

Uma missa por Totó, na sua Nápoles, no seu bairro Sanità: 50 anos após a morte, uma oportunidade para evocar o "príncipe da gargalhada" e «ir ao coração da sua espiritualidade, que se manifesta tanto no artista como no homem».
As palavras são do P. Davide Milani, presidente da fundação italiana Ente dello Spettacolo, que presidiu à celebração esta segunda-feira, na basílica de Santa Maria da Sanità, com a participação do ministro dos Bens Culturais italiano.
A escolha da data não foi ao acaso: a 22 de maio de 1967, na mesma igreja, realizou-se um "funeral de caixão vazio" para quantos não puderam estar nas celebrações fúnebres de 17 de abril, na basílica Carmine Maggiore, também em Nápoles, dois dias depois da morte, ocorrida em Roma.
O bairro Sanità [Saúde] «está a viver o aniversário da morte de Totó como ocasião para colocar em movimento e em rede as energias positivas do território, precisamente a partir do "seu" príncipe e da redescoberta de quanto de positivo, belo, fascinante e atual existe no seu perfil humano e na sua arte».
«Na figura de Totó vemos os elementos de uma espiritualidade viva e saudável, que se manifesta na atenção aos pobres e na capacidade de exprimir a verdade da condição humana», acrescentou.
Enquanto artista, Antonio de Curtis (n. 1898) «levou sempre à cena os últimos, dando-lhes a sua voz e desmascarando os poderosos. Como pessoa mostrou-se sempre concretamente atento aos últimos. Nápoles ainda recorda os seus gestos ocultos e silenciosos de generosidade, como os grossos molhos de notas deixados debaixo da porta das pessoas necessitadas».
O sacerdote cita dois poemas de Totó para iluminar a sua atenção à condição humana: «"'A livella" conclui-se assim: "Pertencemos à morte!". É verdade que para um cristão é uma visão incompleta. Mas trata-se de um dado de facto, de uma verdade natural, que o homem de hoje tende muitas vezes a esquecer e a eliminar. E é uma verdade natural que chama por um cumprimento, faz-nos reconhecer necessitados, no apelo a um redentor».
«Eis como se conclui, ao contrário, "A oração do palhaço": "Há muita gente que se diverte a fazer chorar a humanidade, nós temos de sofrer para a divertir; manda, se puderes, alguém a este mundo capaz de me fazer rir como eu faço rir os outros". Totó, falando ao Senhor, dirigindo-se ao seu "Protetor", pede a força para saber elevar e curar, com as suas palhaçadas, as penas dos homens. Reconhecendo-se, por seu lado, necessitado de ajuda», acrescenta.
Na poesia, no teatro e no cinema de Totó o pobre é figura central: «Há, sempre, a miséria, mesmo a extrema, a da fome que te devora. Mas há, sempre, a ironia, a galhofa, o riso. Como a recordar que a fome material não é única que nos morde, que satisfazê-la não é tudo, mas que há um desejo de plenitude, há uma dimensão interior, e ulterior, que nos provoca e chama».
Totó, que se distinguiu também no teatro e em papéis dramáticos na Sétima Arte, nasceu pobre - «conhece a pobreza por experiência direta»: «Nele co-habitam miséria e nobreza, a sua vida e a sua arte recordam-nos que somos feitos de terra mas apontamos para o céu», observou o P. Milani.
«Quanto precisamos no cinema, na arte, na comunicação, de pensamentos como estes, mas sabendo ser populares: não pensativos nem, no extremo oposto, vulgares, mas autenticamente populares, como soube ser, como sabe ser, Totó», concluiu.