»



«Tinha duas apreensões, que eram o risco do sincretismo e o do angelismo, mas foram rapidamente eliminados, depois de ter encontrado Darmon e Abdekrim: queremos ser irmãos, apesar de termos fés diferentes», prossegue o sacerdote católico. O mesmo se aplica às suas vozes, «muito singulares, mas que criam uma harmonia». «Cantar com outra pessoa significa, antes de tudo, estar concorde, com as nossas vozes que são diferentes, e é isto que reforça o lado metafórico, visto que até a maior diferença não impede a coerência».

Outras coincidências: os três “irmãos” são coetâneos – uma cinquentena de anos – e quase próximos uns dos outros. A paróquia de Notre-Dame-de-Lorette, em particular, onde o P. Matthieu é vigário, está a apenas cinco minutos a pé de distância da sinagoga Buffault, onde Darmon orienta a oração. E isto criou uma «verdadeira cumplicidade». «Fraternidade é uma palavra que em França se escreve nos frontões dos monumentos públicos, um conceito que parece óbvio, mas que é algo de diferente da solidariedade», observa o P. Matthieu. «Quando lemos a Bíblia, damo-nos conta de que a fraternidade não se realiza tão facilmente, mas constrói-se, deseja-se, desenha-se. É também o nosso futuro: não nos apresentaremos diante de Deus cada pessoa por si. Do ponto de vista cristã, como irmãos e irmãs somos o Corpo de Cristo, iremos até Ele como irmãos e irmãs.»

Nos planos do “Ensemble” estavam previstas três atuações ao vivo, durante o mês de novembro, num espaço católico, numa mesquita e numa sinagoga, mas a pandemia obrigou a adiar as exibições em público. Mas permanece mais que intacto o seu desejo de proclamar a todos as palavras incluídas na última faixa do disco, “Em uníssono”: «Cantamos em coro com a fé; há um só Deus para ti e para mim; em uníssono com uma mesma voz: um Deus único em que acredito».















 

Charles de Pechpeyrou
In L'Osservatore Romano
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: Ensemble | D.R.
Publicado em 13.01.2021

 

 

 
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