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Uma mudança radical do viver a Igreja

Nos últimos tempos há uma pergunta que muitos me dirigem, e que eu próprio me coloco com frequência: a Igreja ainda é capaz de ser missionária, de tornar eloquente a fé que professa? Os meios da missão mudam cada vez mais rapidamente, mas a missão será sempre ineludível porque faz parte do ser-se cristão: não se segue o Senhor sem ser por Ele enviado. Estamos perante uma mutação radical, que afeta toda a vida cristã, a vida da Igreja, mas em particular a que diz respeito à missão “ad gentes”. Deixámos as margens e navegamos rumo a uma outra terra que ainda não conhecemos. Os desafios apresentam-se com uma novidade inédita, e por isso a toda a Igreja é pedida uma operação de discernimento, para realizar o mandato de Cristo ressuscitado, sempre atual: «Ide, evangelizai em todo o mundo, levai a Boa notícia a toda a criatura».

Temos de confessar hoje uma astenia [enfraquecimento ou perda da força física ou de um órgão] das Igrejas locais, sobretudo no hemisfério norte do mundo: uma astenia relativa à missão, uma falta de coragem no deixar a sua terra, marcada pelo bem-estar, por terras que ainda são tocadas pela fome, pela miséria e, muitas vezes, também pela violência e pela guerra. É suficiente constatar a falta das vocações para a missão “ad gentes”; é suficiente ver como os institutos missionários, que deram um testemunho heroico de evangelização, conhecem, pelo menos nas nossas terras de antiga cristandade, esterilidade e envelhecimento, que torna alguns deles deveras precários. Desde que assumiu o ministério de Pedro, o papa Francisco pede com frequência às Igrejas que se ponham «em saída», de se dirigirem à missão em condições dinâmicas, abertas, livres, para poder levar a Boa Notícia do Evangelho. Mas por trás destas expressões, que arriscam ser repetidas simplesmente como slogan, há na realidade a necessidade de uma mudança radical do viver a Igreja, bem antes do viver a missão que lhe é inerente.



Não basta falar de “millennials”, é preciso fazer referência aos seus pais e às suas mães, isto é, à primeira geração que verdadeiramente traiu a transmissão da fé, a partir da família e dos vários contextos educativos. Torna-se evidente que numa Igreja tão débil seja reconhecida agora uma crise de fé: devemos ter a coragem de o dizer, o problema é a debilidade da fé!



Não me cabe fazer uma análise destas urgências, mas é preciso pelo menos evidenciar que se quer, em primeiro lugar, que cada batizado e cada comunidade cristã se sintam responsáveis pela evangelização, isto é, por levar a todo o lado a Boa Notícia do Reino. As expressões que se usam para falar dela são menos importantes, mas a meu ver é precisa uma verdadeira conversão da vida cristã. É preciso que a vida cristã eclesial se comprometa num exercício, numa atenção real à sinodalidade, para que povo de Deus e pastores caminhem juntos. Todos os cristãos são chamados a assumir a responsabilidade de serem enviados a homens e mulheres que não conhecem Jesus Cristo; devem, por isso, ser antes de tudo sujeitos capazes de exprimir a fé cristã, e, consequentemente, edificar a Igreja com o seu específico contributo cultural, religioso e humano. É a dinâmica à qual o papa regressa muitas vezes nos seus discursos missionários, recordando palavras como escuta, encontro, diálogo, testemunho, anúncio.

Creio, além disso, que é importante recordar que hoje a missão não se dirige apenas às gentes, mas diz respeito às nossas Igrejas. Se no final da segunda guerra mundial o cardeal de Paris falava da França como de uma terra de missão, hoje estamos todos convencidos de que a Europa é terra de missão, como escreve o teólogo Christoph Theobald. Vivemos num tempo que não é somente secularizado: estamos num tempo pós-cristão, e nas nossas terras de antiga cristandade há situações que fazem com que a missão seja urgente. Sobretudo as novas gerações, as dos “millennials”, são marcadas por uma profunda indiferença face à religião, face à procura de Deus, face à pertença à Igreja. Está a ocorrer uma revolução silenciosa que muda profundamente o rosto das nossas comunidades, nas quais as novas gerações e as mulheres são a Igreja que falta, segundo a eficaz expressão do P. Armando Matteo. Sim, está a ocorrer uma revolução silenciosa que muda e mudará profundamente o rosto das nossas comunidades.



Para as novas gerações – mas também para algumas da geração pós-68 – Deus já não é interessante, já não é necessário para viver bem, na felicidade. Continuam a repetir-se alguns slogans, mas, se se escutam verdadeiramente os jovens, compreende-se que estão bem sem a procura de Deus



Sonhámos uma Igreja evangelizadora, e em vez disso estamos perante uma Igreja na realidade não evangelizada, e com gerações sem qualquer contacto com a fé cristã. Nesta situação inédita seria precisa da nossa parte uma capacidade de leitura, um exercício de discernimento para assumir a responsabilidade pela ausente transmissão da fé às novas gerações. Não basta falar de “millennials”, é preciso fazer referência aos seus pais e às suas mães, isto é, à primeira geração que verdadeiramente traiu a transmissão da fé, a partir da família e dos vários contextos educativos. Torna-se evidente que numa Igreja tão débil seja reconhecida agora uma crise de fé: devemos ter a coragem de o dizer, o problema é a debilidade da fé!

Mas então, que missão e que evangelização, não nos meios, mas na raiz? É necessário, antes de tudo, tomar consciência da indiferença reinante em relação a Deus e a procura dele. Há anos venho a repetir que a Igreja dever tomar consciência dessa indiferença, mas parece que na realidade ninguém quer acreditar nisso, e assim continuam a estudar-se as estratégias para o anúncio, na mesma maneira que antes. Para as novas gerações – mas também para algumas da geração pós-68 – Deus já não é interessante, já não é necessário para viver bem, na felicidade. Continuam a repetir-se alguns slogans, mas, se se escutam verdadeiramente os jovens, compreende-se que estão bem sem a procura de Deus. O problema é, eventualmente, o da “gratuidade” de Deus, o que nos requer novas atitudes para o anunciar: Deus já não está no espaço da necessidade! Deus é antes uma palavra ambígua, rejeitada pelas novas gerações, porque muitas vezes está ligada ao fanatismo religioso, à intolerância, à violência.



Eu gosto de falar da “diferença cristã”, que é uma diferença não contra ou sem os outros, mas é uma diferença que nasce da convicção de que Jesus Cristo é verdadeiramente aquele que uniu humanidade e Deus. Depois dele, não se pode dizer a humanidade sem dizer Deus, e não se pode dizer Deus sem dizer a humanidade



Em muitos aspetos, salvaguardadas as devidas diferenças, estamos numa época análoga à dos primeiros séculos da Igreja, quando os cristãos, para defender a sua singularidade, tinham a coragem de dizer: «A palavra “Deus” não é um nome para nós, cristãos, é uma aproximação natural do homem para descrever aquilo que não é exprimível» (Justino). Deus é uma palavra que pode conter muitas projeções humanas, que pode ser o fruto de uma reflexão intelectual, que pode ser o resultado de uma procura de sentida feita pelo homem. Aquilo que, ao invés, é decisivo na fé cristã é a meta de um percurso realizado no seguimento de Jesus Cristo, «o iniciador da nossa fé» (Hebreus 12,2). Isto requer que, na nossa missão e evangelização, seja verdadeiramente Jesus Cristo o anúncio, o homem Jesus Cristo que viveu na carne: o homem como nós, totalmente homem numa vida mortal, na história, do nascimento à morte, com todos os nossos limites humanos, exceto o pecado, porque é com a vida humana que Ele nos revelou Deus e nos conduz à comunhão com Ele. E Cristo não só nos revela Deus: Ele, com efeito, faz-se conhecer com Deus, Filho de Deus, verdadeiro Deus e verdadeiro homem.

Aqui está o específico do cristianismo, mesmo num tempo de confronto com os outros monoteísmos e com outras vias religiosas. Eu gosto de falar da “diferença cristã”, que é uma diferença não contra ou sem os outros, mas é uma diferença que nasce da convicção de que Jesus Cristo é verdadeiramente aquele que uniu humanidade e Deus. Depois dele, não se pode dizer a humanidade sem dizer Deus, e não se pode dizer Deus sem dizer a humanidade. Esta é a nossa fé: confessamos que Jesus Cristo é homem e Deus, Deus feito carne, Deus sempre vivo pelos séculos dos séculos. Bento XVI, na abertura da encíclica “Deus caritas est” (2005), teve a coragem de escrever: «No início do ser cristão não está uma decisão ética ou uma grande ideia, mas o encontro com uma pessoa», Jesus Cristo. Isto, a meu ver, é o ponto central, a partir do qual pode verdadeiramente mudar a situação asténica da fé e, consequentemente, a do impulso missionário. O problema da crise da missão “ad gentes”, na realidade, é um problema da missão também aqui, nas nossas terras de antiga cristandade, não há muita diferença. As nossas comunidades cristãs organizaram-se, muitas vezes para elas são mais decisivos os valores ou as práticas éticas que a paixão ardente e a fé em Jesus Cristo. Ao contrário, na evangelização somos chamados a colocar no centro Jesus Cristo e a sua humanidade, revelação do Deus vivo, e isto nunca se repetirá suficientemente. E tome-se atenção: nenhuma negação da divindade de Jesus, mas também nenhum débito da fé cristã ao teísmo, porque é Cristo que nos conduz a Deus, não um qualquer deus que nos conduz a Cristo.


 

Enzo Bianchi
In Monastero di Bose
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: Basílica menor de Santa Maria Maior (Siponto, Itália), reconstruída pela instalação de Edoardo Tresoldi | D.R.
Publicado em 05.02.2020

 

 
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