
Opção pelos carenciados
Há pouco a Comissão Nacional Justiça e Paz empreendeu uma recolha de assinaturas a enviar à Assembleia da República solicitando que reconheça a pobreza como uma violação grave dos direitos humanos e estabeleça um limiar oficial da pobreza em função do nível de rendimento nacional e das condições de vida da sociedade. Porquê? Significa isto um confronto com o Governo e as suas políticas que parecem ignorar esse mar de sofrimento e dor? Pelo menos representa um acto de coragem, de justiça e humanidade que se impõe como parte da sua missão e do princípio do pensamento social da Igreja da “opção pelos mais carenciados”.
Portugal é um país com fortes clivagens sociais sendo, de acordo com o último Relatório do Desenvolvimento Humano da ONU, o país mais desigual da EU. A evidência mostra que as formas de pobreza têm vindo a aumentar, sem que se verifique uma preocupação em lançar programas de combate à pobreza, como tem estado a suceder noutros países da EU.
De acordo com os dados disponíveis, cerca de 1/5 da população portuguesa confronta-se com situações sérias de pobreza. Entretanto este país “campeão das desigualdades”, esbanja dinheiro no crédito às aparências. O alargamento do fosso entre ricos e pobres tem causas estruturais que é preciso atacar, dadas as implicações políticas que envolve, nomeadamente em termos de redução da coesão social.
Não podemos manter-nos indiferentes às carências a que estão sujeitas as camadas mais desfavorecidas. Algumas destas são hoje atacadas de forma meritória por instituições de benevolato. Mas não é possível, só com acções de benevolato, por mais meritórias que estas se revelem, erradicar a pobreza, porque as causas desta só podem ser removidas modificando os factores económicos, sociais e culturais que geram e perpetuam este cancro social.
Xavier Pintado, Professor da Faculdade de Ciências Económicas e Empresariais da Universidade Católica
in Expresso, 08.09.2007
Publicado em 13.09.2007
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