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Entre as brumas da memória - Os católicos portugueses e a ditadura

O que não parece é

Tem o leitor diante de si um livro que, para ser de História, começa por ser de histórias. E o ser de histórias não significa qualquer degradação categorial uma vez que – essa é, pelo menos, a minha firme convicção – toda a História de que dispomos foi e é feita de histórias, concatenadas estas e iluminadas por um sopro unificador. (Com efeito, que sabemos nós do Antigo Egipto, por exemplo, que não seja um xadrez racionalizado de histórias documentadas?)

Problema diferente – e eventualmente mais difícil de esclarecer – é o de saber o que distingue as histórias que tecem História daquelas que não atingem tal plano. Ninguém pretenderá por certo chamar História ao conjunto de acontecimentos relacionados com uma qualquer obscura entidade cuja existência não teve incidências nem repercussões no evoluir da vida colectiva. «Ninguém pretenderá», afirmei eu, mas hesito em repeti-lo: é que para essa mesma entidade, instituição ou pessoa, as peripécias da sua existência individual merecem, sim, ser elevadas à dignidade da História. E assim deparamos com o ponto nada despiciendo da intromissão da subjectividade na avaliação dos factos que fazem ou não fazem História.

Joana Lopes viveu de perto, e muitas vezes de um modo particularmente determinante, os factos aqui relatados, factos esses que, no seu conjunto, constituem uma considerável parte do percurso de alguns católicos portugueses que, não só mas sobretudo nos anos 60, tomaram consciência das implicações, das exigências, das necessárias repercussões da fé que professavam na sua vida social e política, marcada então por um irrespirável e revoltante ambiente de ditadura. Ao longo desse percurso descobriram, no essencial, que ser católico não implicava apenas endossar um ideal confinado nas paredes dos templos, não se resumia ao cumprimento das virtudes teologais e dos preceitos eclesiais – antes apontava imperativamente para uma intervenção no plano da vida da colectividade, para uma luta sem tréguas por valores de verdade, de liberdade, de justiça, valores (atenção!) que não eram sua propriedade enquanto cristãos, mas que, por serem cristãos, mais lhes cumpria promover. Descobriram, assim, do mesmo passo, uma realidade importantíssima e que, com o correr dos tempos e o evoluir dos acontecimentos, nem sempre foi entendida por todos da mesma maneira: que o Cristianismo não é uma doutrina política que ipso facto determine opções semelhantes para todos os cristãos, mas, a esse nível, apenas um gerador de inquietações e um fomentador de necessidades morais comuns aos outros homens.

E tudo isto foram descobrindo esses católicos ao mesmo tempo que tinham de lutar, sabe-se lá pelo preço de que íntimos ou públicos sofrimentos, dentro e contra a sua própria Igreja hierárquica, que de um modo esmagadoramente maioritário, se identificava na prática – na acção e na omissão – com os antivalores vigentes da mentira, da opressão e da injustiça.

De todos esses episódios de pequenas e grandes batalhas (de batalhas que às vezes, à distância do tempo, quase parecem irrisoriamente mesquinhas) poderá fazer-se, para além da sua enumeração e descrição, uma história, uma história que mereça a dignidade de maiúscula? Não tenho dúvidas de que sim, e este livro de Joana Lopes é um decisivo e insubstituível contributo para ela. E, pese embora o carácter muitas vezes fugaz, muitas vezes circunscrito, muitas vezes paroquial (não resisto à facilidade do jogo de palavras) de tantos dos episódios narrados, acredito firmemente que a acção dos chamados «católicos progressistas» deixou na sociedade portuguesa – católicos e não católicos – marcas suficientemente relevantes para os fazer merecer um capítulo na história da resistência ao Estado Novo e, porque não, na história das mentalidades no nosso país.

De muitos pontos de vista e em diversos passos este livro o confirma. Porque é mais que justo sublinhar que ele vai mais fundo e mais além da simples narração de factos. Quando, por exemplo, com singular clarividência mas também com indisfarçável amargura, expõe e analisa aquilo que para a maioria destes protagonistas constituiu o fim inglório de tantas lutas, não pode o leitor, por mais distante que esteja, no tempo e na ideologia, desses vencidos heróis, deixar de vislumbrar, pelo menos, uma qualquer obscura utilidade dessa pobre epopeia. Não pode deixar de suspeitar de que o aparente fim das histórias que leu não foi afinal o verdadeiro fim.

E será desse modo levado a aceitar que há certas vitórias – débeis, provisórias, duvidosas – construídas sobre graves, definitivas, indiscutíveis derrotas.

Pedro Tamen
(Introdução da obra)

 

Sinopse

Este livro retrata o papel que as elites católicas tiveram na luta contra o regime político vigente em Portugal, durante a década de 60.

Na origem dessa luta estiveram, por um lado, a abertura criada pelo Concílio Vaticano II e o conservantismo da Igreja portuguesa; por outro, a ausência de liberdades elementares e a manutenção da guerra colonial. 

A oposição dos católicos foi­‑se concretizando em múltiplas plataformas, mas manteve sempre uma certa informalidade organizativa. Daí derivaram fraquezas e forças e, definitivamente, características específicas de uma movimentação que envolveu, directa ou indirectamente, milhares de pessoas.

A quatro décadas de distância, é importante que fiquem escritas as histórias que teceram o quotidiano de gerações que, naturalmente, estão hoje a sair de cena. Aqui ficam algumas dessas histórias... «entre as brumas da memória».

 

Índice

Prefácio de Pedro Tamen

Prolegómenos

I -  O «Direito à Informação»
1. Os conteúdos
2. A produção e a distribuição

II - Portugal e as viagens de Paulo VI
1. Da invasão de Goa ao Congresso eucarístico de Bombaim
2. Os anos que se seguiram
3. Fátima, 1967

III - A cooperativa Pragma – Uma boa ideia e uma bela história
1. Os três primeiros anos
2. O encerramento da sede e as reacções
3. O estado dos espíritos em 1967
4. Temos difíceis

IV - A revista «Concilium»

V - «Batalhões de Cristo-Rei
1. Uma escola de vida
2. Outubro de 1966 – Nova Junta Central da Acção Católica
3. Um Congresso muito polémico
4. Mais conflitos e alguns abandonos

VI - 1968 – Um ano alucinante
1. Utopias e desenganos
2. Duas graves crises na Igreja de Lisboa
3. C43

VII - Cadernos GEDOC e «Cadernos Socialistas» nº 3
1. Cadernos GEDOC
2. «Cadernos Socialistas» nº 3

VIII - «Lusitânia, Quo Vadis?»
1. Centro Nacional de Cultura: 1968-1969
2. Eleições legislativas – as cisões
3. Outros acontecimentos, últimas histórias

IX - E depois?

Anexos
1 – Carta do «Direito à Informação» aos Cursos de Cristandade
2 – Cartas às autoridades sobre a viagem de Paulo VI a Bombaim
3 – «Igreja Presente»
4 – Reunião de católicos com o núncio apostólico
5 – Encerramento da Pragma
6 – Carta ao presidente da República sobre encerramento da Pragma
7 – Carta aos bispos portugueses sobre encerramento da Pragma
8 – Carta do cardeal Cerejeira ao secretário-geral da Junta Central da Acção Católica sobre encerramento da Pragma
9 – 3.º Colóquio da revista «Concilium»
10 – Hino da Acção Católica Portuguesa
11 – Carta de católicos dirigida ao cardeal Cerejeira a propósito da encíclica Humanae Vitae sobre regulação da natalidade
12 – Demissão da Direcção do Seminário dos Olivais: carta aos seminaristas
13 – Carte de 106 padres ao núncio apostólico sobre substituição de cardeal Cerejeira
14 – Cadernos GEDOC – Apresentação e lista dos primeiros membros
15 – Carta de Abílio Tavares Cardoso ao cardeal Cerejeira sobre GEDOC
16 - «Acção Eclesial e Acção Política»
17 – Relatório da PIDE sobre Centro Nacional de Cultura
18 – Moções aprovadas por «Tribuna Livre»

 

 

Entre as brumas da memória – Os católicos portugueses e a ditadura

Autora: Joana Lopes

Editora: Ambar

N.º de páginas: 248

Ano: 2007

ISBN: 978-972-43-1203-3

 

Publicado em 02.10.2007

 

 

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Pedro Tamen
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