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Vaticano: Quando Quaresma coincide com quarentena

O episódio mais bizarro aconteceu aos historiadores de Pio XII. Esperaram anos para poder finalmente aceder aos documentos do Vaticano e dar plena luz aos dramáticos acontecimentos da Shoah. Finalmente, por vontade soberana do papa Francisco, na passada segunda-feira, dois de março, as salas repletas de frescos dos vários arquivos da Santa Sé abriram as portas aos investigadores de meio mundo. E menos de uma semana depois, fecharam-se.

A culpa é do coronavírus. O pequeno Estado pontifício verificou o primeiro caso de um paciente positivo. E desencadeou-se o encerramento dos gabinetes a título preventivo. «Expulso dos arquivos da Secretaria de Estado do Vaticano esta manhã quando foi dramaticamente anunciado o fechamento por causa do vírus», contou no Twitter David Kertzer, historiador da Brown University, nos EUA, prémio Pulitzer devido aos seus estudos sobre o Vaticano na época do fascismo [italiano]. «Agora no arquivo apostólico do Vaticano foi-me apena anunciado que fechará depois de hoje. Ninguém sabe quando reabrirá.» A verdade histórica vai ter de esperar…

Esvaziam-se os gabinetes, antecipando o fim-de-semana, e é difícil prever quando voltarão a reabrir-se. A Quaresma, este ano, assemelha-se cada vez mais a uma quarentena. A esperança é que ela também termine na Páscoa, mas dependerá do progresso da epidemia. O senso de incerteza associa quem do Estado Pontifício entra todos os dias, e quem trabalha fora dos muros. A Praça de S. Pedro, as avenidas e ruelas circundantes são, habitualmente, um dos lugares mais apinhados de todo o mundo, lugar de passagem de padres, religiosos e bispos de todos os países, o fluxo contínuo de pessoas faz parte natural da paisagem. Em torno deles forma-se um mundo de vendedores ambulantes, pessoas que furam as filas, empregados de restaurantes e bares, comerciantes. Que nestes dias estão de mãos vazias, no rosto um véu apreensivo.



As mesas dos bares ao ar livre estão livres, não há filas diante do detetor de metais para entrar na basílica de S. Pedro, até a proverbial multidão para ver a capela Sistina e os Museus do Vaticano se evaporou



Sem pessoas, é um outro Vaticano, um outro mundo. Desaparecidos os grupinhos de turistas, algumas raras máscaras, o interior das colunatas de Bernini parece maior do que o normal. A Via della Conciliazione [artéria que conduz à praça de S. Pedro], terminada a habitual agitação, parece uma tranquila zona pedonal. As vozes ecoam. As ruas têm o ritmo de uma vila de província. «O problema é se esta situação se prolonga», diz um empregado restaurante; «os meses de abril, maio, junho são para nós os melhores de todo o ano, se não houver alterações será um drama, sobretudo para atividades que têm vários empregados».

Do interior de uma livraria voltada para a Via della Conciliazione, um empregado, sentado no meio de uma loja vazia, olha para o exterior, desconsolado: «Está assim desde o meio da semana passada. Temos de esperar, a estação é bela, mas basta olhar para a rua, não há ninguém, e aqui entram pouquíssimas pessoas…». Quem entrar num dos numerosos restaurantes existentes no quarteirão é acolhido pelo olhar aliviado, quase incrédulo, dos empregados. As mesas dos bares ao ar livre estão livres, não há filas diante do detetor de metais para entrar na basílica de S. Pedro, até a proverbial multidão para ver a capela Sistina e os Museus do Vaticano se evaporou – e a tendência reforçou-se desde este domingo, com o seu encerramento decretado pela autoridade da Cidade-Estado.

O quarteirão surge despojado, como que investido por uma luz lunar. Na oração do Angelus dominical o papa, pela primeira vez na memória dos anais do Vaticano, falou não à janela do seu estúdio, mas através de vídeo, procurando assim evitar um ajuntamento de fiéis na praça de S. Pedro. A mesma coisa na próxima quarta-feira, para a audiência geral. Não é o vazio dos tempos da guerra, nem sequer o eco longínquo dos dramas que marcaram os séculos do Estado Pontifício, nada a ver com o imaginário dos cossacos que davam de beber aos cavalos no deserto da praça. Um vazio tranquilo, irreal, inimaginável até há poucas semanas, testemunho de um tempo que já não é o mesmo. Repleto só de medo e coragem: «A coragem», escrevia Mark Twain citado no Twitter pelo cardeal Gianfranco Ravasi, «é resistência ao medo e domínio do medo, mas não ausência de medo».


 

Iacopo Scaramuzzi
In Famiglia Cristiana
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: Alex9500/Bigstock.com
Publicado em 09.03.2020

 

 
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