
A alegria no ser Cristão
Quando me pediram, já há algum tempo, a minha colaboração para esta etapa do Congresso que estamos agora a viver não hesitei em nenhum momento, ainda que isso implicasse a mudança de algumas actividade com as quais, entretanto, já me tinha comprometido. A amizade e o carinho que me une à(s) pessoa(s) que me fez o pedido, bem como a importância que dou a este Congresso, não me podiam deixar margens para dúvidas.
As implicações deste meu gesto, contudo, logo se começaram a sentir. Porque eu? E porque eu a falar da alegria? Quanto à razão do tema rapidamente me veio à memória o Congresso de Lisboa, no qual tive a honra de participar. Lembro-me de na avaliação do mesmo ter dito como os diversos testemunhos me tinham interpelado pela profundidade e seriedade que deixaram transparecer, mas que no entanto tinha ficado com um certo amargo de boca, pois a grande maioria reflectia a experiência de Deus em momentos da vida onde a dor e o sofrimento se tinham feito sentir de uma maneira muito forte. Não tenho dúvidas que a presença de Deus foi causa fundamental para que esses nossos irmãos os pudessem integrar e continuassem a ter força para viver. Por eles e com eles também eu dou graças a Deus. Mas a questão que então coloquei, não tinha a ver com esta certeza, mas com uma certa tendência que as vezes nós cristãos temos de testemunhar a Presença de Deus só nos momentos de dor e sofrimento. E então nos outros? Quando estamos felizes e quando tudo está a correr bem? Dir-me-ão que nesses momentos a Presença de Deus é tão evidente que não se torna necessária testemunhá-la. Pois bem, foi a este nível que expressei as minhas dúvidas, alertando para aquilo que me parece ser de uma grande importância e que tem a ver com a necessidade e a urgência de testemunhar explicitamente que Deus é fonte de alegria e de felicidade. Sei que todos sabemos isto, sei mesmo que todos o experimentamos, mas a minha sensibilidade diz-me que nem sempre o dizemos explicitamente àqueles que se interrogam sobre a opção crente, em geral e a opção cristã, em particular. Agora, ao olhar para trás, sei que devia ter estado calado, pois o que então disse caiu-me neste momento em cima.
Quanto ao tema que me foi proposto para partilhar convosco rapidamente percebi então a sua razão de ser. Mas a outra dúvida permaneceu (e de certo modo ainda permanece) por muito mais tempo: Porquê eu? E por favor não pensem que isto é um mero exercício de modéstia que fica sempre bem manifestar. Não! De todo não é! A minha vida não tem nada de especial, talvez de estranho possa até ter para muita gente, sou teólogo, ou melhor, aprendiz de teólogo, e leigo casado e pai de filhos, mas em rigor não desempenho nenhum cargo único, não exerço nenhuma função insubstituível. Não sou nenhum cristão exemplar, no sentido que não sou mais santo e mais perfeito do que os outros (a esse nível Deus, eu e aqueles que me são mais próximos bem sabemos como ainda há muito caminho a percorrer). Também não sou mais pecador do que os outros, nem pior do que eles. Na verdade, sou uma pessoa normal, uma pessoa regular que vive uma vida normal, de uma maneira normal, sem que se destaquem grandes acontecimentos (nem positivos, nem negativos) que mereçam ser apresentados de uma maneira especial. Foi então, ao cair na conta desta banal realidade, que descobri a resposta à pergunta porquê eu? É que a experiência cristã é uma experiência que pode ser vivida por qualquer pessoa e não só por aqueles que são grandes pecadores e depois se arrependem, ou por aqueles que são grandes santos. Ela é uma possibilidade para todos, tem exigências certamente, mas não exige que sejamos uma pessoa fora do normal.
Pois bem, aquilo que quero partilhar convosco é o testemunho da experiência de Deus no quotidiano da vida, de uma vida normal, como a da imensa maioria de todos vós. Uma experiência normal, portanto, mas uma experiência de profunda alegria e felicidade.
Porque não posso negar aquilo que sou e o trabalho que desenvolvo, recorro à reflexão teológica para fundamentar aquilo que quero aqui dizer. A fé cristã proclama que em Jesus Cristo, humanidade e divindade estão indissoluvelmente unidas. Isto quer dizer que a divindade não é uma realidade que está «junto a», «por cima de» e muito menos à «custa de». A divindade de Jesus Cristo faz-se presente, revela-se e acontece na sua humanidade histórica (1). A humanidade concreta de Jesus Cristo não pode ser reduzida à condição de mero instrumento, ou meio da revelação do Mistério de Deus. Ela não é só o espaço nem só o tempo no qual o Mistério de Deus acontece. A sua vida do dia a dia é Mistério da Presença de Deus; o seu viver concreto é revelação desse mesmo Mistério.
A experiência cristã mostra-nos que o encontro com Deus não se faz simplesmente a partir da contemplação da natureza e das suas acções na história, ou da escuta e da relação com os profetas, os reis e os sacerdotes, mas essencialmente a partir da contemplação, da audição e da relação de amor com uma pessoa concreta: Jesus Cristo.
Deus não se dá a conhecer ao homem na sua essência, uma vez que esta transcende totalmente a finitude humana. Mas, ao querer dar-se a conhecer quer ser encontrado, revelando-se através de obras e palavras num existir humano que é assumido como próprio e que surge como uma realização profundamente divina na sua autenticidade humana. É através da acção concreta na história, da palavra concreta no tempo, da corporeidade real no espaço, no viver e morrer como homem que Deus se dá a conhecer como Deus (2).
Insisto nesta ideia, é através do viver concreto de Jesus que temos acesso à palavra e à vontade do Pai, de tal modo que a revelação de Deus ao ser humano jamais pode ser separada da sua pessoa. Assim, aceitar a revelação e responder-lhe não pode ser outra coisa do que realizar o encontro com Cristo estabelecendo com ele um diálogo de vida. O escândalo do Cristianismo consiste precisamente nisto:
"Que para chegar ao eterno seja necessário voltar os olhos para a temporalidade; que para ir para Deus se tenha que passar pelos homens; que para penetrar no mais interior do próprio mistério seja necessário partilhar a intimidade com um próximo humano; que para nos conhecermos a nós mesmos tenhamos que passar pelo irmão e deixar-nos trespassar por ele" (3) .
De facto, o cristianismo tem uma pretensão única que é constitutiva da sua identidade e da sua verdade: A pretensão e a convicção de ter encontrado a Deus na palavra, nas acções e sobretudo na morte e ressurreição de um homem, irmão da nossa raça e sujeito às mesmas determinações espácio-temporais a que nós estamos sujeitos. (4)
Esta verdade, muitas vezes mitigada e, porventura, esquecida, devia levar-nos a redescobrir o valor teológico da experiência humana (5). Convém esclarecer que o termo ‘experiência humana’ é aqui tomado como sinónimo de vida humana, entendendo por tal o exercício concreto e a realização efectiva de todos os elementos que compõem a nossa história, trata-se, pois, da condição humana realizada numa história concreta. Na realidade, a experiência de vida de cada um de nós é mediação indispensável para podermos concretizar a nossa opção crente.
Infelizmente, tem sido frequente entre os cristãos uma ideia do encontro do ser humano com Deus, segundo a qual este terá acontecido de uma vez para sempre em Cristo, pelo que só poderá continuar a acontecer na medida em que sejamos capazes de repetir cultualmente determinado tipo de gestos religiosos, em relação mais ou menos com a vida, mas muitas vezes verdadeiramente à margem dela.
Ser cristão não se pode reduzir jamais a uma simples imitação de gestos, é preciso muito mais, é preciso perceber a raiz da experiência de vida de Jesus Cristo, o seu princípio existencial, para o poder assumir. Só assim poderemos perceber que, para o cristianismo, o encontro com Deus não pode acontecer à margem da vida, mas, pelo contrário, só pode ter lugar no meio dela. Deste modo, a vida humana faz-se reveladora de Deus, facilitadora do encontro e possibilitadora da divinização do ser humano.
Não podemos ser cristãos na nossa sociedade e na nossa cultura, partindo de pressupostos e conceitos que não sejam os nossos, construindo uma história que não seja a nossa, vivendo uma vida que passe ao lado da nossa própria vida.
De facto, a história demonstra que quando a teologia trabalhou com um logos anacrónico em relação com a experiência histórica se esgotou como tal teologia, convertendo-se numa linguagem ininteligível e insignificante, arrastando, na sua própria decadência, a fé e dando lugar a grandes crises religiosas.
A experiência de Deus tem, pois, de acontecer no meio da vida, e não esta só reservada a uns quantos privilegiados e reduzida a uns quantos momentos extraordinários (se bem que tenhamos a consciência de que existem pessoas e momentos extraordinários). Esta experiência de Deus no meio da vida, expressão que tomo de Juan Martín Velasco (6) e que pode ser também chamada mística da quotidianidade, é aquela que permite ao ser humano nas experiências do seu viver descobrir a presença gratificante de Deus, sustentando e dando consistência ao seu ser.
Chegados aqui, e já quase no fim desta minha intervenção, posso agora fazer referência explícita à importância do testemunho da alegria e da felicidade. No meu entender a nota da alegria e da felicidade deve ser uma das notas presentes em toda a experiência cristã. O mundo em que hoje vivemos o exige de uma maneira especial.
Se o cristianismo propõe uma boa notícia, então essa boa notícia tem de ser verdadeiramente testemunhada com a alegria. Com isto não estou a afirmar que o específico do cristianismo é a alegria. Não! Todos sabemos que o específico do cristianismo reside em Jesus Cristo, mas esse específico urge ser testemunhado na alegria.
Permitam-me uma nota pessoal - no fundo o testemunho implica sempre uma nota pessoal -. Uma das pessoas mais importantes na minha vida, no que à experiência da fé diz respeito, é a minha mãe. Guardo na minha memória os seus olhos a brilhar sempre que me falava de Deus, eles eram o sinal inequívoco de que não estava a fazer de conta, mas pelo contrário me contava aquilo que lhe ia na alma. Esses olhos não deixavam esconder a alegria e a felicidade que esse mesmo Deus, de que me falava, lhe provocava. Hoje a minha mãe continua a falar-me de Deus. Ela não é teóloga, mas os seus olhos continuam a brilhar e a testemunhar a alegria e a felicidade que esse Deus continua a provocar-lhe. E este aprendiz de teólogo, que aqui hoje vos fala, continua a encontrar nesse seu testemunho uma das mais belas palavras para dizer o mistério de Deus.
Repito, a alegria não constitui o específico da experiência cristã, mas a sua presença sublinha e traduz essa experiência numa linguagem que pode mais facilmente ser entendida por todos.
Como é óbvio esta alegria e felicidade não terminam com a dor e o sofrimento, não os evita, nem sequer os disfarça. Também como é óbvio esta alegria e esta felicidade não têm a ver com o não levar a sério a dor e o sofrimento de tantos e tantos irmãos. A alegria e a felicidade a que me refiro não se reduzem a um mero sentimento, elas vão muito mais longe, tendo a ver com o sentido global da vida.
Posso estar triste, posso estar a sofrer, mas sou capaz de afirmar que sou feliz. Não porque esteja triste ou a sofrer, mas porque apesar da tristeza e do sofrimento, sei que Deus me continua a amar, a sustentar, a convidar a viver, no fundo, sei que Deus me continua a salvar. Esta certeza, que marca profundamente o meu viver, é, pois, para mim, o sinal de que Deus continua a dar sentido a minha vida quaisquer que sejam as suas circunstâncias, e de que vale a pena continuar a viver.
A alegria e a felicidade, como sinal de uma vida com sentido, é um dos testemunhos que o mundo de hoje está a exigir dos cristãos, não porque esteja na moda, nem por facilitismos (sabemos todos como às vezes é difícil), mas porque é uma linguagem capaz de dizer a profundidade da experiência cristã.
Referi-vos como a minha mãe me falou de Deus com um brilho nos olhos. Perceberam como isso me cativou. Hoje quero falar de Deus aos meus filhos com esse mesmo brilho, para que eles verdadeiramente possam perceber como Deus é importante para mim. E tudo farei para que eles também vivam com esse brilho nos olhos, de tal maneira que quando aqueles que os rodearem lhes perguntarem o porquê desse brilho, a resposta surja clara e inequívoca.
No fim de contas foi assim que tudo começou. Todos temos presente aquela passagem da Escritura em que dois discípulos, após o diálogo com um caminhante, diziam um para o outro como lhes ardia o coração (cf Lc 24, 13-33). O texto não fala nos olhos, mas facilmente somos capazes de perceber que o brilho dos olhos daquele que lhes falava tocou o seu coração. E também somos capazes de imaginar como, ao regressar a Jerusalém, o brilho, que agora também já estava nos seus olhos, interpelou todos aqueles que os ouviram.
E de tal maneira os interpelou que hoje estamos aqui. E por isso, somos felizes.
Juan Ambrosio
Professor da Faculdade de Teologia da Universidade Católica
Intervenção na Sessão de Budapeste do Congresso Internacional para a Nova Evangelização, 20.09.2007
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(1) Cf Jesus Espeja, Creer en este mundo, BAC, Madrid 2000, 29.
(2) Seja-me permitido a este propósito fazer referência ao meu trabalho Encontro com Cristo, plenitude do ser humano. Esboço de uma soterielogia à luz do pensamento de Olegário Gonçalez de Cardedal, Paulinas, Lisboa 2002, no qual desenvolvo e fundamento esta reflexão a partir da categoria do encontro.
(3) CARDEDAL, O., Actualización de la revelación, in Iglesia Viva 4(1979) 333.
(4) CARDEDAL, O., Jesus de Nazaret. Aproximación a la cristología, BAC, Madrid 1993(3), 38.
(5) Faço aqui referência à excelente reflexão feita por Juan MARTÍN VELASCO, La religión en nuestro mundo. Ensayos de fenomenología = Verdade e Imagen 53, Sígueme, Salamanca 1978, 247-263.
(6) Veja-se a este propósito Las variedades de la experiência religiosa, in A. Dou (ed.) Experiência religiosa, Universidad Pontificia de Comillas, Madrid 1989, 19-81.
Publicado em 03.10.2007
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