
Não tenhais medo
Primeiro foram as palavras “Não tenhais medo”, afixadas em lugares de grande circulação; a seguir, a dúvida – medo de quê, de quem? Por fim, a revelação.
Robert Hossein, criador de sucesso do teatro francês, apresenta a partir de 21 de Setembro, em Paris, “João Paulo II”, um espectáculo para crentes e não-crentes dedicado à vida do papa polaco.
Para esta encenação Hossein volta ao Palácio dos Desportos, lugar onde entrou no Livro «Guiness» dos recordes com “Um homem chamado Jesus”, que em 1983-84 cativou 700 mil espectadores. No percurso artístico de Hossein, Cristo é incontornável: em 1991 apresentou “Jesus era o seu nome”; no ano 2000 foi a vez de “Jesus a Ressurreição”.
Filho de um iraniano zoroastriano e de uma russa ortodoxa, o seu verdadeiro nome é Hosseinof. A história breve da sua conversão: num acidente de viação morre um amigo próximo, queimado vivo. Segundo acto: o nascimento do seu filho Julien; a mãe, a actriz Candice Patou, católica, decide baptizar a criança. É então que Hossein pede o primeiro dos sacramentos. No entanto, dizem os mais chegados, não passou a ser pessoa de ir à Missa, além de não estar próximo da Igreja. Mas Deus não lhe é estranho, e nem era preciso dizer isto.
“Ben-Hur encantou a minha infância, João Paulo II perseguiu a minha idade adulta», escreveu o artista, que fará 80 anos a 30 de Dezembro. O espectáculo terá como subtítulo “Não tenhais medo!”, frase lançada pelo papa no início do seu pontificado.
Robert Hossein recorda o encontro com Karol Wojtyla, por intermédio do Cardeal Jean-Marie Lustiger, que se entusiasmou com “Um homem chamado Jesus”: “Tive a impressão de se tratar de uma pessoa cheia de bondade, mas também de nostalgia, coberto de pequenas feridas”. Noutra entrevista dirá que o Papa é “um homem ferido, profundo, doloroso, um homem de fé e de oração, um homem que compreende a dúvida”. E sorri quando se lembra das palavras que o Santo Padre lhe dirigiu: “Também eu fui actor”.
Emocionado, o encenador refere as Jornadas Mundiais da Juventude de 1997, que se realizaram em Paris, durante as quais leu as Epístolas de S. Paulo para centenas de milhares de jovens e para o próprio Sumo Pontífice.
Foi com a morte do Papa, em Abril de 2005, que o encenador decidiu fazer de João Paulo II o sujeito do seu próximo trabalho. Bernard Lecomte – jornalista que acompanhou diversas viagens do anterior Sumo Pontífice e que escreveu a sua biografia – previne-o de que os franceses têm uma relação ambígua com aquela personagem, tendendo frequentemente a reduzir a sua pessoa à questão do preservativo; para ter sucesso seria melhor evocar Charles de Gaulle ou Maria Antonieta. Robert Hossein insistiu no projecto e conseguiu juntar os 8 milhões de euros necessários, metade de um industrial, a outra parte de uma sociedade «ad-hoc» – a “Sociedade da Partilha”.
“Decidi prestar-lhe homenagem contando a sua vida como nunca foi feito em cena”, explicou Hossein. “Guerra, nazismo, anti-semitismo, comunismo, ele viveu tudo isso.”
Escrito por Alain Decaux, o espectáculo contou com a colaboração de Bernard Lecomte e de D. Jean-Michel di Falco, Bispo de Gap, que acumula diversas funções relacionadas com a comunicação social – é, por exemplo, consultor do Conselho Pontifício para as Comunicações Sociais.
Diz Lecomte que os 33 quadros que compõem a encenação são exactos, embora tenham sido permitidas algumas liberdades, como o encontro de João Paulo II com Gorbatchev junto ao Muro de Berlim. Outras personagens que marcaram o mundo do Papa, como Lech Walesa, Jaruzelski, Madre Teresa de Calcutá, o Dalai Lama, Fidel Castro, também estarão presentes. “Até encenei o conclave que elegeu João Paulo II, que ninguém viu”, entusiasma-se Hossein.
O espectáculo terá a duração de 2 horas. Estarão em palco cerca de 80 de actores.
A narrativa inicia-se com a tentativa de assassinato de João Paulo II, a 13 de Maio de 1981. Na cama do hospital, Karol Wojtyla revê toda a sua vida – a juventude como actor de teatro, o sacerdócio, o episcopado em Cracóvia – e antecipa os grandes momentos do seu pontificado até à hora da morte.
Visualmente, não se renunciou às reconstituições mais monumentais, apresentando-se o já referido Muro de Berlim, assim como o Muro das Lamentações, em Jerusalém.
O crítico do jornal “Le Fígaro” diz que as luzes, os movimentos, os planos, tudo é perfeito, à semelhança do que é habito noutras produções do criador. No entanto, para Hossein as imagens não são o aspecto principal: “O que me interessa é a dimensão espiritual, humanista”. E prossegue: “O meu espectáculo é violento, desesperado”.
As questões da contracepção e da SIDA não serão esquecidas: no palco, a encenação terá a forma de uma discussão imaginada entre João Paulo II e o Abbé Pierre.
“Escolhi não esconder as suas dúvidas os seus erros, e também mostrar as suas cicatrizes. E interessa-me mais o homem do que o papa.” Hossein sabe que o argumento poderá não ser bem recebido pelos crentes; e não ignora que muitos responsáveis eclesiais se mostraram apreensivos quanto à inclusão da cena em que se aborda a questão do preservativo. E diz somente: “Não me permiti nenhuma facilidade”.
O Cardeal Roger Etchegaray prometeu estar na estreia. Prevê-se convidar para uma das representações – que terminam a 4 de Novembro – cerca de 3 mil padres.
Hossein diz ignorar se a encenação – que já suscitou contactos para eventuais adaptações em Portugal, Espanha, Itália, Polónia e América do Sul – será um fracasso ou um sucesso. No entanto, de uma coisa ele está plenamente convicto: “É o espectáculo mais difícil que alguma vez montei”.
Cyberpresse, La Croix, Le Figaro
Publicado em 21.09.2007
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