
O Judeu de Cabul
Todas as mulheres judias do mundo não chegam para inaugurar uma sinagoga. Para o fazer é necessário que haja 9 homens.
Caso Zebulon Simentov quisesse abrir uma nova casa de oração, o melhor que teria a fazer seria viajar de Cabul para Bagdade. Lá, com algum cuidado e discrição, poderia tentar encontrar os oito judeus que ainda restam nessa cidade. Partindo do princípio que os oito são homens, teriam quorum... caso contrário restam poucas soluções.
Não é que Simentov queira abrir uma nova sinagoga. Desde 2005 que ele é o responsável pela sinagoga de Cabul. É um trabalho bastante solitário, uma vez que não existem mais judeus no Afeganistão. Havia um, Ishaq Levin, com quem Simentov vivia até à morte daquele há dois anos. Ao contrário do que se possa pensar, a sua morte não deixou Simentov muito consternado. As lutas entre os dois, por posse da Sinagoga e de uma exemplar antigo e valiosíssimo da Tora, tornaram-se lendárias em Cabul, ao ponto dos Taliban terem confiscado o livro. Desde então a relação que já era má azedou, os dois ter-se-ão denunciado mutuamente aos Taliban, na esperança de que o outro fosse preso.
Agora Simentov vive sozinho. “Agora o único Judeu aqui sou eu. Agora eu é que mando!”. Não manda em ninguém, é certo. Mas manda.
Já em Bagdade, não se sabe bem quem é que manda. Os tais oito judeus que restam da histórica comunidade judaica da Babilónia estão escondidos e querem fugir para uma comunidade de judeus iraquianos radicada na Holanda. Ao que parece, esta recusa-se a aceitá-los. Não se sabe muito bem porquê.
Em 1948 havia no Iraque cerca de 150,000 Judeus. Antes do começo desta última guerra, o número rondava os 35. O mais novo tinha 41 anos. Com a situação a agravar-se de dia para dia, não parece haver esperança. Os Judeus vão desaparecer do Iraque, como já quase desapareceram de Cabul. Deixam a porta aberta para a saída de outras minorias religiosas importantes. Entre eles os Yezidis, os Mandeus e os Cristãos.
A invasão do Iraque, que a Igreja condenou e que Portugal, contra a corrente, apoiou e apoia ainda, está a contribuir para um Médio Oriente 100% islâmico.
Quando já não houver Cristãos e Judeus no Iraque havemos de nos lamentar, verter umas lágrimas, exigir que a sinagoga do Simentov seja transformada em museu, escrever uns livros sobre o assunto e prosseguir com as nossas vidas. Os intelectuais e os líderes da União Europeia dirão que se trata de uma situação inaceitável e voltarão a sua atenção de novo para problemas mais urgentes, como a causa de Kosovo livre. Livre de cristãos, claro... os últimos Judeus partiram em 2000.
Filipe d'Avillez
© SNPC - Publicado em 22.08.2007
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Sinagoga de Bagdad