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Verão digital, um tempo precioso

O verão é um tempo (também digital) precioso. Por um lado, distancia-nos do uso, por vezes frenético, dos instrumentos digitais, oferecendo (não só aos mais jovens) muitas ocasiões alternativas para levantar o olhar desses ecrãs. Por outro, recorda-nos o quantos esses instrumentos – que muitas vezes criticamos ferozmente – são objetivamente preciosos.

Demasiadas vezes, com efeito, esquecemo-nos que um só leve “smartphone” contém mais de 40 objetos. Coisa que nunca tinha acontecido na história do mundo. E bastam menos de 200 gramas para ter ao alcance da mão infinitas coleções de livros, de canções, de filmes e de séries de televisão. E quem se recorda de quanto pesavam as malas com os livros para ler durante as férias, dificilmente não apreciará a comodidade de leitores eletrónicos que se podem usar na praia, em pleno sol.

O verão é também a exibição da beleza. Das fotografias no Instagram com paisagens encantadoras. Com as imagens dos nossos lugares, que nos empenhamos para que apareçam o mais belos possível, ainda que retratem a única faixa de mar não sobrelotado que nos rodeia, porque todos nós precisamos (mesmo que só por um instante algo ilusório) de beleza.

O verão é também uma grande ocasião para nos fazer (re)pensar na nossa maneira de estar no digital. E se somos pais e/ou educadores, também na maneira como usamos o digital para dialogar com os nossos jovens. Entendamo-nos, fazemos muito bem em repetir-lhes que não devem estar continuamente agarrados ao telemóvel, mas demasiadas vezes esquecemo-nos que existe igualmente outra via para debatermos com eles certos temas.



Devemos trabalhar como “camponeses digitais” que semeiam o bem, cuidando com desvelo dos hortos e dos campos digitais para o bem de todos



Experimentem pensar: quando foi (se é que alguma vez aconteceu) a última vez que perguntaram ao vosso filho como funciona uma certa “app”, porque é que gosta de determinada rede social, o que encontra de tão entusiasmante em jogos como o “Fortnite” ou “Brawl Stars”, ou apenas como funciona um determinado filtro fotográfico, ou qual é a melhor “app” para montar vídeos breves que se enviam aos amigos? Se nunca o fizeram, revistam-se de boa paciência e experimentem.

Descubram como também numa noite de verão um telemóvel pode tornar-se um belo pretexto para dialogar, para debater, para se abrirem uns aos outros de maneira horizontal. Não eu, pai, na cátedra, e tu, filho, a escutar-me, mas nós, duas pessoas, à mesma altura, olhos nos olhos. Comigo, adulto, que experimento entrar no teu mundo, que muitas vezes não compreendo a fundo. Por uma vez sem me deixar guiar pelas minhas justas preocupações ou pelas minhas dúvidas, mas só com a vontade de te escutar.

O tempo de verão, como eu o vejo, é também uma ocasião única para “fazer a manutenção” em nós próprios. Para nos fazer refletir sobre as “apps” que temos nos nossos telemóveis, e sobretudo sobre quanto e como as usamos. Para nos obrigar a deter num aspeto central: estamos a usar os instrumentos digitais para melhorar pequenas coisas da nossa vida, ou tornamo-nos escravos da última novidade? Usamo-los como eletrodomésticos (ou seja, aparelhos que fazem algumas coisas úteis), ou somos usados por eles? E ainda: quanto da nossa utilização do digital é respeitadora dos espaços, dos ouvidos e do tempo dos outros, e quantas vezes (também em nós, adultos, infelizmente) é usado para perturbar os outros?

O meu desejo para cada um de vós é que este tempo de verão digital nos ajude a usar tudo aquilo que nos rodeia com menos ânsia, menos raiva, menos desafogo, e mais sentido. Temos diante de nós, também (mas deveria escrever sobretudo) como católicos, um grande desafio: usar estes meios poderosos não para litigar, agredir ou semear ódio, mas para espalhar o bem, para divulgar histórias e palavras boas. Devemos trabalhar como “camponeses digitais” que semeiam o bem, cuidando com desvelo dos hortos e dos campos digitais para o bem de todos.


 

Gigio Rancilio
In Avvenire
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: dolgachov/Bigstock.com
Publicado em 31.07.2020

 

 
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