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Rumo ao amor, dia 27: Viver sem medo a gestação de um tempo novo

Respira-se a duplicidade, impele-nos o egoísmo e a cobiça, ligam-nos a violência e o ódio empastado de medo, envolve-nos uma solidão agressiva.

Como enfrentar este medo?

«No tempo em que S. Francisco morava na cidade de Gúbio apareceu um lobo grandíssimo, terrível e feroz, o qual não somente devorava os animais como os homens, de modo que todos os citadinos estavam tomados de grande medo. Frequentes vezes ele se aproximava da cidade; e todos andavam armados quando saíam da cidade…» (“Fiorettti” de S. Francisco).

S. Francisco não foge perante a violência do lobo, quer entender porque é violento. Aproxima-se e apercebe-se de que o lobo não é mau, apenas tem fome e medo. Este nosso tempo exige a mesma atenção e a mesma coragem para poder ver que por trás de tanta violência há muitas vezes apenas fome e medo.

A violência é a amassadura de egoísmo e de medo, é por isso que é tão gratuita e sem razão, ocasional e imprevisível.

O medo é uma emoção natural e complexa, uma reação de defesa, um fator de paralisia que nos conduz a agredir ou a fugir.



Temos uma sede de amor que nos faz sentir sempre em exílio, fugitivos e peregrinos, à procura de uma casa que não sabemos encontrar



Vive-se um ambiente de medo difuso e de insegurança, que agrada a quem tem interesse em nos distrair do âmago dos problemas e impedir-nos de procurar soluções.

«Por medo, fui esconder o teu talento debaixo da terra» (Mateus 25,25).

O medo é como um cão, se foges, morde-te. O escondimento do talento não serviu para derrotar o medo, antes, o medo aumenta quando fugimos do confronto com a vida.

O medo provoca integralismo, e todo o integralismo trava o caminho, não acolhe quem está na incompletude, na inquietação, e aquilo que pode tornar-se em admiração.

O medo do outro não é o medo do outro em sim, mas do fio que nos separa dele. Metem medo todas as linhas divisórias, autênticas ou presumidas, até que passemos para além do fio subtil que está entre nós e os outros, entre nós e a morte, entre nós e Deus.

Devemos atirar para trás das costas este medo, devemos aprender a olhar um metro para lá do horizonte, e é precisamente esse metro a mais que separa aqueles que têm medo daqueles que têm a coragem de viver.

Temos uma sede de amor que nos faz sentir sempre em exílio, fugitivos e peregrinos, à procura de uma casa que não sabemos encontrar.



Jesus diz que uma maneira para nos aliviarmos: um jugo. Estranho, quando alguém está exausto quereria leveza, alívio do peso. Porquê um jugo?



«Vinde a mim vós todos cansados e oprimidos, e eu vos restaurarei. Tomai o meu jugo sobre vós…» (Mateus 11,28-29).

Vivemos anos apinhados de relações superficiais, de mutos que nos aprisionam, de submissão passiva e de amargo desespero.

Vivemos de stress, um apertamento, uma ausência de oxigénio que requer um caminho de saída, um alívio.

Jesus diz que uma maneira para nos aliviarmos: um jugo. Estranho, quando alguém está exausto quereria leveza, alívio do peso. Porquê um jugo? Um jugo serve para andar a dois, e para indicar uma direção. A solução de Jesus é genial: quando alguém está fadigado e oprimido, precisa de duas coisas: uma direção para retomar o caminho, e fazer algo com os outros.

«Toda a criação geme e sofre até hoje nas dores do parto» (Romanos 8,22).

Vivemos tempos de parto que preparam e amadurecem alguma coisa de novo. Cada crise é um batismo do fogo, é um desafio à nossa autenticidade, a crise torna-nos vulneráveis, mas impede-nos de nos fossilizarmos. Devemos viver este tempo, ser responsáveis por ele, sabendo que não conduzirá a uma morte, mas a um novo parto. Ter um amor profundo pelos processos de gestação, um olhar penetrante sobre os tempos de crise.

Jesus, na «quarta vigília da noite», foi ter com os apóstolos caminhando sobre o mar.

Muitas vezes a coragem chega ao final da noite, e ninguém pode dizer que coisa pode dar à luz a noite no seu grande ventre, que mundo que está a nascer que nós desconhecemos.

A nossa época interpela-nos com a sua novidade, e eu só desejo deixar-me interrogar por este tempo que vivo.


 

Luigi Verdi
In Il domani avrà i tuoi occhi, ed. Romena
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: panaramka/Bigstock.com
Publicado em 23.03.2020

 

 
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