
Entrevista com o compositor do grupo «In Nomine»
Aos terceiros domingos de cada mês, a Missa das 18h30 na Basílica dos Mártires, em Lisboa, é rezada pelo fado.
«In Nomine» é o grupo que há 12 anos soleniza pelo canto estas celebrações. Dele fazem parte Filipa Galvão Teles, Manuela Teles da Gama, António Moreira da Silva (voz), Bernardo Albuquerque Couto (guitarra portuguesa) e José Almiro Nunes (viola baixo).
Estivemos à conversa com José Campos e Sousa, que além da voz e da viola, é também compositor dos cânticos.
Há quanto tempo começou este projecto?
Fizemos a nossa primeira Missa na Igreja do Sacramento em 20 de Maio de 1995. Já tínhamos cantado noutras celebrações, mas aquela é que oficialmente marca o início desta caminhada, que é muito grande.
Há 12 anos que tocamos nesta Missa, sem grandes apoios da instituição – nada contra mas com muito pouco a favor. Mas lá vamos andando, graças ao apoio do Senhor Cónego [Armando Duarte] e, antes dele, do Senhor Padre Manuel Gonçalves Pedro. Foram as duas grandes figuras que nos apoiaram, senão não teria sido possível continuarmos.
Como é que surgiu a ideia de solenizar as celebrações através do fado?
Houve uma altura em que na Missa se cantavam coisas de autores estrangeiros – Joan Baez, Bob Dylan, Donovan – que às vezes, nas músicas originais, não tinham nada a ver com a religião católica, e até faziam apologia de coisas que não tinham a ver com a maneira de ser católico. Mas a música era bonita, ficava no ouvido, e depois as pessoas adaptavam uma letra. Isso sempre me irritou um bocado. Então pensei: «Eu sou compositor; porque é que eu estou a criticar e não faço qualquer coisa?». Eu já tinha uma Ave Maria musicada e um Credo. Então a Manuela Teles da Gama perguntou-me: «Porque é que não continuas a compor uma Missa em fado?». E foi assim, fruto de uma conversa e da conclusão a que cheguei que era preciso fazer qualquer coisa. Em 1994 compus a Missa toda e em 1995 foi o “julgamento”.
Uma vez por mês: é muito, é suficiente, devia ser mais?
O que nós gostávamos era de cantar em todo o lado. Já não é nada mau estarmos a cantar na Igreja do Sacramento, e agora aqui, por empréstimo, na Basílica dos Mártires, enquanto a Igreja do Sacramento não está em condições de ter gente lá dentro. É pouco mas sabe bem; mas seria melhor se fossem mais vezes e em vários sítios.
Que espiritualidade é que o fado pode conceder à liturgia e à oração?
A oração não precisa de espiritualidade nenhuma. Mas embora não precisando, é sempre mais uma florzinha. O facto de estar a cantar uma oração é fantástico. Eu não sabia o Credo até à altura em que o musiquei. Não era capaz de decorar o Credo. Só sabia que era uma oração que demorava 4 minutos e achava que era uma eternidade. Perdia-me no meio – só mesmo lendo.
Eu apanhei o verdadeiro sentido da oração através daquilo que fiz, que foi musicá-las. Todas elas passaram a significar para mim uma coisa completamente diferente. Eu não conseguia chegar ao seu sentido a não ser pela música.
Acho que pela música, nestes 12 anos de canto, nós já trouxemos algumas pessoas a perceber e a cantarolar as orações, que normalmente não se dizem na rua. Se calhar alguém vai entoar “Pai Todo-Poderoso…”; não ofende ninguém e fica na cabeça.
A Igreja e a liturgia vivem há milhares de anos e não precisam do fado. A música sempre fez parte da Igreja. Nós estamos em Portugal e o fado é uma contribuição, e não mais do que isso; não vai resolver problema nenhum. A Igreja não precisa disto para nada, a Igreja vive de si própria. Nós somos unicamente uma ajuda que damos de boa vontade e de boa fé, e nada mais do que isso.
Veja também:
- Entrevista ao Cón. Armando Duarte, pároco da Basílica dos Mártires.
- Imagens da celebração e som do cântico de entrada.
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