A Teologia visual da Beleza
Igreja e arte

O Vaticano II e o estímulo da expressão artística contemporânea na liturgia

“A Igreja deve reconhecer as novas formas artísticas, que se adaptam às exigências dos nossos contemporâneos. Sejam admitidas nos templos quando, com linguagem conveniente e conforme às exigências litúrgicas, levantam o espírito a Deus.

Deste modo, o conhecimento de Deus é mais perfeitamente manifestado; a pregação evangélica torna-se mais compreensível ao espírito dos homens e aparece como integrada nas suas condições normais de vida.“ (GS 62)

Seguem-se, por ordem cronológica, excertos de três textos significativos da reflexão da Igreja sobre a sua relação com a arte contemporânea. Tratam-se de duas constituições do Concílio Vaticano II – uma sobre a liturgia e outra sobre a relação da Igreja com o mundo contemporâneo – e umas palavras que, entre a aprovação destes dois documentos, Paulo VI dirigiu aos artistas.

O esquema preparatório do documento do Concílio sobre o tema da liturgia foi rejeitado e posteriormente aprovado numa forma menos jurídica, mais bíblica e mais aberta. A Constituição Sacrosanctum Concilium foi o primeiro documento que o Concilio aprovou (1963).

O esquema rejeitado definia, por exemplo, as formas de arte mais convenientes ao culto. Por sua vez, o documento aprovado é prudente no que diz respeito à arte litúrgica, convida a promover uma ”nobre beleza” sem referir nenhum estilo em particular.

Posteriormente (1964), Paulo VI dirige-se de forma corajosa aos artistas. Lembra a responsabilidade da Igreja no distanciamento da arte do seu tempo, estimula os artistas a obter a sólida informação religiosa necessária à arte litúrgica e manifesta o desejo de retomar o diálogo com os artistas, tão fecundo no passado.

Finalmente, a Constituição Pastoral Gaudium et Spes (1965), num capítulo dedicado à questão do diálogo com a cultura, encoraja a Igreja a aderir às correntes de arte contemporânea que, na sua qualidade de expressão do humano, ajudam a enraizar e exprimir a fé.

jnm

Nota: Nas citações que se seguem os trechos em itálico foram seleccionados pelo autor.

 

Sacrosanctum Concilium, Constituição sobre a Sagrada liturgia

Arte Sacra e Objectos Litúrgicos

122.
Entre as mais nobres actividades do espírito humano estão, de pleno direito, as belas artes, e muito especialmente a arte religiosa e o seu mais alto cimo, que é a arte sacra. Elas tendem, por natureza, a exprimir de algum modo, nas obras saídas das mãos do homem, a infinita beleza de Deus, e estarão mais orientadas para o louvor e glória de Deus se não tiverem outro fim senão o de conduzir piamente e o mais eficazmente possível, através das suas obras, o espírito do homem até Deus.

123.
A Igreja nunca considerou um estilo como próprio seu, mas aceitou os estilos de todas as épocas, segundo a índole e condição dos povos e as exigências dos vários ritos, criando deste modo no decorrer dos séculos um tesouro artístico que deve ser conservado cuidadosamente. Seja também cultivada livremente na Igreja a arte do nosso tempo, a arte de todos os povos e regiões, desde que sirva com a devida reverência e a devida honra às exigências dos edifícios e ritos sagrados. Assim poderá ela unir a sua voz ao admirável cântico de glória que grandes homens elevaram à fé católica em séculos passados.

124.
Ao promoverem uma autêntica arte sacra, prefiram os Ordinários à mera sumptuosidade uma beleza que seja nobre. Aplique-se isto mesmo às vestes e ornamentos sagrados.
Tenham os Bispos todo o cuidado em retirar da casa de Deus e de outros lugares sagrados aquelas obras de arte que não se coadunam com a fé e os costumes e com a piedade cristã, ofendem o genuíno sentido religioso, quer pela depravação da forma, que pela insuficiência, mediocridade ou falsidade da expressão artística.
Na construção de edifícios sagrados, tenha-se grande preocupação de que sejam aptos para lá se realizarem as acções litúrgicas e permitam a participação activa dos fiéis.

125.
Mantenha-se o uso de expor imagens nas igrejas à veneração dos fiéis. Sejam, no entanto, em número comedido e na ordem devida, para não causar estranheza aos fiéis nem contemporizar com uma devoção menos ortodoxa.

126.
Para emitir um juízo sobre as obras de arte, oiçam os Ordinários de lugar o parecer da Comissão de arte sacra e de outras pessoas particularmente competentes, se for o caso, assim como também das Comissões a que se referem os art. 44, 45, 46.
Os Ordinários vigiarão com todo o cuidado para que não se percam nem se alienem as alfaias sagradas e obras preciosas, que embelezam a casa de Deus.

127.
Cuidem os Bispos de, por si ou por sacerdotes idóneos e que conheçam e amem a arte, imbuir os artistas do espírito da arte sacra e da sagrada Liturgia.
Recomenda-se também, para formar os artistas, a criação de Escolas ou Academias de arte sacra, onde parecer oportuno.
Recordem-se constantemente os artistas que desejam, levados pela sua inspiração, servir a glória de Deus na santa Igreja, de que a sua actividade é, de algum modo, uma sagrada imitação de Deus criador e de que as suas obras se destinam ao culto católico, à edificação, piedade e instrução religiosa dos fiéis.

128.
Revejam-se o mais depressa possível, juntamente com os livros litúrgicos, conforme dispõe o art. 25, os cânones e determinações eclesiásticas atinentes ao conjunto das coisas externas que se referem ao culto, sobretudo quanto a uma construção funcional e digna dos edifícios sagrados, erecção e forma dos altares, nobreza, disposição e segurança dos sacrários, dignidade e funcionalidade do baptistério, conveniente disposição das imagens, decoração e ornamentos. Corrijam-se ou desapareçam as normas que parecem menos de acordo com a reforma da Liturgia; mantenham-se e introduzam-se as que forem julgadas aptas a promovê-la.

129.
Para poderem estimar e conservar os preciosos monumentos da Igreja e para estarem aptos a orientar como convém os artistas na realização das suas obras, devem os clérigos, durante o curso filosófico e teológico, estudar a história e evolução da arte sacra, bem como os sãos princípios em que deve fundar-se.

Sacrosanctum Concilium

 

Excertos da homilia do Papa Paulo VI na Missa dos artistas

Capela Sistina, 7 de Maio de 1964

Se o Papa tem de acolher a todos, pois o seu ministério dirige-se a todos, tem no entanto uma palavra especialmente guardada para vós [artistas]. Precisamos de vós. O nosso ministério tem necessidade da vossa colaboração, porque, como bem sabeis, o nosso é o ministério da pregação, o de tornar acessível, compreensível e mesmo emocionante o mundo do espírito, do invisível, do inefável, de Deus. Ora, nesta operação de traduzir o mundo invisível em fórmulas acessíveis, inteligíveis, vós sois mestres. É esse o vosso ofício, a vossa missão, a vossa arte consiste precisamente em captar os tesouros do céu, do espírito, em revesti-los de expressão, de cores, de formas, em torná-los acessíveis, mas não como o faria um professor de lógica ou de matemática, que torna compreensíveis os tesouros do mundo do espírito, inacessíveis às faculdades cognitivas dos sentidos e à nossa percepção imediata das coisas. Vós tendes de facto essa prerrogativa de tornando acessível e compreensível o mundo do espírito, vós conservais o seu carácter inefável e transcendente, o seu halo de mistério, essa necessidade de o atingir na facilidade, ao mesmo tempo que no esforço.

Ora, na vossa arte, a vossa capacidade de tradução no âmbito dos nossos conhecimentos – conhecimentos fáceis e atraentes, isto é sensíveis, aqueles que podemos perceber e adquirir simplesmente através da visão intuitiva -, repitamo-lo, vós sois mestres. E, se estivéssemos privados do vosso concurso, o nosso ministério tornar-se-ia balbuciante e hesitante, teria de fazer um sobre esforço para se tornar artístico e até profético. Para atingir a pujança de expressão lírica da beleza intuitiva, seria necessário fazer coincidir o sacerdócio e a arte.

Poderíamos ainda dizer, e lemo-lo nos vossos corações, que estais em busca do mundo do inefável, e reconheceis que a sua pátria, a sua casa, a sua melhor fonte é ainda a fé, a oração, a religião.

Permitis-me de vos falar francamente? Em certa medida abandonastes-nos: partistes para longe para beber doutras fontes, buscando exprimir outras coisas legítimas, é certo, mas que não são as nossas.

E, também nós vos abandonámos. Não vos explicámos as nossas coisas; não vos introduzimos na célula secreta onde os mistérios de Deus fazem estremecer de alegria, de esperança, de arrebatamento o coração do homem.

Iremos nós refazer as pazes? Hoje mesmo? Aqui?

Paulo VI

Homilia de Paulo VI

(Tradução do francês de J. Norton, em italiano no site do Vaticano)

 

Gaudium et Spes, Constituição pastoral sobre a Igreja no mundo actual

Harmonia entre a cultura humana e a formação cristã

62.
Ainda que a Igreja muito tem contribuído para o progresso cultural, mostra, contudo, a experiência que, devido a causas contingentes, a harmonia da cultura com a doutrina nem sempre se realiza sem dificuldades.
Tais dificuldades não são necessariamente danosas para a vida da fé; antes, podem levar o espírito a uma compreensão mais exacta e mais profunda da mesma fé.
A literatura e as artes são também, segundo a maneira que lhes é própria, de grande importância para a vida da Igreja. Procuram elas dar expressão à natureza do homem, aos seus problemas e à experiência das suas tentativas para conhecer-se e aperfeiçoar-se a si mesmo e ao mundo; e tentam identificar a sua situação na história e no universo, dar a conhecer as suas misérias e alegrias, necessidades e energias, e desvendar um futuro melhor. Conseguem assim elevar a vida humana, que exprimem sob muito diferentes formas, segundo os tempos e lugares.
Por conseguinte, deve trabalhar-se por que os artistas se sintam compreendidos, na sua actividade, pela Igreja e que, gozando duma conveniente liberdade, tenham mais facilidade de contactos com a comunidade cristã. A Igreja deve também reconhecer as novas formas artísticas, que segundo o génio próprio das várias nações e regiões se adaptam às exigências dos nossos contemporâneos. Sejam admitidas nos templos quando, com linguagem conveniente e conforme às exigências litúrgicas, levantam o espírito a Deus.
Deste modo, o conhecimento de Deus é mais perfeitamente manifestado; a pregação evangélica torna-se mais compreensível ao espírito dos homens e aparece como integrada nas suas condições normais de vida.

Gaudium et Spes

 

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Gérard Titus-Carmel

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