
Miss México “Cristera”
Quem pensa México, pensa Católico. A população do país é esmagadoramente católica, e os imigrantes mexicanos são uma parte grande e muito importante da comunidade católica nos vizinhos EUA. A imagem de Nossa Senhora de Guadalupe ocupa um lugar central na iconografia cultural nacional e será talvez uma das imagens “mexicanas” mais globalizadas, um pouco como Nossa Senhora de Fátima em relação a Portugal.
Poderá surpreender muita gente, portanto, o facto do estado mexicano ter uma história de relação muito complexa com a Igreja. Uma história manchada não de alguns incidentes lamentáveis, mas de perseguições violentíssimas, dezenas de milhares de mortos e uma autêntica guerra civil.
Muito antes dos modernos movimentos de extrema-esquerda que se opõem pela força das armas, ao governo central, surgiu no México um movimento que aos nossos olhos parecerá simultaneamente admirável e condenável, mas sobretudo bizarro. Admirável pela intenções e a devoção de quem por ele lutava, condenável pelos inevitáveis excessos que surgem quando pegamos em armas para avançar as nossas causas.
Os Cristeros, (cujo grito de guerra era “Viva Cristo Rey”, palavras de ordem que teriam eco, poucos anos mais tarde, em Espanha) iniciaram a sua revolta a 1 de Janeiro de 1927, numa altura em que o estado de perseguição anti-clerical por parte do governo se tornava já praticamente insuportável. A lista de mártires não deixa grande espaço para dúvidas.
Após os primeiros anos de combates desiguais em que os Cristeros eram sempre derrotados pelas tropas federais, conseguindo apenas algumas vitórias com tácticas de guerrilha, as sortes começaram a mudar. Com líderes sem qualquer preparação militar, mas cheios de zelo, e contando com cinco padres nas suas fileiras, os Cristeros começaram a somar vitórias contra o estado.
Paradoxalmente, seria um dos padres a causar o maior revés para o exército cristão. Num ataque a um comboio, que supostamente carregava uma grande soma de dinheiro, o irmão do Pe. Vega foi morto no tiroteio. Este, que por natureza já era um homem instável e dado a excessos, mandou incendiar as carruagens num acto de loucura que causou a morte a 51 civis e virou a opinião pública contra os revoltosos.
A rebelião terminou de forma diplomática pouco tempo depois, com o governo a chegar a acordo com a hierarquia católica, que, todavia, se tinha mantido cautelosamente distante do levantamento armado. Sentindo-se traídos pelo facto de nem sequer terem sido consultados, o grosso do exército Cristero rejeitou essa paz e jurou prosseguir a luta. O que se seguiu não deixa de ser importante como medida da real devoção dos revoltosos. A Guerra Cristera será provavelmente a única em toda a história que terminou com a ameaça de excomunhão por parte dos bispos aos seus fiéis em armas.
Mas porquê relembrar este evento hoje? Por uma razão mais estranha ainda. Rosa María Ojeda, Miss México 2006 e, consequentemente, a representante do país no Miss Universo 2007, causou um grande burburinho no seu país Natal quando anunciou que o vestido que levava para o certame mostraria imagens da guerra Cristera, incluindo as vítimas católicas da ira anti-clerical estatal.
Desde um homem prestes a ser executado, a revoltosos enforcados em candeeiros públicos, passando por um terço pendurado de um cinturão de balas, o vestido contaria ainda com o adorno de diversos terços e escapulários e a inevitável Virgem de Guadalupe.
A reacção foi imediata e fez lembrar a própria guerra. A ideia foi atacada pela esquerda por “glorificar assassinos que queimavam pessoas dentro de comboios”, incluindo um cronista que disse que a ideia era igual a uma americana usar um vestido com imagens do KKK a queimar cruzes. A hierarquia Católica, por sua vez, afastou-se da iniciativa, dizendo que não via porque razão se havia de abrir velhas feridas que tanta dor e divisão causaram no passado.
O resultado é que, apesar de algum apoio popular, a ideia acabou por ser abandonada, não sendo claro ainda se o tema se vai manter, mas de forma mais “soft”, ou se simplesmente vão optar por outra coisa totalmente diferente.
Seja como for, é uma oportunidade para lembrar uma página estranha, mas fascinante da história da Igreja na América do Sul, e também para ver como a religião, quando toca em assuntos de natureza política e até militar, se pode tornar um assunto tão explosivo.
Filipe d'Avillez
© SNPC
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