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Cristo chamou os descartados do seu tempo. E a Igreja de hoje?

Naquela solene homilia que é a Carta aos Hebreus – um texto tão denso teologicamente e literariamente apurado que constitui um difícil exercício de leitura e de meditação – há uma sugestiva definição de todos aqueles que participam na «nova aliança», de que Jesus é mediador. Eles são designados em grego como “kekleménoi”, isto é, “os chamados”. Precisamente por isso o sínodo dos bispos que se celebra agora tem um horizonte o mais amplo possível. Não é só a vocação dos doze apóstolos, dos seus sucessores, dos ministros ordenados, dos religiosos que é objeto de reflexão e empenhamento pastoral.

São todos os crentes em Cristo a estarem envolvidos porque – sempre de acordo a Carta aos Hebreus – «Ele não se envergonhou de chamá-los irmãos». Há, por isso, uma vocação primária à fé que é aberta a todos, a judeus e a pagãos, como sublinha Paulo, a homens e mulheres de todas as etnias e culturas. É interessante notar que o apóstolo adotou o termo grego “klésis”, “chamamento, vocação”, presente 11 vezes no Novo Testamento (prevalecentemente no epistolário Paulino), para indicar a nova condição, o estatuto, a dignidade dos crentes.

Há, portanto, uma duplicidade de chamamento da parte de Deus. A sua primeira voz é universal, dirige-se a todas as pessoas porque Ele que «sejam salvas e cheguem ao conhecimento da verdade». Existe, todavia, uma outra voz mais “personalizada” que diz respeito ao percurso que cada um deve enfrentar na vida: é o caminho que se deve descobrir com o “discernimento”, isto é, com a escuta e a verificação, e sobre a qual se prossegue depois os próprios carismas, ou seja, com os dons individuais recebidos de Deus, mesmo que pareçam modestos e quase insignificante.

Com efeito, escrevendo aos coríntios, Paulo convida-os a «considerar o vosso chamamento: não há entre vós muitos sábios do ponto de vista humano, nem muitos poderosos, nem muitos nobres». Mas é precisamente esta a paradoxal escolha de Deus que constrói o seu Reino de paz, amor e justiça através dos “descartados” aparentes da sociedade. É sugestivo este vocábulo, querido ao papa Francisco, porque em italiano, língua em que o pontífice se pronuncia publicamente na maior parte dos casos, deriva de “quarto”: é tirar uma parte de um quadrado, é um “esquartejar”, um ato dilacerante.

O chamamento divino é destinado a recompor na unidade esse quadrado precisamente através da parte marginalizada e humilhada – os tolos, os fracos, os ignóbeis e os desprezados, aqueles que são considerados um nada, como se exprime logo depois o apóstolo – mas que é preciosa aos olhos de Deus. Grande parte das narrativas bíblicas sobre a vocação refletem precisamente esta característica: a história da salvação não é uma marcha triunfal de uma armada invencível; é, ao contrário, o lento e árduo avançar no deserto, por vezes com os pés ensanguentados, com a presença de cegos, coxos e deformados, todos no entanto desejosos e capazes de conduzir por diante o povo de Deus até à meta final. Nesta multidão «não há judeu nem grego; não há escravo nem livre; não homem nem mulher, porque todos vós sois um em Cristo».


 

Card. Gianfranco Ravasi
Presidente do Conselho Pontifício da Cultura
In Famiglia Cristiana
Trad. / edição: Rui Jorge Martins
Imagem: "Pequeno-almoço do homem cego" (det.) | Pablo Picasso | 1903
Publicado em 12.10.2018

 

 
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