
O real e o verdadeiro
A falácia hegeliana de que o real é o verdadeiro assemelha-se com toda a exactidão ao equívoco de impor a um dramaturgo que as palavras e as acções das suas personagens dramáticas sejam as suas próprias palavras e acções. A única [coisa] sustentável é que aí onde Deus – se se me permite expressar-me assim – decide querer fazer literatura, não o faz, contra a opinião do paganismo, para passar o tempo. Não, não; o grave está justamente em que o querer amar e ser amado é a paixão de Deus; quase – amor infinito! – como se estivesse amarrado ele mesmo a essa paixão, quase como se isto fora uma debilidade, embora seja a sua força, o seu amor omnipotente; até ao ponto de que o seu amor não está submetido a qualquer mutação.
Dá-se um absurdo desconcertante em todas as categorias humanas aplicadas ao Homem-Deus, pois pudera falar-se de forma totalmente humana acerca de Deus e dir-se-ia que as palavras “Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?” encerravam impaciência e falta de verdade. Só se é Deus quem as diz podem ser verdadeiras; por conseguinte, também se as disse o Homem-Deus. E, por serem verdadeiras, verdadeiro é também o cume da dor.
A relação com Deus é obviamente um peso de felicidade de tal modo enorme que, caso eu o compreenda, a minha felicidade é absoluta no sentido mais absoluto; pelo contrário, ela torna-se mais pequena mediante esta comparação mundana de que os meus inimigos devem permanecer excluídos.
Sören Kierkgaard
Diários
[cit. in Hans Urs von Balthasar, Teodramática, (vol. 5, El ultimo acto), Ediciones Encuentro, Madrid, 1997, p. 9.]
RF
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