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A palavra só sobrevive se for reconvertida em acontecimento

Refletir sobre a função específica de uma comunidade eclesial, as suas aspirações e instâncias de sentido, a sua linguagem e o seu papel na Igreja e na sociedade é o que Paul Ricoeur - como raramente encontramos nos filósofos - tenta fazer numa conferência proferida um ano antes do "Maio de 1968". A intervenção foi transcrita e espalhou-se entre os estudantes do mestre da hermenêutica francês (1913-2005), mas nunca tinha chegado ao grande público.

Gravadas em janeiro de 1967 numa sala da paróquia protestante de Amiens, em França, durante um encontro teológico de dois dias, as palavras desta longa conferência - dividida em três partes, com interlocutores católicos, protestantes e comunistas, e transcrita pelo pastor Ennio Floris - foram publicadas no ano seguinte em "Cahiers d'Etudes du Centre de Recherche et de Rencontres du Nord", com o título "Sentido e função de uma comunidade eclesial". O ensaio de aproximadamente 100 páginas foi recentemente traduzido e publicado em Itália pela editora Claudiana, que preferiu intitulá-lo "Para uma utopia eclesial".

O autor do prefácio, Olivier Abel, considera que a obra é ao mesmo tempo «uma testemunha militante de um período de transição» e «um banco de prova, um laboratório de temas filosóficos desenvolvidos (...) de forma independente», onde se destaca um aspeto do pensamento de Ricoeur demasiadas vezes negligenciado, no qual os leitores poderão colher uma abordagem filosófica nova, radical».

Na primeira parte, Ricoeur centra-se no tema "Ser protestantes hoje" (com grande atenção à linguagem); no segundo capítulo discorre acerca da presença da Igreja no mundo (refletindo nos pontos de inserção, capacidade de pressão e aspetos específicos da comunidade cristã); a terceira parte incide sobre a "Fé e religião", referindo-se a Bonhoeffer, Ebeling e Fuchs, bem como à tradição da pregação primitiva e à exegese paulina.



Já não podemos construir teologias especulativas, sistemáticas, nas quais falamos de Deus como causa primeira, um pensador supremo, um ser absoluto separado de todos os outros seres, mas devemos pensar no que pode significar na Escritura o Deus de Jesus Cristo. Se Jesus Cristo é aquele que morre dando a vida, é este ato de Cristo a esvaziar-se por nós a ser o único acesso a Deus



São páginas militantes de um Ricoeur então presidente do Movimento do Cristianismo Social e também da Federação Protestante, e dois anos depois reitor da Universidade de Nanterre. Páginas que desenham traços de uma Igreja contraponto de utopia dentro da sociedade, entre críticas externas à religião (Marx, Nietzsche, Freud) e desconstrução de várias pseudo-racionalizações (que ocultam vivos textos bíblicos).

Não são escassas as passagens de grande interesse. No âmbito da linguagem, por exemplo, sobre a palavra que não pode tornar-se relíquia, sobrevivendo graças a constantes reinterpretações: «Chamo interpretação não só ao que podemos fazer intelectualmente, mas também praticamente e socialmente para tornar atual uma palavra que continua a ser palavra apenas se continuar a ser reconvertida num acontecimento, uma palavra que se torna esse próprio acontecimento».

No âmbito teológico, na resposta à pergunta «podemos ainda pronunciar a palavra Deus?»: «Já não podemos construir teologias especulativas, sistemáticas, nas quais falamos de Deus como causa primeira, um pensador supremo, um ser absoluto separado de todos os outros seres, mas devemos pensar no que pode significar na Escritura o Deus de Jesus Cristo. Se Jesus Cristo é aquele que morre dando a vida, é este ato de Cristo a esvaziar-se por nós a ser o único acesso a Deus».

E assim «a comunidade cristã não tem mais nada a oferecer aos outros seres humanos a não ser esta declaração do Deus que se esvazia, da fraqueza absoluta de Deus pelo ser humano, que permite o novo ser humano, e que abre uma esperança na qual os seres humanos são responsáveis, cada um em relação a todos».



Gostaríamos de anular o tempo, o espaço, o destino do nascimento e da morte, mas num projeto semelhante torna-se tudo instrumento, ferramenta, no reino universal de manipulável e do disponível. É este projeto que resulta no vazio total do não sentido. É dessa maneira que a nossa modernidade vive simultaneamente da racionalidade crescente da sociedade e do absurdo crescente do destino



Ricoeur interroga-se sobre aquela que lhe parece ser «a função insubstituível» de uma comunidade confessante num tipo de sociedade como a nossa, ou seja, uma sociedade da previsão, da decisão racional, da invasão da técnica na vida quotidiana a todos os níveis. Escreve o filósofo: «Parece-me que a razão de ser das Igrejas consiste em colocar em permanência a pergunta sobre os fins, sobre a "perspetiva", numa sociedade da "planificação".

O "bem-estar"? Para que finalidade? Esta questão toca as razões profundas do ser humano na sociedade da produção, do consumo e do tempo livre. Ela caracteriza-se por um controlo crescente do ser humano sobre os meios e pela eliminação dos seus fins, como se a racionalidade crescente dos meios revelasse progressivamente a ausência de sentido. Isto é particularmente verdadeiro nas sociedades capitalistas [...]. Desta forma, torna-se manifesto o primeiro elemento da sociedade de produção: o desejo sem fim».

Mas há outro sonho vão que anima o ser humano da sociedade de consumo: «o aumento de seu poder», explica Ricoeur. Que acrescenta: «Gostaríamos de anular o tempo, o espaço, o destino do nascimento e da morte, mas num projeto semelhante torna-se tudo instrumento, ferramenta, no reino universal de manipulável e do disponível. É este projeto que resulta no vazio total do não sentido. É dessa maneira que a nossa modernidade vive simultaneamente da racionalidade crescente da sociedade e do absurdo crescente do destino». Uma confirmação da ausência de justiça entre os homens, mas ainda mais da falta de amor e de significado.

Eis então os problemas que emergem perante o sinal da "insignificância": o trabalho, o tempo livre, a sexualidade. Perante eles a tarefa não é recriminar-se ou arrepender-se, mas testemunhar. Como? Apelando à utopia, responde Ricoeur, que chama utopia a uma «perspetiva de uma humanidade cumprida, ao mesmo tempo enquanto totalidade dos seres humanos e enquanto destino singular de cada pessoa». É a perspetiva que pode conferir um sentido: querer que a humanidade seja uma, querer que ela se realize em cada pessoa. Na responsabilidade de pensar sempre um duplo destino.


 

Marco Roncalli
In Avvenire
Trad. / edição: SNPC
Imagem: Paul Ricoeur | D.R.
Publicado em 19.05.2018

 

 

 
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