
Laurence Freeman e Herbert Damisch na Gulbenkian
Em momentos diferentes do ano passado (2006), e no contexto de diferentes ciclos de conferências organizados pela Fundação C. Gulbenkian, dois reconhecidos conferencistas abordaram o tema da beleza. Foram eles Laurence Freeman, monge beneditino, Director da Comunidade Mundial de Meditação Cristã (WCCM), com sede em Londres, e Hubert Damisch, conhecido filósofo e historiador de arte francês.
As entrevistas, de que apresentamos alguns excertos, foram publicadas respectivamente na revista Pública e no jornal Público. Lidas em conjunto, as duas entrevistas, realçam particularmente a intersecção e a autonomia, o encontro e o desencontro, de três âmbitos da experiência humana: Deus, a beleza e a arte.
H. Damisch:
“A beleza já não está no centro da problemática da arte. Temos o exemplo de Marcel Duchamp, dos ready made, a roda de bicicleta e o urinol, não são objectos particularmente belos e são objectos que têm um grande valor artístico.
“A beleza não é apenas um domínio da arte, a beleza na arte é uma beleza criada, existe também beleza na natureza, nos gestos, nos seres humanos.
“O que nós entendemos por beleza não é exactamente o mesmo que na sociedade chinesa ou nas sociedades ocidentais do século XVI ou XVIII. Há uma História da beleza, a beleza não é um dado eterno. Ao mesmo tempo há qualquer coisa no belo que enquanto valor pretende ser eterno.
“O que é que faz que nós qualifiquemos uma coisa como arte? É toda a questão posta por Duchamp. Se qualquer coisa pode entrar no museu e tornar-se um objecto de arte, a arte não é mais que um nome. É uma posição puramente nominalista: a arte é aquilo a que chamamos arte.
“A posição de Duchamp não é a minha, mas é uma questão que se coloca e que fez entrar nos museus objectos paradoxais. [Esta posição] adquiriu demasiada importância na reflexão sobre o que se passa na arte contemporânea. Mas a arte contemporânea não é só isso.
“O que é interessante na arte contemporânea é que trabalha em todas as direcções. Não é uma coisa unívoca, homogénea.
“A crítica tem coisas para dizer, mas o que acontece é que actualmente não é suficientemente crítica (...) acho que hoje há um papel que a crítica não assume. Por exemplo, a crítica do que se entende por arte, por beleza, é central mas paradoxalmente ninguém se interessa por ela.”
L. Freeman:
“A trindade (conceito de grande importância em todas as religiões) do Bem, do Belo e da Verdade é a noção que melhor revela, para a nossa compreensão, a essência de Deus. Para o pensamento cristão, digamos que é uma antiquíssima antecipação, ou intuição, da Divina Trindade.
“Focámo-nos continuamente na Verdade e também, como base da moral, no Bem. Filosófica e teologicamente, esquecemos um aspecto essencial de Deus, o Belo. De um ponto de vista humano, podemos viver a experiência do Belo de várias maneiras. A beleza física do corpo, no apogeu da vida ou no momento da morte, a beleza de uma obra de arte, a beleza da Natureza, de uma descoberta científica, etc... Sempre que dizemos que uma coisa é bela, estamos a dizer que descobrimos nela um dom, uma dádiva, algo que não podemos controlar ou medir com exactidão, que não está nas nossas mãos fixar e que, de algum modo, contém em si uma espécie de segredo, uma verdade que escapa a uma definição comum.
“Por isso a beleza tem uma grande capacidade de nos 'curar', de nos refrescar e regenerar. Se nos sentimos presos a um dogma, ou a uma moral, ou a uma ideologia, a percepção do Belo tem o condão de nos libertar, de nos aproximar da verdadeira essência da realidade com que nos defrontamos, de nos reconduzir a uma espécie de inocência perdida.
“Quando se faz, profundamente, a experiência do Belo, não se pode sentir rancor, não se pode estar zangado. A energia da raiva dissolve-se nesse momento. Não há padrões universais de beleza, mas não é dificil imaginar que em qualquer parte do mundo se reconhece a beleza de uma criança. O terrivel é depois vermos como, em situações de guerra e conflito (lembremo-nos do Holocausto), até as crianças são sacrificadas. Não podemos portanto ser sentimentais nestas reflexões sobre o Belo, porque sabemos que como a civilização tem tido momentos de colapso, matando em si a capacidade de percepcionar a beleza. A nova consciência universal de que já falámos, deverá prestar uma crescente ‘atenção’ ao contributo do Belo para a paz no mundo. Também deste modo a ‘nova santidade’ ganhará maior expressão.”
jnm
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