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A Radicalidade da Paz


Recentemente vieram-me parar às mãos dois textos fascinantes e bastante incomodativos.

São ambos da autoria do Pe. Emmanuel Charles McCarthy, um padre católico americano, da Igreja Melquita (Rito Bizantino), director do Center for Christian Nonviolence.

O tema é comum a ambos os artigos, e coincide com o trabalho a que este homem dedica a sua vida, a paz. Mas não estamos aqui a falar de uma paz qualquer, estamos a falar de uma paz radical, ultra-exigente, assente no rochedo do amor divino e do mandamento novo “Amai-vos uns aos outros como eu vos amei”.

Em “The Nonviolent Eucharist”, o Pe. McCarthy constrói um argumento interessante no qual critica todas as igrejas canónicas pelo facto de nenhuma incluir uma referência explícita ao mandamento novo nas suas orações eucarísticas. Esta falha, diz, não torna as orações inválidas, mas faz com que sejam “pastoralmente insuficientes”, e será uma das razões por detrás da desunião dos cristãos e da colagem das igrejas ao secular, com tudo o que isso implica de negativo, sobretudo a justificação teológica da violência e da guerra.

“Quo Vadis, Domine” é um autêntico manifesto da não-violência. A única razão convincente para seguir o caminho que Jesus nos propõe é a santidade. A perfeita santidade só é alcançável através de Cristo, pois Ele é a santidade encarnada. Contudo, este caminho de santidade é um caminho heróico pois “cada passo é um passo de amor num ambiente inundado da matéria negra do mal.”

De que tipo de amor estamos a falar? Não do amor como definido por César, nem por Aristóteles, mas sim do amor enquanto definido e vivido por Jesus Cristo. E qual é a melhor definição desse amor? Voltamos ao início: “Amai-vos uns aos outros como eu vos amei” e a advertência inseparável “Amai os vossos inimigos”.

Qualquer outra forma de proceder está fora desta definição e por consequência não leva à santidade, antes afasta-nos dela.

Tudo bem, teoricamente poucos discordariam. Mas, para o Homem, há sempre um “mas”... E se me agridem, não devo responder? Até Cristo nos respondeu a isso, devemos dar a outra face. Tudo bem, mas se não me agredirem a mim, se agredirem os meus filhos? Devo responder com violência? E se invadirem o meu país, devo defendê-lo? O que dizer dos ensinamentos da Igreja sobre a Guerra Justa? Afinal as coisas parecem um pouco mais complicadas do que à primeira vista... A não-violência deve ser absoluta, radical? Para Jesus foi. E para nós? McCarthy afirma que não há outro caminho. O subtítulo do seu livro sobre a Guerra Justa, expressa bem a sua opinião por esta corrente de pensamento que surgiu na Igreja: “Christian Just War Theory: The Logic of Deceit”.

Perante a inflexibilidade deste arauto da não-violência, ponhamos um último e arrasador obstáculo: e se estiver em causa a própria sobrevivência da Igreja? Vejamos o que ele tem a dizer sobre o assunto: “Se há uma coisa sobre a qual a Igreja não precisa nunca de se preocupar, é a sua sobrevivência. A sobrevivência temporal, que é a principal preocupação nos assuntos seculares, é uma não-preocupação para a Igreja. A Igreja sobrevive, ponto final. Sobrevive, não devido a uma administração soberba, acuidade financeira, boas relações públicas, coerção, violência, (...) nem por outro qualquer instrumento usado pelo homem para garantir a sobrevivência de empreendimentos terrenos. A Igreja sobrevive só por isto – Cristo garante a sua sobrevivência.”

Vale a pena conhecer este autor e a sua obra. As suas ideias não são fáceis de aceitar, mas as de Cristo também não eram. Será que a teoria da guerra justa é simplesmente descartável? Ou isso pertence ao reino das boas intenções? Os católicos que morreram, tentando matar Hitler, estavam enganados nos seus propósitos? São mártires, ou pobres enganados?

Uma busca no Google, em “Páginas Portuguesas” encontra apenas uma referência a Emmanuel Charles McCarthy. É no site PortugalGay, numa notícia sobre a decisão dos Bispos americanos de recusar a comunhão a homossexuais praticantes. O Padre melquita surge noutro contexto, a criticar o facto dos mesmos bispos não terem condenado abertamente a guerra no Iraque.

Resta dizer que este homem, pelo seu trabalho de vida, já foi nomeado para um Nobel da Paz. Seja qual for a nossa opinião sobre as suas ideias, parece injusto que em Portugal ele permaneça um desconhecido.

Filipe d’Avillez

© SNPC

 

 

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P. Emmanuel Charles McCarthy

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