
“A arte e o sagrado têm um destino comum. O sagrado sem a arte não logra atingir a massa dos homens. A arte sem o sagrado é absorvida pela técnica”.
Estas convicções de Jean Daniélou (em L’oraison, problème politique, Fayard, Paris, 1965), são hoje sumamente evidentes, para que não deixemos de insistir num tema tão mal avaliado ou mesmo ignorado na pastoral litúrgica.
Na sua Carta aos artistas, em 1999, o Papa João Paulo II relançava o tema afirmando que a Igreja precisa da arte e dos artistas e que a arte e os artistas precisam da Igreja.
“Para transmitir a mensagem que Cristo lhe confiou, a Igreja tem necessidade da arte. De facto, deve tornar perceptível, e até o mais fascinante possível, o mundo do espírito, do invisível, de Deus. Por isso, tem de transpor, para fórmulas significativas, aquilo que, em si mesmo, é inefável. Ora, a arte possui uma capacidade muito própria de captar os diversos aspectos da mensagem, traduzindo-os em cores, formas, sons que estimulam a intuição de quem os vê e ouve. E isto, sem privar a própria mensagem do seu valor transcendente e do seu halo de mistério… Portanto, a Igreja tem necessidade da arte. Pode-se dizer também que a arte precisa da Igreja? A pergunta pode parecer provocatória. Mas, se for compreendida no seu recto sentido, obedece a uma motivação legítima e profunda. Na realidade, o artista vive sempre à procura do sentido mais íntimo das coisas; toda a sua preocupação é conseguir exprimir o mundo do inefável. Como não ver então a grande fonte de inspiração que pode ser, para ele, esta espécie de pátria da alma que é a religião? …”
Na prática, constata-se que, por diversos motivos, a Igreja se divorciou da arte e vice-versa. E isso não foi bom para a Igreja, nem para a sua Liturgia, nem para a Pastoral e para a Evangelização. Bem pelo contrário, as seitas tomaram conta da crise e desenvolveram as técnicas sem futuro… Alguns, não atingindo a essência da Liturgia, na busca do imediato, do espectáculo, imitaram as seitas, à espera de frutos serôdios que tão só secarão a árvore. O resultado foram celebrações sem alma, de circunstância e a prazo… Esta imagem (falsa) da Liturgia do Vaticano II não é muito convincente, nem será duradoura. Porventura, os melhores procurarão outras formas…
Quando, questionado por Seewald (Voici quel est notre Dieu, Plon, Paris, 2001), o cardeal Ratzinger (actual Papa) falando da necessidade de uma reforma da Reforma, exprimia:
“Exactamente como o movimento litúrgico, que resultou na reforma do Vaticano II, se desenvolveu lentamente antes de se tornar em seguida numa torrente impetuosa, assim importa que actualmente venha um impulso dos fiéis que celebram. E também que haja lugares exemplares, onde a liturgia é celebrada segundo as regras da arte e onde seja possível experimentar o que ela é realmente. Se então, do próprio interior de uma tal celebração nascer um movimento que não seja simplesmente uma coisa imposta de cima, então a renovação se fará. Creio que na nova geração um movimento que vai nessa direcção está efectivamente nascendo”.
Por aqui, ainda não acordamos para tal e há responsabilidades a pedir a muita gente. Basta folhear os nossos catecismos, inventariar as celebrações televisivas, as liturgias catedralícias, as celebrações de encontros nacionais, as liturgias dos conventos, etc. A imagem é demasiado pobre… é vazia! Não podemos continuar a defender o Concílio e a sua excelente Reforma litúrgica, continuando a permitir que a situação continue instalada, enquistada. Não, não foi isto a Reforma que o Concílio preconizou!
E terminamos com a Carta aos artistas:
“Com esta Carta dirijo-me a vós, artistas do mundo inteiro, para vos confirmar a minha estima e contribuir para o restabelecimento duma cooperação mais profícua entre a arte e a Igreja. Convido-vos a descobrir a profundeza da dimensão espiritual e religiosa que sempre caracterizou a arte nas suas formas expressivas mais nobres… A cada um queria recordar que a aliança que sempre vigorou entre Evangelho e arte, independentemente das exigências funcionais, implica o convite a penetrar, pela intuição criativa, no mistério de Deus encarnado e contemporaneamente no mistério do homem”.
S.D.L.
Publicado em 01.10.2007
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