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O Evangelho é um jardim
Não sei bem se o jardim surge como lugar do sagrado porque a Deus agrade deambular por estes espaços aprazíveis, ou se porque Deus transforme em jardins os lugares por onde passa. Todavia, parece-me que na metáfora do jardim o cristianismo encontra não apenas um traço da sua identidade, mas também uma perspetiva para a sua missão: ser no mundo o que um jardim é numa cidade. Um espaço tranquilo no meio do bulício. Um lugar onde o cinzento da envolvência não abafa a cor da vida.

O elogio das crises de fé (5/5)
«Não há teologia de fé que não seja teologia de crise». A fé é para nos colocar em crise, isto é, em estado de abertura, renascimento e reconfiguração. «Aprender a não temer e a sentir a crise como o momento do chamamento, da vocação, do seguimento e da descoberta mais funda.» «Também para nós a crise, “esse misterioso país das lágrimas”, não é um impedimento. Não são só as crises de fé que nos impedem de acreditar. É nosso o conformismo, o acharmos que está tudo feito e resolvido.»
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O elogio das crises de fé (4/5)
A experiência de Deus não é necessariamente de consolação ou confirmação. A tradição bíblica fala de uma experiência de crise e de luta. A experiência de Deus é de nudez, muitas vezes mudez, de fragilidade, dúvida, silêncio e noite; é uma experiência de não saber, não ver, não conhecer, não ter, não poder... É um não repetido que paradoxalmente acaba por se tornar lugar de encontro. «Bendita noite, bendito silêncio de Deus, bendito caminho austero que a fé nos leva a fazer.» «O que nos é oferecido é o caminho, a viagem, o bordão e as sandálias de peregrino.»
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O elogio das crises de fé (3/5)
Toda a crise é constituída por três andamentos. O primeiro é a separação, por vezes violenta e inesperada. A primeira imagem que temos da crise é a de um rasgão que descostura a vida. O segundo momento é o do umbral: na crise somos colocados perante o inédito. A experiência do novo acontece de uma forma surpreendente. A crise possibilita também a reconfiguração, uma nova compreensão, uma renovada presença no mundo e na história. A possibilidade de renascer. É muito fácil ficarmos no primeiro passo, pensando que a crise é simplesmente a morte. A vida pode ser bela e feliz para além das nossas ilusões.
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O elogio das crises de fé (2/5)
«Temos, culturalmente, pouca disponibilidade para escutar a crise» e perceber que ela «pode ser um austero mestre» que «aparece para evitar o pior», ou seja, «o desencontro com a nossa verdade.» A crise, seja ela de fé, económica ou de qualquer outro tipo, pode ser entendida como «momento privilegiado de auscultação». Para isso é preciso olhar para ela «como um caminho, e não como o fim da estrada». «Neste longo, paciente – às vezes impaciente – processo de maturação interior e crescimento espiritual temos de aceitar o que Camilo Pessanha dizia num dos seus sonetos: “Foi bom para nós esta demora”.»
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O elogio das crises de fé (1/5)
«Mais do que uma palavra, “crise” é uma árvore de ramos incessantes». «A crise é uma espécie de assinatura humana.» «A crise é essencial para podermos crescer.» «Não há vida», «maturação pessoal», «crescimento espiritual» nem «consciência de si» que «não suponha a experiência» da crise. «O verdadeiro problema que a crise coloca é como geri-la, que uso fazer dela.» A vida é o perde-ganha. E nesta perde inscreve-se a possibilidade surpreendente» por onde o «imprevisto de Deus pode entrar». Primeira parte da conferência “O elogio das crises de fé», proferida pelo padre José Tolentino Mendonça.
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O Natal por Bento XVI
«O Natal converteu-se hoje numa festa do comércio, cujas luzes ofuscantes escondem o mistério da humildade de Deus, que nos convida à humildade e à simplicidade. Peçamos ao Senhor que nos ajude a atravessar com o olhar as montras deslumbrantes deste tempo até encontrar detrás delas o menino no estábulo de Belém, para assim descobrir a verdadeira alegria e a verdadeira luz.» Da véspera de Natal de 2005 até à celebração concluída há poucas horas na basílica de S. Pedro, no Vaticano, excertos das homilias de Bento XVI nas missas de 24 de dezembro.
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Deus escolheu ser pobre
Este homem, que era Deus, quis experimentar viver a nossa vida e morrer a nossa morte. Não chegou envolto em honras e nunca as quis. Preferiu sempre ser simples, tendo apenas o essencial, nada mais. Veio até nós amar-nos e viver connosco. Pediu-nos que fôssemos ao encontro dos nossos semelhantes mais pobres, tal como Ele veio ter connosco.

A alegria do Natal
Ficamos demasiado presos aos nossos medos, à nossa autossuficiência, à nossa independência, ao nosso orgulho, às nossas riquezas de pacotilha, em suma a nós mesmos, para ter a audácia da alegria espiritual e nos deixarmos dilatar à medida do dom de Deus. A alegria dilata, a tristeza aprisiona. Para se ser alegre é preciso um certo esquecimento de si, uma perda de si no maravilhamento. Na nossa sociedade de consumo ambiciona-se poder comprar tudo, ter tudo. Nas coisas só se encontra o prazer insaciável e, no limite, o aborrecimento. A alegria, ao contrário, é filha da pobreza, da gratuidade, da ousadia da vida que vive e ri em nós.

Somos a autobiografia de Deus
Quando despontarem as primeiras luzes do Seu cortejo / ainda nos faltará tudo: / o azeite na almotolia, / um alfabeto que descreva com outra firmeza o azul, / formas indivisíveis para este amor, / que só em fragmentos / e numa gramática imprecisa / conseguimos viver.

Advento
Advento, tempo de espera. Não apenas de um dia, mas daquilo que os dias, todos os dias, de forma silenciosa, transportam: a Vida, o mistério apaixonante da Vida que em Jesus de Nazareth principiou. Advento, tempo de redescobrir a novidade escondida em palavras tão frágeis como "nascimento", "criança", "rebento". Advento, tempo de escutar a esperança dos profetas de todos os tempos. Isaías e Bento XVI. Miqueias e Teresa de Calcutá.

A espera do Advento
Podemos viver este tempo de Advento como oportunidade para recuperar a nossa capacidade de esperar. Esperar Deus que vem ao nosso encontro. Preparar o coração e permitir que esta espera silenciosa o aqueça interiormente. Deus vem ao encontro do coração de cada um para nele se deixar acolher. Aconchegar-se na simplicidade e na fragilidade do nosso ser. Podemos fazer do coração humano a manjedoura onde o Emanuel habita. E sairmos desse encontro habitados pelo mistério.

Natal com menos... Natal melhor
Se calhar, a maior conquista do tempo do medo que passa, foi precisamente esta de nos ter tirado a capacidade de ousar levantar a cabeça, de ousar olhar para além do imediato do já, em direção ao menos “imediato” do ainda não, mas que está e vive em tensão de devir, de futuro, de projeção para diante, num diante que encontra a utopia e faz dela o sonho, um sonho que vence o medo, um sonho que se abre à luz. Por isso hoje é tempo de Natal com menos, mas um Natal melhor!
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Um Reino certo em tempos incertos
“Eis o que diz o Senhor: ‘Eu próprio irei em busca das minhas ovelhas e hei de encontrá-las’”. No tempo do profeta, tais palavras referiam-se à situação concreta dum povo humilhado e disperso. Mas não perdem realismo hoje em dia, neste hoje que vivemos e convivemos como povo, de presente angustiado e futuro incerto para tantos e excessivamente tantos. O primeiro serviço de Deus ao mundo é abrir o mundo a Deus. A Deus, presente – faminto e sequioso – em cada portador de cada fome, em cada sedento de água, vida e companhia solidária e fraterna.

As nossas vidas são minas de ouro ocultas
Deus abençoou cada um de nós com um “pacote” de dons, perfeitamente ajustado a cada fase da nossa vida. No entanto poucos de nós alguma vez viram ou confiaram em metade desses dons e poderes que Ele colocou nas nossas mãos. É por isso que as nossas existências são mais pobres e menos felizes do que Deus desejou. Meditação sobre o evangelho do 33.º Domingo do Tempo Comum (13.11.2011).

Só há uma infelicidade, que é a de não sermos santos
O que salva o mundo é a santidade: ela dá flexibilidade à dureza, torna uno o dividido, dá liberdade ao aprisionado, põe esperança nos corações abatidos, esconde o pão no regaço dos famintos, abraça-se à dor dos que choram e dança com outros a sua alegria. A santidade é um sulco invisível, mas torna tudo nítido em seu redor. A santidade é anónima e sem alarde. A santidade não é heroica: expressa-se no pequeno, no quotidiano, no usual. O pecado é a banalidade do mal. A santidade é a normalidade do bem.

O maior entre vós é o vosso servo
Jesus criticou os fariseus por muitos motivos e um deles era o facto de quererem ser melhores do que todos os outros em público. A Litania da Humildade era uma oração que os fariseus fariam bem em rezar e praticar. Há um pouco dos fariseus dentro de cada um de nós, talvez mais nuns do que noutros. Meditação sobre o evangelho do 31.º Domingo.

Deixa-me contar-te uma história
Pelas histórias descobrimos a vastidão de um mundo interior, intacto e errante como uma paisagem do fundo dos mares, e, desse modo também, primordial e delicado, arcaico e sublime. Das histórias recebemos o socorro quando nos faltam palavras (ou outra coisa que não sabemos bem, mas que talvez nem sejam palavras) para medir a altura da alegria, porque, de repente, o amor, a poesia ou a santidade se avizinharam e, percebemos, nada antes tinha sido, para nós, tão imensamente belo e tão perigoso.

Despedimo-nos uns dos outros muitas vezes
A despedida talvez seja a parte mais difícil da esperança. Não se pode dizer muita coisa. Acho que aprendemos devagar, por vezes com muito custo, por vezes mais serenamente, e ambas as coisas estão certas. Quando nas despedidas da vida nos parece que ficou, inevitavelmente, alguma coisa ou quase tudo por dizer, é bom pensar naquilo que o silêncio disse, ao longo do tempo, de coração a coração.

Tudo o que eu sei sobre os animais
Um dos poemas de Walt Whitman que gostaria de ter escrito diz assim: «Creio que uma folha de erva não vale menos do que a jornada das estrelas,/ E que a formiga não é menos perfeita, nem um grão de areia, nem um ovo de carriça,/ E que o sapo é uma obra prima para o mais exigente,/[…]E que a vaca ruminando com a cabeça baixa supera qualquer estátua,/E que um rato é milagre suficiente para fazer vacilar milhões de infiéis».

O que resta do Pai?
A nossa cultura tem praticado, com razões mas sem razão, uma demolição sistemática da figura do pai. O pai deixou de ser referência de valor para avaliarmos o sentido, para delinearmos a fronteira do bem e do mal, da vida e da morte. Vivemos muito mais uma suspeita permanente em relação ao que o pai representa ou mergulhados num luto obsidiante, promovendo o desencanto e a incerteza ao estatuto de novas formas de felicidade (e de ilusão).

Precisamos é de bicicletas
Muitas vezes parecemos estar à espera de um qualquer sinal espetacular para tomar uma decisão de vida sempre adiada. E queixamo-nos de falta de meios para, então sim, levar a cabo aquela transformação necessária ou aquela viragem desejada ou, mais adiante ainda, aquela concretização que indefinidamente protelamos. Contudo, as verdadeiras transformações inventam os meios próprios para se expressarem, e estes, regra geral, começam por ser espantosamente modestos.

Cair em si: possibilidade de um encontro
Deus interrompe a nossa tentativa de nos diminuirmos, interrompe o reforçar da culpa. A culpa gera uma autoexclusão da vida. A culpa destrói a alegria; ameaça o futuro. A misericórdia, simbolizada neste abraço imenso do pai e nos muitos beijos, é cura profunda. Reparamos que é o corpo do filho que é envolvido pelo corpo do pai. Não há nenhuma palavra que possa ter a força deste gesto. O corpo, onde estavam inscritas as memórias destrutivas, é agora abraçado num amor imenso.

Suportar com paciência as fraquezas do nosso próximo
Longe de ser sinónimo de debilidade, a paciência é força em relação a nós mesmos, capacidade de agir de forma compulsiva, espera dos tempos do outro, capacidade de suportar o outro, de apoiar e carregar o outro. Trata-se, portanto, de um momento particularmente importante na edificação das relações interpessoais e eclesiais. Não é por acaso que o Novo Testamento exorta com frequência a ter paciência e a suportar os outros no contexto de difíceis relações comunitárias: «Suportai-vos uns aos outros e perdoai-vos mutuamente, se alguém tiver razão de queixa contra outro».

A luta quotidiana pelo fulgor
O fulgor não é uma evanescência, nem resulta de um qualquer errático acaso. É um combate, o fulgor. É um esforço de todos os dias esta procura de luz, de intensidade, este desejo de uma cintilação na paisagem baça e opaca que, tantas vezes, parece ser a única que nos resta. O fulgor abre-nos a uma compreensão maior do próprio tempo. Liga-nos ao que está mais adiante ou mais fundo. Rompe brechas. Faz-nos teimosamente repetir: “não pode ser só isto”.

Os caminhos do verão
Vem o sol, avança sobre os dias uma claridade que já quase ignorávamos, o calor estende-se longamente como um gato preguiçoso, é julho, quase agosto, e mesmo de gravata e afazeres ainda apertados ao pescoço sabemos isso: que somos feitos para outros modos, que pertencemos a outros lugares. Não tem de ser necessariamente uma deslocação para outro país ou uma cidade diferente da nossa. Às vezes tudo o que nos falta é simplesmente caminhar com outro passo.

Quem nos rouba o tempo?
Desde os horários dilatados de trabalho às solicitações para uma comunicação praticamente ininterrupta, entramos num ciclo sôfrego de atenção, atividade e consumo. «Despacha-te, despacha-te» é o comando de uma voz que nos aprisiona e cujo rosto não vemos. «Despacha-te para quê?». Talvez, se tivéssemos de explicar as razões profundas dos nossos tráficos em vertigem, nem saberíamos dizer. E também disso, desse vazio de respostas, preferimos fugir.

Férias: Vá para fora por dentro!
Pensava como por vezes estamos tão cansados interiormente, tão dispersos, com tanto ruído, com tantas preocupações que nos consomem e tiram ânimo, liberdade, lucidez. Nada que uns dias na praia não resolvam, pensamos nós. Sim, é verdade, os dias na praia com certeza que ajudam a acalmar. Mas o verdadeiro descanso precisa também de uma paragem e de um reencontro interior.

O que é que nos olha de frente?
Vivemos num mundo que nos atropela continuamente, pela quantidade e velocidade da informação. As imagens que vemos também nos obsidiam, aprisionam e devoram. Na sobreposição de discursos e factos, nem sempre somos capazes de contrariar a alienação. E depois: quantos dos nossos gestos não se tornaram, entretanto, meros automatismos! Quantas das nossas escolhas não se esvaziaram de conteúdo, cabendo-nos administrar apenas a forma!

Deus move-se entre os tachos
Santa Teresa fala de pessoas que têm uma vida muito ativa, dispersa numa multiplicidade de empenhos, e que, no entanto, conseguem uma vitalidade espiritual. Há, de facto, um mal-entendido de séculos que opõe, no interior da nossa cultura, para não dizer da nossa própria consciência, a contemplação à ação. Como se a vida ativa necessariamente nos desertificasse, atirando-nos para longe de nós próprios e de Deus.

A estrada da confiança
Ensina-nos a devolver a todos os Teus filhos e a todas as criaturas a extraordinária Bondade com que nos amas. Não permitas que o nosso espírito se feche no medo ou no ressentimento: ensina-nos que é possível olhar a noite não para dizer que pesa em todo o lugar o escuro, mas que a qualquer momento uma Luz se levantará.

Aprender a negociar
Ninguém sabe, realmente, o que é uma mulher, o que é um homem, o que é uma árvore, o que é uma palavra, o que é um silêncio... E se aceitamos que não sabemos, temos que tirar daí uma ilação: a urgência de trocar o nosso conhecimento muito assertivo pela negociação. Em vez de acharmos que já conhecemos, dizermos: – não, eu não conheço, eu ainda não sei o que é. Então como nos podemos avizinhar uns dos outros? Negociando.

Nós também somos de lá
Gostei muito da forma como o escultor Rui Chafes começou, há tempos, uma sua conferência na Faculdade de Letras, surpreendendo os ouvintes que lá estavam: «Nasci em 1266, numa pequena aldeia, que já não existe, na Francónia, na Baviera», disse ele. Na verdade, Chafes nasceu em Lisboa, no ano de 1966. Mas é só isso a verdade? Todos nós somos o resultado imprevisível de um caminho que outros começaram muito lá para trás e que outros continuarão depois de nós. As fronteiras são linhas aproximativas e móveis.

A fronteira é linha do fim ou do começo? (3)
«Antes o vôo da ave, que passa e não deixa rasto, / Que a passagem do animal, que fica lembrada no chão. / A ave passa e esquece, e assim deve ser. / O animal, onde já não está e por isso de nada serve, / Mostra que já esteve, o que não serve para nada. // A recordação é uma traição à Natureza, / Porque a Natureza de ontem não é Natureza. / O que foi não é nada, e lembrar é não ver. // Passa, ave, passa, e ensina-me a passar!» (Alberto Caeiro). Terceira e última parte da intervenção do padre José Tolentino Mendonça na conferência “A fronteira é linha do fim ou do começo?”.

O simples e o complexo
À primeira vista parece que fomos criados para verdades simples e só essas respondem cabalmente às expectativas do coração humano. À medida que crescemos essas evidências empalidecem, desdobram-se, diferenciam-se, entreabrem-se, interrogam-se, dividem-se. O que parecia simples escapa-nos, num processo de complexificação que não dominamos completamente e que, em grande medida, acaba por se nos impor.

A fronteira é linha do fim ou do começo? (2)
Ninguém realmente sabe o que é uma mulher, um homem, um crente, uma árvore, uma palavra, um silêncio. E se aceitamos que não sabemos, temos de tirar uma ilação: trocar o conhecimento pela negociação. O que eu vejo neste momento é uma etapa, uma estação, um instante. O enigma, como a fronteira, não é o limite mas a possibilidade. Por isso aquele não se desfaz, nem pela racionalidade – o coração tem razões que a razão desconhece.
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A fronteira é linha do fim ou do começo? (1)
A grande arte não é construir um espaço nosso, um ponto fixo. A verdadeira arte é perceber que o olhar do orante aceita que a peregrinação é o sacramento do invisível. A escuta e a atenção são o início da viagem espiritual autêntica. O fundamental da vida não é o que adquirimos ou sabemos mas o ato de escuta. A vigilância não é o apego ao mapa mas o amor à viagem. Primeira parte da intervenção do padre José Tolentino Mendonça na conferência “A fronteira é linha do fim ou do começo?".
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Conta-me a tua vida fantástica
Tornou-se uma espécie de desporto nacional a lamuria, a propósito de tudo e de nada. Na hora de relatar a vida, o que vem à tona são mais as dificuldades, os medos avulsos, para não dizer os ressentimentos. Mais do que a gratidão pela vida vamos mantendo um irremediável conflito de interesses que nos faz achar que nunca é suficiente o que temos ou o que nos acontece.

O papa e os astronautas
A  tendência (contra a qual temos de lutar até ao fim) é a de tornar tudo ainda mais pequeno e limitado: são assim os nossos trânsitos rotineiros e sonâmbulos; são assim as visões parcelares que nos aprisionam ou os detalhes onde nos perdemos. Contemplar o que conhecemos a partir de outra perspetiva ou ousar o exercício (mesmo que, a princípio, doloroso) de buscar uma compreensão mais ampla, e de conjunto, sobre a realidade constitui o grande desafio da sabedoria.

Amar a imperfeição
Ouvi aí umas duzentas vezes o poeta Tonino Guerra citar o verso de um monge medieval: «É preciso ir além da banal perfeição». É isso mesmo: a perfeição pode ainda ser um caminho que trilhamos pela superfície ou constituir uma ilusão que nos impede de aceder ao verdadeiro e paradoxal estado da vida. Levamos tanto tempo até perder a mania das coisas perfeitas, até nos curarmos do impulso que nos exila no aparente conforto das idealizações, ou finalmente vencermos o vício de sobrepor à realidade um cortejo de falsas imagens!

«Quem crê em mim fará as obras que Eu realizo»
Uma mulher vivia cheia de sofrimentos e decidiu partilhá-los com o seu pároco. “Os meus filhos detestam-me. Ninguém me vem visitar. A minha artrite está a ficar pior. Há semanas que o sol não aparece. E esta manhã o leite azedou.” De repente o seu rosto iluminou-se: “Mas sabe, padre, passei a semana inteira com de dor de cabeça e agora ela desapareceu!". O sacerdote respondeu: “Não, minha querida, a sua dor de cabeça não desapareceu. Agora fui eu que fiquei com ela!".

Um itinerário para Deus - o comentário de Simone Weil à oração do Pai-Nosso
Esta infinidade da infinidade preenche-se, de um extremo ao outro, de silêncio, um silêncio que não é uma ausência de som, que é objeto de uma sensação positiva, mais positiva que a de um som. Os ruídos, se os há, não me chegam senão depois de atravessarem este silêncio. Por vezes também, durante esta recitação ou noutros momentos, Cristo está presente em pessoa, mas a sua presença é infinitamente mais real, mais lancinante, mais clara e mais plena de amor do que a daquela primeira vez em que me tomou.

Sobre a leveza
Se tudo no tempo parece empurrar-nos com ilimitada gravidade para a rasura, temos de entender, então, a leveza como o ato de contrariar esse peso. De facto, somos chamados a “aliviar” a espessura de tudo aquilo que obscurece o texto do mundo e nos obscurece. A leveza é uma espécie de pacto a estabelecer com a transparência. E, progressivamente, deverá tornar-se um estilo, uma dicção, um modo esperançoso de habitar a nossa história.

Somos porco-espinho, somos raposa
Sempre que a raposa saltava para surpreendê-lo, o porco-espinho enrolava-se todo, tornando-se numa impenetrável bola bélica, cheia de pontas aguçadas em todas as direções. Perante isso a raposa tinha de recuar à floresta para a preparação de novos esquemas. A moral da parábola é a seguinte: «A raposa sabe muitas coisas, mas o porco-espinho sabe uma coisa muito importante».

Diário de bordo de um peregrino
Milagres ocorrem sem dúvida, muito mais frequentemente do que ousamos suspeitar, mas muitas vezes o maior número de milagres não são as curas físicas, mas a cura interior da pessoa inteira que, mediante o processo da peregrinação, descobre uma vida nova.

Todas as palavras são cartas de amor
O que se aprende com Dean Falk, mas também com Fernando Pessoa, é que as palavras são, mais do que tudo, a verbalização do desejo que sentimos do outro. No fundo, o que quer que digamos dizemo-lo para avizinhar ou reter o outro perto de nós, para retardar ou desmentir a sua ausência, para dizer que ele é demasiado importante para nós.

Evangelho do 2.º Domingo da Páscoa
«Tomé, um dos Doze, chamado Dídimo, não estava com eles quando veio Jesus. Disseram-lhe os outros discípulos: "Vimos o Senhor". Mas ele respondeu-lhes: "Se não vir nas suas mãos o sinal dos cravos, se não meter o dedo no lugar dos cravos e a mão no seu lado, não acreditarei".
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Luís Miguel Cintra lê Cântico dos Cânticos
«Beije-me com os beijos da sua boca. Melhor as tuas carícias do que vinho. O aroma dos teus perfumes é melhor. Tua fama é odor que se derrama. Por isso as raparigas amam-te. Arrasta-me atrás de ti, corramos! Fez-me entrar o rei em sua penumbra. Folgaremos e alegrar-nos-emos contigo.» Estes são os primeiros versículos do livro bíblico do Cântico dos Cânticos, que o ator e encenador Luís Miguel Cintra leu em Lisboa, na Capela do Rato, a 20 de março. Veja a leitura na íntegra.
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Luís Miguel Cintra e José Tolentino Mendonça apresentam Cântico dos Cânticos
A primeira vez que José Tolentino Mendonça ouviu o Cântico dos Cânticos foi através da voz de uma analfabeta que lavava o chão da igreja. Tinha então 14 anos. O caráter quase clandestino do livro bíblico na liturgia cristã, radicado na sua acentuação erótica, não impede que seja ao mesmo tempo muito habitado e fecundo, revelando o desejo do corpo e da presença.
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Confiar na vida diante da morte
Para que não esqueçamos a nossa mortalidade, a vida lembra-o de tempos a tempos. Adoecemos, entramos em depressão, perdemos os nossos amados, experimentamos alterações dramáticas no curso dos acontecimentos. E sentimos que podemos morrer, ou chegamos mesmo a desejar que tal suceda.

Que sentido tem a Páscoa?
A Eucaristia, por vezes repetida como mero culto ou rotineiro signo de pertença sociológica, é, na verdade, o lugar vital da decisão sobre o que fazer da vida. Todas as vidas são pão, mas nem todas são Eucaristia, isto é, oferta radical de si, entrega, doação, serviço. Todas as vidas chegam ao fim, mas nem todas vão até ao fim no parto dessa utopia (humana e divina) que trazem inscrita.

Evangelho do Domingo de Páscoa
«No primeiro dia da semana, Maria Madalena foi de manhãzinha, ainda escuro, ao sepulcro e viu a pedra retirada do sepulcro. Correu então e foi ter com Simão Pedro e com o outro discípulo que Jesus amava e disse-lhes: “Levaram o Senhor do sepulcro e não sabemos onde O puseram”.»
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O que vem a seguir? Jesus sabe!
Ele deu-nos a garantia de que a sua promessa é de confiança. E é isso que celebramos na manhã de Páscoa: Jesus ressuscitou, e aqueles que acreditam nele e configuram a vida à sua imagem também ressuscitarão com Ele e estarão com Ele por toda a eternidade.

Via-sacra da fé e do desenvolvimento
Jesus, Tu sabes o que significa estar só diante dos que Te odeiam ou Te temem. Caminha conosco nos períodos em que nos sentimos sem força para realizar as mudanças que sabemos que são necessárias. Guia-nos e sustenta-nos quando procuramos fazer a diferença. Ensina-nos como viver com o Teu amor e com a Tua verdade.
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A Quinta-feira Santa de Bento XVI
Da Missa Crismal, celebrada na Basílica de São Pedro, à celebração onde se recorda a instituição da Eucaristia e se repete o gesto do lava-pés.
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Contemplação e ação ontem e hoje
Há cada vez mais pessoas que não estão satisfeitas com o mundo em que vivemos. Raras são, porém, aquelas que fazem alguma coisa para o transformar. Destas, umas procuram torná-lo melhor por meio do seu esforço, individual ou coletivo; outras acham que os defeitos do mundo não estão no próprio mundo, mas no olhar de quem nele vive; por isso procuram transformar-se a si próprias e mudar o olhar com que o veem. As primeiras são partidárias da ação; as segundas confiam nos efeitos da contemplação.

Confiar é a única saída
Jesus nunca pecou, mas os evangelhos dizem-nos que experimentou muitas tentações. Certamente que a maior de todas chegou perto do fim, quando os seus apóstolos desertaram, parecendo não ter aprendido nada do que ele lhes tentou ensinar. A tentação do desespero deve ter sido tremenda. Mas mesmo deixado a morrer sozinho, Jesus não desesperou e não voltou atrás. Confiou-se inteiramente às mãos do seu Pai e seguiu para a morte.

Tornar Jesus pertinente é uma imensa prioridade para a Igreja
«O grande perigo é reduzirmos o cristianismo a uma dimensão ornamental e puramente sociológica. Somos cristãos apenas por ser, porque recebemos isso do passado ou apenas porque a gramática cristã nos dá uma certa consolação. O cristianismo tem de ser muito mais do que isso.» Seguimento de Jesus, sofrimento, diálogo com a cultura, espiritualidade, atenção e silêncio são alguns dos temas abordados pelo padre José Tolentino Mendonça na última parte da entrevista concedida à Ecclesia.

Ele nunca desiste de nós
Muitos de nós diriam que não mereciam que alguém morresse por eles, mas Jesus não pensou assim. Desde o início conheceu-os inteiramente e não teve ilusões a seu respeito. Mas também viu mais do que eles viam em si próprios. Viu a sua capacidade para crescer em grandeza. E como derradeiro amigo fiel, estava determinado a permanecer com eles até ao fim e ver nascer essa grandiosidade.

José Tolentino Mendonça: «A palavra e a experiência cristã deslocam-nos para fora do rebanho»
A voz de Jesus não é mais uma. Não é uma voz que nos confirma, que diz “está tudo bem”, mas é uma voz que não se conforma. Jesus é um inconformista e por isso leva-nos sempre para a margem. A palavra e a experiência cristã deslocam-nos para fora do rebanho, para fora das nossas certezas e daquilo que está estabelecido.

Evangelho do Domingo de Ramos
«E, pelas três horas da tarde, Jesus clamou com voz forte: "Eli, Eli, lemá sabactáni?", que quer dizer: «Meu Deus, meu Deus, porque Me abandonastes?". E Jesus, clamando outra vez com voz forte, expirou. Entretanto, o centurião e os que com ele guardavam Jesus, ao verem o tremor de terra e o que estava a acontecer, ficaram aterrados e disseram: "Este era verdadeiramente Filho de Deus".»
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O Evangelho
Eu fiquei à entrada, para ajudar a arrumar os que chegavam atrasados, e acabei por vê-lo de pé, encostado a uma parede, completamente comovido com a situação: do coro da Igreja descemos um lençol, giramos as cadeiras nessa direção, abrimos as portas, apagaram-se as luzes. E, já na escuridão, soube-me bem reencontrar, plano a plano, com familiaridade e estranheza, este que é um dos mais extraordinários e exigentes relatos da figura de Jesus.

Renegociar
É curioso verificar, mais uma vez, como nos tempos de crise, quando a estabilidade da sociedade no seu conjunto se problematiza, parece crescer a disponibilidade para escutar os percursos individuais. Os meios de comunicação partem à procura dos registos biográficos, dos olhares singulares, precisamente quando as evidências que sustentam a visão coletiva como que se esboroa.

Abra os olhos e ganhe coragem
Somos todos cegos para muitas coisas, e somos muito mais pobres por causa disso. Raramente vemos o quanto Deus e as pessoas nos amam; apenas vemos uma fração dos nossos dons e só uma pequena parte das possibilidades que Deus nos confiou; só de relance entrevemos as maravilhas que nos rodeiam, especialmente as pessoas maravilhosas que tomamos como certas. Tanta alegria, tanta consolação, tanto entusiasmo perdidos porque somos cegos a parte da bondade existente à nossa volta.
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Olhar para a eternidade
“Look into Eternity”: trabalho da artista ucraniana Oksana Mas, composto por 15 mil ovos pintados por 70 pessoas.
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Voar
Às vezes perguntam-me onde é que no mundo está a poesia. Acho que todos sabemos como o mundo pode ser um lugar prosaico e violento, sem fulgor nenhum, uma máquina de tortura para as questões do espírito, uma parede implacável que nos derruba. Mas não será apenas isso o mundo. E mesmo quando ele se parece reduzir dolorosamente a isso, não podemos esquecer que todos os dias ele é salvo.

A terra de Jesus é o coração humano
Há um drama na narrativa de Jesus, que o prólogo do evangelho de São João diz de forma muito clara: “Ele veio para os que eram seus e os seus não o acolheram”. Isto tem a ver com a terra de Jesus, com o contexto, com o sistema religioso fechado, com o sistema político, mas também com uma questão mais ampla, que é a da humanidade. Porque a terra de Jesus é o coração humano. Jesus encarna, torna-se um de nós. E penso que é a nível da humanidade que essa compreensão da recusa de Jesus tem de ser feita.

"Dá-me de beber"
«Jesus, cansado da caminhada, sentou-Se à beira do poço. Veio uma mulher da Samaria para tirar água. Disse-lhe Jesus: "Dá-Me de beber". Respondeu-Lhe a samaritana: "Como é que Tu, sendo judeu, me pedes de beber, sendo eu samaritana?". Disse-lhe Jesus: "Se conhecesses o dom de Deus e quem é Aquele que te diz: ‘Dá-Me de beber’, tu é que Lhe pedirias e Ele te daria água viva".» Evangelho do 3.º Domingo da Quaresma (forma breve).
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Avançar com confiança pela vida
Porreiro! Nada como não ser capaz de ver para onde se vai! Mas não é assim a maior parte da vida? Ano após ano ela leva-nos para moradas onde nunca estivemos, sem mapa nem manual de instruções. Em cada etapa da vida, uma porta que nos é familiar fecha-se e outra abre-se; e diante dela um novo cenário cujos contornos dificilmente conseguimos enxergar.

Olhar e ver: Nascer do sol em Montserrat
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O poema
Aquilo que o poema ensina é que a beleza é uma metafísica concreta, um ponto de união entre o  invisível e o visível,  encarnação do espírito, forma sensível daquilo que é suprassensível. Contra o mundo domesticado dos discursos, o poema restaura a inevitabilidade da experiência.

Jesus continua a ser uma pergunta fundamental no coração humano
«A pergunta “Quem dizem os homens que eu sou?” é muito plausível porque dizem-se, em todos os tempos, coisas muito diferentes acerca de Jesus, já que acerca dele, e nele, nós refletimos as perguntas do próprio coração humano.» Em entrevista à Ecclesia, o padre José Tolentino Mendonça defende também que o moralismo reduz a pessoa de Cristo.

A primavera está por toda a parte. Até em nós?
A primavera está por toda a parte. Em nosso redor a natureza parece vencer a imobilidade do inverno e amontoa os traços insinuantes do seu reflorir. Há uma seiva que revitaliza a paisagem do mundo. Mesmo nos baldios, nos pátios e quintais abandonados, nos jardins mais desprovidos a primavera desponta com uma energia que arrebata. Penso muitas vezes nos versos do Cântico dos Cânticos, o mais primaveril poema da Bíblia.

Rezar até à impossibilidade de rezar
A oração cristã não é uma viagem ao fundo de si mesmo. Não é um movimento introspetivo. Não é uma diagnose dos nossos pensamentos e moções externas ou íntimas. A oração cristã é ser e estar diante de Deus, colocar-se por inteiro e continuamente diante da sua presença, com uma atenção vigilante Àquele que nos convida a um diálogo sem cesuras. Não é oferecer a Deus alguns pensamentos, mas entregar-lhe todos os pensamentos, tudo o que somos e experimentamos.
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A arte de escutar
Ao contrário dos juízos apressadamente rasos, nos quais todos caímos, é preciso dizer que somos inacessíveis. E que os instrumentos que temos para chegar ao coração uns dos outros são inquietantemente limitados. Basta reconhecer como o nosso olhar, este olhar que tão a miúdo absolutizamos, está prisioneiro do presente: aquilo que o olhar anota é sempre e só o presente histórico nas suas configurações.

O anjo que nos resiste
«Todo o anjo é terrível. Mesmo assim - ai de mim -/vos invoco, pássaros (...) da alma/ sabendo quem sois». Este verso de Rainer Maria Rilke, que a Modernidade tem relido tantas vezes, está construído sobre um aparente paradoxo: primeiro define o anjo como “o terrível”, isto é, inscreve-o no território transcendente do divino, mas depois diz saber  quem ele é. A primeira afirmação, porém, tem uma intensidade tal que condiciona a leitura a fazer da segunda. Que concluir?

Procuras a alegria? Dá tudo o que tens!
Um jovem passeava pela praia quando tropeçou numa lâmpada mágica. Esfregou-a e logo depois um génio saltou do seu interior com uma saudação calorosa: “Tenho grandes notícias para ti! Nesta mesma tarde vais receber três presentes: uma cura para todas as doenças, uma grande herança e um jantar com uma famosa estrela da televisão”.

Evangelho do 8.º Domingo do Tempo Comum (27.2.2011)
Ninguém pode servir a dois senhores, porque ou há de odiar um e amar o outro, ou se dedicará a um e desprezará o outro. Vós não podeis servir a Deus e ao dinheiro. Por isso vos digo: “Não vos preocupeis, quanto à vossa vida, com o que haveis de comer, nem, quanto ao vosso corpo, com o que haveis de vestir. Não é a vida mais do que o alimento e o corpo mais do que o vestuário?”
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O pessimismo é mais fácil
Há, de facto, um erro de avaliação que leva a considerar a jovialidade do otimista como característica espontânea de caráter, que nada deve à decisão, à maturação da vontade ou à tenacidade. Aliás, o mais comum é arrumar o otimismo na ingénua estação dos verdes anos (mesmo se ele persiste fora de época) e reservar o fruto comprovado da argúcia apenas para o seu oposto.

Não se deixe controlar pelos demónios
Para aqueles de nós que, à entrada do terceiro milénio, se veem como os mais modernos da história da humanidade, é fácil gozar com histórias de demónios e imaginar imagens de homenzinhos vermelhos com cornos e rabos pontiagudos. Mas pensar assim é uma insensatez, porque a realidade do demónio no mundo não deve ser subestimada e a nossa luta com ele é inegável e vai durar toda a vida.

O que é uma refeição?
A mesa é um momento de excelência para a revelação de si, pois todo o comensal traz como dom a narração da sua história. A hospitalidade experimentada em torno da mesa instaura um implícito pacto de linguagem. É um espaço / tempo onde o contar se realiza no contar-se.

Porque é que o inútil é importante?
A inutilidade parece à primeira vista um valor negativo ou um contravalor. Quando é que a inutilidade é boa e libertadora? Por outro lado, a nossa cultura, que idolatra a produção e o consumo, assumiu o útil como um dos critérios máximos para avaliar as nossas vidas. Se é útil, é bom. Quando nos sabemos úteis, sentimo-nos compensados. A vida tornou-se uma espécie de grande maratona da utilidade.

Amar os inimigos
As palavras de Jesus enfrentam o problema da violência. Se a lei de Talião é já uma barreira à violência indiscriminada e desmesurada, Jesus propõe uma prática de ativa não-violência aplicada a diversos âmbitos. Mas ainda antes de propor uma estratégia que se opõe à violência, a Bíblia e a palavra evangélica em particular, ajudam o homem a discerni-la, a desmascará-la nas suas camuflagens e a reconhecer que não lhe é estranha.

Evangelho do 7.º Domingo do Tempo Comum
«Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: «Ouvistes que foi dito aos antigos: ‘Olho por olho e dente por dente’. Eu, porém, digo-vos: Não resistais ao homem mau. Mas se alguém te bater na face direita, oferece-lhe também a esquerda.»
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Olhar e ver: Dia de São Valentim no mundo
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O grande delírio: Sou Deus!
Colocamo-nos no centro do nosso pequeno universo e esquecemos de onde viemos e para onde vamos. Durante certo tempo torna-se uma ilusão impetuosa, até que a realidade começa a impor-se quando chegamos a uma encruzilhada em que os acontecimentos ficam fora do nosso controlo. O despertar é inevitavelmente doloroso e a negação persiste quase sempre para além de toda a razão.

A Paciência
Tanto os que semeiam os campos, como os que depositam sementes nos corações, deveriam primeiro ter formado a alma na paciência. Pois a paciência, ao revelar o escondido processo de germinação da vida, também torna claro que é essa a única forma de cuidar bem dela, de a entender até ao fim, de acompanhá-la, passo a passo, com esperança.

Os velhos deviam ser como exploradores
Tomo este repto para percorrer a Bíblia e reparo, mais uma vez, que no seu conjunto, a Bíblia conta mais Primaveras que Outonos, e algumas delas bem tardias e inesperadas. É possível os anciãos terem sonhos? Normalmente pensa-se que os sonhos pertencem à primeira etapa da vida: a seguir estamos condenados a somar receios, prudências e temores.

O mal: uma difícil questão
Como é que o mal deixa de ser o irreparável? Quando aproveitamos o contexto de mal para um acontecimento doutra ordem. Quando deixamos apenas de perguntar: «Porque é que isto me aconteceu?». E investimos antes as nossas forças criadoras a decidir: «Como é que devo reagir vitalmente a isto que aconteceu?».

A atenção
Comecemos talvez de um modo desajeitado, perguntando: o nosso mundo interior é uma cebola ou uma batata? A pergunta faz-nos sorrir, é um bocado cómica, mas, se quisermos, acaba por colocar-nos perante a nossa realidade de uma forma bastante profunda.

A mulher que se casou com ela própria
A existir um pingo de verdade nesta insólita história, somos remetidos para um nível mais profundo de compreensão: temos de tentar perceber, por de trás do ato, ainda que nos pareça destituído de qualquer racionalidade, o que conduz ou pode conduzir um Ser Humano a uma decisão destas.

Que fazemos nós do tempo?
Sabemos que o tempo é a argila da vida. Do incomensurável oceano ao sucinto regato, da minúscula pedra ao elevado rochedo, da planta solitária ao vastíssimo bosque, tudo tem no tempo uma chave indispensável. Também nós somos modelados e lavrados, instante a instante, pelos instrumentos do tempo.

Um presépio japonês
O monge surpreendeu-se, contudo, com a atitude de compreensão do clérigo: “Já aqui estou há vinte anos e cada vez compreendo menos”. O silêncio como audição do universo é, afinal, do domínio do mistério, desse mistério que nos leva a ter dificuldade em entender o momento supremo que nos conduz à apreensão do que é belo.

Trazemos por viver ainda uma infância
O dano mais pernicioso do dito “Natal comercial” é a manutenção de uma retórica infantilizada e equívoca, que oculta a mensagem aos seus verdadeiros destinatários. De repente, parece que o Natal é apenas uma história que existe para colocar um sorriso deslumbrado no rosto das crianças e esquecemos que é no fundo complexo da alma de um adulto, nesse oceano emaranhado e confuso, que o acontecimento do Natal vem despertar uma centelha.

O Presépio somos nós
O Presépio somos nós / É dentro de nós que Jesus nasce / Dentro destes gestos que em igual medida / a esperança e a sombra revestem / Dentro das nossas palavras e do seu tráfego sonâmbulo / Dentro do riso e da hesitação / Dentro do dom e da demora / Dentro do redemoinho e da prece / Dentro daquilo que não soubemos ou ainda não tentamos

É verdadeiramente feliz?
Toda a gente quer e anseia a felicidade. Rezamos por ela. Mentimos, enganamos e roubamos na esperança de a encontrar. Trabalhamos horas extraordinárias na convicção de que a podemos comprar ou fazer acontecer. E no entanto o mundo está cheio de pessoas infelizes.

Para rezar enquanto se constrói o presépio
Enganam-se os que pensam que só nascemos uma vez. / Para quem quiser ver a vida está cheia de nascimentos. / Nascemos muitas vezes ao longo da infância / quando os olhos se abrem em espanto e alegria.

Envelhecer é uma dádiva
Envelhecer tem as suas desvantagens, mas também oferece algumas bênçãos singulares. Pode lembrar-nos das coisas que ficam e daquelas que se desvanecem, das fontes onde os nossos corações se saciam - e daquelas onde tal nunca acontecerá. Pode impelir-nos a deixar partir o que não interessa e abraçar a vida autêntica, e não apenas aparências.

O que pode ser hoje uma espiritualidade cristã? (III)
Precisamos de pessoas capazes de escutar. Na prática da vida espiritual cristã hoje é essencial a frequência e a prática da escuta de Deus através da Escritura. A lectio divina é essencial para dar novo vigor á vida espiritual renovada pelo Concílio Vaticano II. E é importante porque o método, o dinamismo da lectio divina é o método da vida espiritual. Nela atenho-me no texto, leio-o, medito-o, estudo-o e procuro compreendê-lo, pondo em prática na minha vida para viver a minha quotidianidade segundo a vontade de Deus. Só assim posso discernir a presença de Deus.

Aprender, transmitir
Comecei a visita ao Japão pelo chamado «Passeio dos Filósofos».  É um longo caminho silencioso junto de um dos braços do rio, onde duas pessoas podem caminhar não apenas durante uma hora, mas durante uma vida. Em vez de "Passeio dos Filósofos" seria, talvez, mais correto designá-lo por caminho «dos Mestres», ou «do discípulo e do Mestre», se pensarmos que a cultura japonesa nunca enveredou pelos modelos especulativos da filosofia ocidental, mas se fixou na procura de uma sabedoria que é, antes de tudo, uma arte de ser e de viver.

O que pode ser hoje uma espiritualidade cristã? (II)
S. Bento, na sua regra monástica, quando escreve sobre a humildade, diz que quando os monges subirem todos os graus desta escala, atingem a humildade, o grau mais baixo, que é grau do pecador publicano que não ousa olhar para o céu, mas que volta à terra e diz: «Senhor, tem piedade de mim, que sou pecador». Mas, dentro dessa treva, descobrimos a pérola preciosa, e o que procuramos já o temos em nós e espera por nós.

Arte de Jardinagem
Sophia de Mello Breyner escreveu: «Em todos os jardins hei de florir…». Acho que a podemos compreender bem, pois quem conhece minimamente o seu próprio coração sabe quanto ele se assemelha a um jardim. Por saber isso é que nos tornamos, claro está, nos primeiros interessados na peculiar arte de jardinagem que é o cuidado do nosso mundo interior.

O que pode ser hoje uma espiritualidade cristã? (I)
O que é humano autenticamente segundo Cristo é autenticamente espiritual; e o que é autenticamente espiritual segundo Cristo é autenticamente humano. Autores antigos falavam de deificação não no sentido ontológico, mas no sentido personalístico. Mas como poderemos ser “deus” se ainda não somos homens? Precisamos primeiro de ser homens segundo Cristo.

Como vai ser a eternidade? A escolha começa hoje
Todos nós temos a tendência de depositar a nossa fé em coisas que podemos ver e tocar. É um grande erro, como Jesus nos lembra. Afinal, tudo o que nós podemos ver e tocar, incluindo os nossos próprios corpos, acabará por desaparecer. Nada ficará a não ser o coração.

A Amizade
Com alguns, sei que a nossa amizade se cimenta na capacidade de fazer circular o relato da vida, a partilha das pequenas histórias, a nomeação verbal do lume mais íntimo que nos alumia. Com outros, percebo que a amizade é fundamentalmente uma grande disponibilidade para a escuta, como se aquilo que dizemos fosse sempre apenas a ponta visível de um maravilhoso mundo interior e escondido, que não serão as palavras a expressar.

Saltar no escuro... e não olhar para trás
Há uma antiga expressão que diz: Trabalha como se tudo dependesse de ti, e reza como se tudo dependesse de Deus. É precisamente o que é necessário, mas não é fácil aplicá-lo porque não conseguimos ver Deus, e demasiadas vezes não conseguimos ver os nossos dons.

Olhar e ver: Peregrinação a Meca
A Hajj, peregrinação a Meca, na Arábia Saudita, é um dos pilares da fé dos muçulmanos, devendo ser realizada pelo menos uma vez na vida por todos aqueles que tenham disponibilidade física e financeira.
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Mais perto do que é importante
Os nossos empréstimos são pagos dentro dos prazos, os nossos automóveis têm a manutenção em dia e não adiamos o corte de cabelo; mas será que acontece o mesmo com os nossos casamentos, os nossos filhos, a nossa espiritualidade...? E a lista poderia continuar.

Dez conselhos para a oração
Os amigos, se querem encontrar-se, devem fazer escolhas e decidir as prioridades na sua agenda. Se eles permanecem na fase do desejo, nunca se reencontrarão. Com a oração é a mesma coisa. Se só rezar quando tem vontade, então não reza o suficiente. Padres, religiosos e leigos sugerem algumas orientações, baseadas na sua vida espiritual.

Sou ponte ou obstáculo?
Há poucas coisas mais frustrantes do que querermos desesperadamente chegar a algum lugar e encontrar sinais com proibições do tipo “Trânsito proibido”, “Estrada em obras” ou “Desvio”. Sabemos onde precisamos de ir e como chegar lá, mas algo ou alguém impede o nosso caminho, muitas vezes por más razões. Muita da nossa vida é assim.

Um pequeno conforto
Gosto muito deste conto de Raymond Carver e já o tenho repetido. O que aprecio nele é sobretudo mostrar como as cenas da vida quotidiana, mesmo as mais dramáticas, nos podem abrir aos grandes espaços da experiência interior. As palavras criam um clima de acolhimento e escuta.

Ele quer devolver-nos o nosso futuro
Algumas das escolhas feitas pela maior parte de nós basearam-se em valores ou objetivos que já não nos dizem nada. Muitos dos nossos trabalhos, carreiras, amizades, casas e estilos de vidas foram e são verdadeiros equívocos à luz do que Jesus nos ensinou sobre aquilo que realmente interessa. Muitas das nossas antigas escolhas não nos podem levar onde agora percebemos que queremos estar, ou seja, em comunhão, na grande família onde Deus está ao centro.

Olhar e ver: O esplendor do outono
O Outono é hoje de outro mundo. Imprime / uma luz que diríamos abstracta. / Do que subtrai é que ilumina.
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Que lugares andamos a construir?
Aonde quer que vamos, estamos constantemente a construir lugares, ainda que por instantes. Frequentemente não nos apercebemos que estamos permanentemente a mudar o espaço de quem nos rodeia. O que traz aborrecimentos, porque demasiadas vezes não acrescentamos nada a esse espaço; pelo contrário, levamos algo que não nos pertence.

Sonata de Outono
E o outono vai-se instalando. A princípio nem parece uma estação. É quase um estado de alma, este tempo assim um pouco vago, em declive delicado, com a chuva ainda rala (mesmo se em alguns dias chega por aí aos tropeções) e o vento que parece um miúdo a aprender a assobiar. Olhamos com íntima estranheza para a brevidade destes primeiros dias, dos quais já não nos lembrávamos.

Aquele que está para além de todos os nomes conhece o teu nome
O medo não é o único ladrão que se esconde dentro de nós. Há um exército inteiro de pequenos parasitas que nos podem enganar: ressentimentos causados por desfeitas ocorridas há muito tempo; zangas originadas por disputas fúteis; competição cruel por coisas secundárias; cortes de relações motivadas por teimosias acerca de questões irrisórias; deceções que debilitam toda a existência.

À procura do tesouro
Quantas férias perdidas, quantas madrugadas passadas no escritório ou no laboratório foram gastas antecipadamente como preço de fortunas aparentemente fáceis? São incontáveis, como um número demasiado elevado de esposas nos poderia dizer. Qualquer que seja o período histórico, o progresso nunca foi barato.

De que falamos quando falamos de santidade
Fizemos da santidade uma coisa tão extraordinária, abstrata e inalcançável, que quase não ousamos falar dela. Muito menos no espaço público. De certa forma, habituamo-nos a olhar para a experiência cristã como que acontecendo a duas velocidades: o caminho heroico dos santos e a frágil estrada que é aquela de todos os outros, e por maior razão a nossa.

A janela
As janelas exteriores são símbolo da abertura interior. Uma janela é uma sugestão. Em si mesma pode até não significar nada de especial. Especial é o que ela desencadeia, trazendo-nos e levando-nos para lá dos nossos pontos de vista, deslocando os nossos patamares, alargando o nosso campo de visão.

Os santos não nasceram santos
Mateus, Pedro, Paulo, Maria Madalena: nenhum deles começou santo. Foi mais ao contrário. Eles tornaram-se homens e mulheres santos lenta e dolorosamente, com muitos começos, paragens e retrocessos. E repetidas vezes, como muitos testemunharam nos seus diários, eram atormentados pelo desencorajamento profundo causado pela falta de progresso e erros frequentes.

Olhar e ver: ataque a igreja católica em Bagdade
O ataque à Igreja Siríaca Católica de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, em Bagdade, capital do Iraque, e os confrontos com as forças policiais causaram este domingo pelo menos 58 mortos, entre os quais dois padres, e setenta e cinco feridos, maioritariamente mulheres e crianças.
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A santa sem nome
Era uma vez uma pequena que servia numa quinta – já não se sabe onde... Esta jovem parecia de tal maneira insignificante que só a chamavam por “Ei, tu aí”, “Psst, pequena” ou “Ó miúda”. O seu nome havia sido completamente esquecido e ela própria também já não o recordava.

Enfrentar a verdade e abrir a porta à cura
Ao contrário de muitos de nós, Zaqueu sabia que tinha de mudar. Por isso, quando ouviu que Jesus ia passar pela cidade, abandonou toda a dignidade de homem conceituado e subiu a um sicómoro para se assegurar que veria este homem santo, que talvez lhe pudesse dizer como encontrar a alegria que faltava à sua vida. O resto é história. Jesus levantou a cabeça, olhou-o nos olhos e disse: “Deixa-me ficar hoje em tua casa”. Jesus ficou e a vida de Zaqueu mudou para sempre quando finalmente encontrou a alegria que há muito procurava.

Não sei de onde sois
No evangelho segundo S. Lucas, Jesus fala sobre a dificuldade de entrar pela porta estreita. Ele diz-nos para termos bem claro o que interessa e o que é irrelevante. Se entregarmos os nossos corações a preocupações que não contam, porque motivo haveremos de pensar que Ele nos vai conhecer quando batermos à sua porta? O que é que haverá em nós que seja parecido com Ele?

Uma grande viagem começa por um só passo: O gratuito
Talvez se deva começar por explicar aquilo que o "ato gratuito" não é. Ele não é mais uma estação da ofegante luta pela vida que quotidianamente nos traz mobilizados. Ele não é a necessária corrida ao trabalho, aos bens, ao consumo, aos horários implacáveis, aos transportes que não dormem. Nem se pode identificar sequer com os pequenos prazeres que nos damos, os lazeres, as viagens programadas, as recompensas disto e daquilo. O "ato gratuito" não tem preço: por definição, não se compra nem se paga.

Oração sem fé vai a pé
Muitos continuam a tentar controlar e manipular um pequeno e não muito simpático Deus com subornos, promessas e observâncias religiosas desprovidas de adesão interior. Aquele pobre cobrador de impostos, permanecendo ao longe, com a cabeça inclinada, compreendeu o que está em jogo na oração e na devoção. Meditação sobre a leitura evangélica do 30.º Domingo do Tempo Comum (24 de outubro).

Olhar e ver (20.10.2010)
A festa de Nossa Senhora da Nazaré, que se realiza anualmente em Belém, cidade do norte do Brasil e capital do estado do Pará, é a celebração religiosa mais popular do país. A edição deste ano, realizada a 10 de outubro, contou com a participação de mais de um milhão de peregrinos.
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Quem tudo quer, tudo perde
Já reparou em quantas pessoas na estrada, nas lojas, nos telejornais ou em qualquer lugar parecem pensar que são as únicas que existem, ou, pelo menos, as únicas que contam? É o chamado narcisismo: absorção total em si próprio, nas suas prioridades e desejos. Tudo isso acontece quando nos desligamos de Deus e perdemos o nosso centro.

Quantos cabelos há na sua cabeça?
As vidas da maior parte de nós são habitadas e empatadas por uma série de medos: medo de abandono, medo do embaraço, medo da rejeição, medo da dor, medos de perdas e humilhações de toda a espécie. E demasiadas vezes deixamos que esses medos nos paralisem e impeçam a nossa personalidade de crescer.

Olhar e ver (16.10.2010)
Na Bulgária, mineiros participam em celebração de ação de graças pelo resgate dos mineiros no Chile. Um crucifixo que se crê ter sido criado por Giotto é apresentado à imprensa depois de restauro. Na Turquia, os cristãos são 0,13% da população.
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Olhar e ver (14.10.2010)
Resgate dos mineiros no Chile.
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Olhar e ver (12.10.2010)
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Dar nome às nossas feridas, assumi-las e entregá-las
Algumas feridas no nosso espírito são tão profundas que parecem estar além de qualquer cura. Mas Jesus assegura-nos que não é assim. O Evangelho deste Domingo mostra-nos por onde começar: nomear as nossas feridas claramente e especificamente. Mas elas fazem tanto parte de nós que é difícil deixá-las partir...

Quem não está comigo está contra mim
Há uma frase vigorosa na Bíblia que diz: “Se Deus está por nós, quem pode estar contra nós?”. É uma expressão veemente porque Deus está sempre connosco e por nós. Só há um problema: demasiadas vezes não estamos com Deus, pelo menos não plenamente.

Seja feita a vossa vontade
Se eu peço o que é necessário à salvação, serei sempre acolhido. Mas se eu peço o que me parece necessário à salvação, serei ouvido segundo a substância do meu pedido, e não necessariamente segundo o seu teor explícito. Daí a condição “se é verdadeiramente de acordo com a tua vontade, com o teu amor” deve estar sempre subentendida numa prece dirigida a Deus.

Escolher a melhor parte
A preocupação rouba as melhores partes das nossas vidas, mas não tem que ser assim. É por isso que Jesus diz firmemente a Marta: “Andas inquieta e perturbada com muitas coisas; mas uma só é necessária”.

O nosso coração precisa de compaixão?
Com um pequeno esforço podemos justificar tudo. E essa atitude mete-nos em sarilhos porque enclausuramos Deus. Como é que podemos dizer honestamente que lamentamos o que quer que seja e pedir ajuda e perdão se estamos certos de que está tudo bem connosco? Meditação para o texto do Evangelho da 12/9/2010 (24.º Domingo do Tempo Comum).

Reconhece que és pobre e torna-te rico
Possuir uma quantidade razoável de bens deste mundo pode distrair-nos da nossa condição de criaturas. Podemos começar a levar-nos demasiadamente a sério. E a não ser que sejamos inesperadamente detidos por alguma tragédia, poderemos ser levados a pensar que somos autossuficientes, dispensando-nos de nos aborrecermos demasiadamente com Deus.

O Silêncio
Quando medito no contributo que a cultura possa dar, num futuro próximo, à existência humana, pressinto que mais até do que a palavra será a partilha desse património imenso que é o silêncio. Mesmo que construamos a palavra como uma torre, temos de aceitar que ela não só não toca cabalmente o mistério dos céus, como muitas vezes nos incapacita para a comunicação e a compreensão terrenas.

Passemos para a outra margem
Nessas férias seria diferente! Saberíamos o nome uns dos outros e mais: daríamos tempo para saborear a história e a presença que cada um é. Não seria o relógio a presidir aos nossos encontros, nem a utilitade imediata a emprestar justificação às nossas procuras. Pelo contrário: estar em comunidade seria como caminhar junto ao mar, sem nenhuma pressão de horários (exteriores e interiores), entregues ao prazer da contemplação e da companhia.

Dizer adeus à Terra do Eterno Talvez
O que é que Jesus quer dizer ao afirmar que a sua missão não é para espalhar a paz mas a divisão? O que se segue lembra um argumento da pior das telenovelas, onde todos lutam contra todos. Será isto que Jesus pretende?

Que mundo estamos a criar?
Provavelmente nenhum de nós encontrará alguma vez um homem a morrer na berma da estrada. E a maior parte de nós raramente será chamada a fazer um sacrifício realmente significativo por outra pessoa. Mas todos nós iremos encontrar milhares de pessoas cujas vidas podemos tornar um pouco mais ricas, um pouco mais felizes porque estávamos lá e porque demos o que tínhamos.

Deus ajuda aqueles que se ajudam
Deus abençoou cada um de nós com um vasto conjunto de talentos e habilidades, mas muitos não as concretizaram tanto quanto seria de esperar. Há muitas causas, mas uma delas destaca-se entre as pessoas com convicções religiosas: a tendência para rezar e esperar que Deus faça o resto.

Para uma espiritualidade da cura
A atividade curativa de Jesus ultrapassou em muito as curas miraculosas descritas pelos evangelhos. O seu hábito de tratar as pessoas como objeto de um perdão incondicional, libertando-as de toda a culpabilidade ou de todo o pecado, tinha um poderoso efeito curativo sobre aqueles a quem se repetia a torto e a direito que eram culpados.

Abrir as portas dos nossos quartos escuros
O que é que Jesus vê quando lê os nossos corações? Sem dúvida que vê a nossa bondade – que nós próprios, tantas vezes, não conseguimos enxergar – e vê o nosso desejo de sermos verdadeiros e de realizar atos de amor. Mas há outra parte de nós que ele também vê: os nossos pecados e faltas, naturalmente, e também aqueles quartos fechados cujas portas nem sequer ousamos abrir.

A possibilidade de reencontrar a vida
Este vaivém que Julho e Agosto introduzem (com viagens mais próximas ou longas, tráfegos de vária ordem, alterações ao quadro de vida corrente…) constitui, para lá de tudo o mais, uma espécie de coreografia interior. Dir-se-ia que a própria vida solicita que a escutemos de outra forma. De facto é disso que se trata, mesmo que se não diga. É com esse imperativo que cada um de nós, mais explícita ou implicitamente, luta: a necessidade irresistível de reencontrar a vida na sua forma pura.

Jogar às escondidas com Deus
Em cada geração, um das brincadeiras infantis mais populares é jogar às escondidas: uma criança tapa os olhos enquanto as outras se ocultam; após alguns segundos, a primeira tenta encontrar as restantes. Os adultos costumam muitas vezes usar uma variante: procuram um lugar para se esconderem da realidade ou da verdade, em vez de a tentarem procurar ou encontrar.

Heróis não nascem - fazem-se
Quando celebramos o triunfo da graça de Deus em Pedro e Paulo, celebramos igualmente o facto de também nós podermos ser grandes, cada um de acordo com a sua realidade. A festa é também uma oportunidade para afastar todos os falsos medos que nos segredam que nunca sairemos do que somos hoje, todos aqueles medos que nos dizem que nem Deus nos pode fazer crescer interiormente, que nem Deus nos pode tornar grandes.

Da arte de inventar desculpas
A maior parte das pessoas é razoavelmente dotada na arte de inventar desculpas, seja qual for o assunto. De facto muitos de nós começam cedo, com o cão que comeu o trabalho de casa que nunca existiu ou o irmão mais pequeno que atirou esse mesmo trabalho pela janela do carro quando ia para a escola. Ou talvez com algo tão simples como “Ela obrigou-me a fazê-lo”.

Deitar a mão ao arado e não olhar para trás
É muito fácil esquecer quem somos e para onde vamos. Em determinadas alturas das nossas vidas, é tudo muito claro. O casal jovem no altar, o padre acabado de ordenar, o jovem sagaz que se dirige à primeira aula na Faculdade de Direito: todos sabem para onde vão; sabem que haverá um preço a pagar e estão prontos a pagá-lo. É tudo muito claro e muito simples.

Surpresas de Deus
É difícil imaginar a surpresa que os pais de João Baptista sentiram quando descobriram que Isabel estava grávida. Eles eram velhos, muito velhos! E sem filhos! E de repente, um bebé, e as suas vidas transformaram-se de uma maneira que já não imaginavam.

Liturgia das Horas: Rezar sozinho é rezar acompanhado
Que posso dizer sobre a minha maneira de rezar o Breviário em solidão? É muito simples. Não tendo a pretensão de ensinar nada seja a quem for, vou dizer em algumas linhas como eu, eremita há onze anos, celebro a Liturgia das Horas em solidão sem nunca estar só.

Seremos cegos?
Alguns de nós não conseguem ver o suficiente para conduzir, ler ou distinguir o que passa na televisão. Nesses casos podemos ter de usar óculos ou até lupas para tarefas de precisão. Este é o nível físico. Mas a maior incapacidade de visão reside num aspecto mais profundo.

Ser discípulo de Jesus, hoje
Tornar-se discípulo é uma escolha pessoal que conduz ao distanciamento da multidão. Nos nossos meios há diversas maneiras de ver Jesus. A cultura actual, com a acção exercida pela comunicação social, acentua esta pluralidade de olhares mas sempre com a construção de consensos, de visões partilhadas e dominantes que convidam a uma conformação com essas tendências.

Pensar em grande
“Nega-te a ti próprio”. “Carrega a tua cruz cada dia e segue-Me." Não parece uma grande receita para uma vida grande e feliz, a não ser que se esteja realmente a sofrer! Mas é Jesus que fala, por isso vamos ver se podemos dar algum sentido a essas palavras.

Sete momentos de oração de Jesus
Há uma relação única de intimidade entre Filho e Pai, uma comunhão total, no Espírito, do seu amor mútuo. É no interior desta relação que Jesus é o que é; e a oração é o lugar privilegiado do seu “ser filho”. “Ninguém conhece o Filho se não o Pai.” “Conhecimento” deve ser entendido aqui no sentido bíblico da palavra: uma comunicação de amor.

Jesus, o orante
Jesus vai manifestar-se como filho nesta fidelidade a uma não apropriação das riquezas espirituais e temporais colocadas à sua disposição. No fim da vida, será na pobreza total que o seu amor e a sua fé se vão exprimir.

Rezar é preciso
Queres associar-nos à tua obra, fazendo, pela oração, que os nossos corações sejam aberturas, brechas pelas quais a tua graça entre no mundo e se espalhe entre os nossos irmãos como se espalhou pelas feridas do teu Filho na cruz.

Como orar?
O nosso coração deve ser uma casa de oração, um lugar onde o Filho se volta para o Pai no amor. O silêncio deve estar presente e nós devemos fazer calar os gritos dos vendedores e os gritos de um comércio ainda mais subtil: o de uma atitude demasiado interesseira de cálculo e de procura de si.

Aquele a quem rezamos
Jesus ensina aos seus discípulos a maneira como eles se devem dirigir a Deus, mostrando os sentimentos que Deus experimenta a respeito deles. O Deus que Jesus lhes apresenta é sobretudo o Pai e a conduta prática dos apóstolos deve derivar dele.

O coração do orante
O desprendimento das coisas da terra não é suficiente. Se o coração está devidamente ordenado mas vazio, sete outros espíritos, cada um mais maligno do que aquele que foi posto fora, podem introduzir-se e o “estado final daquele homem torna-se pior do que o primeiro".

As ovelhas escutam a minha voz
Conhecer as ovelhas é obviamente uma aptidão necessária para um pastor, que deve distinguir entre muitos animais aqueles que fazem parte do seu rebanho. Na linguagem de Jesus, é mais do que isso. O conhecimento implica uma relação pessoal profunda, feita de confiança e de amor. Por causa desta relação, Jesus quer dar às ovelhas a vida eterna, a comunhão perfeita no amor. Na linguagem do quarto evangelho, a vida eterna não começa apenas depois da morte; todos os que crêem, que reconhecem Jesus como o enviado do Pai, já entraram na vida eterna. Meditação para as leituras de 25/4/2010, 4.º Domingo da Páscoa.
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