
A originalidade e o carácter simbólico das coisas
«Que vejo quando contemplo uma coisa, por exemplo, a árvore que tenho diante de mim? Isto é, não se trata do que penso perante ela e sobre ela no meu entendimento, mas: que vejo nela com os meus olhos?
«A primeira resposta é: vejo a sua forma: o seu conjunto, que consiste em formas, cores, movimentos. Mas o que é? Responde-se: um corpo. Apenas um corpo? Sim, pois os olhos só podem ver o corporal. Mas, é isto verdade? “Forma” é apenas um corpo? Uma relação de magnitudes, uma função orgânica, uma beleza, são apenas corporais? Certamente que não, são também, e por essência, espirituais. Mas, o espiritual, não é impossível vê-lo? Por si só não se pode “ver”, mas como determinação do corporal, sim pode. Ocorre até que só se pode “ver” o que está determinado pelo espírito, captando-se como dado determinado com pleno sentido, enquanto que algo meramente corporal não se pode captar em absoluto – não chegaria sequer a dado sensorial. (…)
«As coisas significam o que são em si mesmas e simultaneamente algo mais além de si mesmas. São entes imediatos e simultaneamente símbolos. (…)
«Por exemplo, uma árvore é uma coisa natural, observável, determinável nas suas propriedades botânicas e utilizável para os mais diversos fins. Pode tomar-se também de modo meramente empírico, com frialdade calculadora. Mas então não se trata da árvore propriamente dita, mas de algo limitado, imperfeito. Basta no entanto uma ocasião, e acontece o contacto: então, de repente, a árvore está aí como algo misterioso. Ao ocorrer isto, não se dilui no incerto; não se converte em algo fantástico, como poderia pensar o homem da Idade Moderna, antes conserva todas as suas qualidades. Mas nelas faz-se presente o “outro”: aparece o divino. Só deste modo chega a ser em absoluto ela mesma; só então, em absoluto, é totalmente árvore. Não tem apenas a realidade profana, mas a realidade total. Enquanto tal, tem um poder que penetra o homem e o pode encher, e ainda abismar, segundo a intensidade da experiência, com terror e assombro. (…)
«Seja o que for um ente, só o elemento numinoso – dito de um modo cristão, o facto de que seja concebido, criado, regido por Deus – o torna pleno, lhe dá todo o seu peso de sentido e a sua inteira espessura de realidade. De modo análogo, a experiência que o homem tem do ente, fica determinada pela sua capacidade de apreender a sua valência religiosa. Quanto mais intensa é essa sensação, mais poderosos se tornam para quem os apreende, o sentido e a realidade desse ente; mais cumpridos os seus âmbitos de mundo; mais séria a sua relação com a vida.
«Se é assim, o adelgaçamento da valência religiosa deve prejudicar a relação com o mundo, com as outras pessoas e com a sua própria vida. De facto, com o mencionado adelgaçamento torna-se patente uma míngua progressiva do sentido da vida. Tudo se torna menos importante. Todas as estruturas de sentido perdem o poder de impressionar. Tem lugar um esfriamento do sentir imediato que pode chegar à perda do sentido de realidade.»
Romano Guardini, Religião e Revelação, Guadarrama, Madrid, 1968.
Trad.: jnm
jnm
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