
Religião e Desporto, o outro lado...
Um curto apontamento em “A Bola” de 30 de Março chama atenção para a existência de uma capela dedicada a Nossa Senhora do Rugby, em França.
Sacrilégio? A ideia surgiu depois da morte de três jogadores, amigos do Pe. Michel Devert, em 1963. Aproveitando uma capela degradada, e com a ajuda de donativos de adeptos e equipas de rugby, um pouco de toda a parte, o Pe. Michel reconstruiu a capela, dando-lhe finalmente o nome “Chapelle de Notre Dame du Rugby”.
A ideia é enaltecer os valores mais nobres do desporto, nomeadamente o rugby, prestar homenagem aos jogadores falecidos e servir de local de oração pelos lesionados.
Todos os artigos sobre a capela enaltecem os vitrais que misturam temas desportivos com religiosos. As buscas feitas apenas revelaram uma dessas imagens, na qual se vê um menino Jesus ao colo da sua mãe a lançar uma bola para os jogadores. O interessante, porém, está nos detalhes. Repare-se que cada jogador está equipado de forma diferente, ou seja, omitiu-se a noção de rivalidade / conflito, privilegiando a diversidade na unidade de valores e de objectivos.
A presença de uma pomba com um ramo de oliveira, no canto superior direito é uma clara referência à paz e à concórdia. Características felizmente comuns ao universo do Rugby, mais do que a outros desportos.
Contudo, a ideia de vitrais em igrejas, com temas desportivos não é totalmente nova. A primeira de que temos conhecimento foi dedicada a Duncan Edwards, um dos oito jogadores da equipa do Manchester United falecidos no acidente aéreo de Munich de 1958, e está presente na Igreja de St. Francis em Dudley.
Sempre que se fala de desporto e religião, os exemplos que se vão buscar variam pouco. A gritante e por vezes mortal rivalidade entre Celtic e Rangers na Escócia (que se transpõe para a Irlanda do Norte) e as velhas teorias sociológicas, da forma como a devoção clubística reproduz a devoção religiosa. De vez em quando destaca-se a presença de jogadores evangélicos, normalmente oriundos do Brasil, nas equipas de futebol e durante o Ramadão lá nos lembramos dos jogadores muçulmanos e dos constrangimentos que sentem nos treinos e como isso se reflecte, ou não, nas suas prestações profissionais.
Aproveitando o espectacular apuramento da selecção nacional de Rugby para a fase final do campeonato do mundo, e tendo em conta que após o jogo que lhes deu esse apuramento, disputado no Uruguai, depois dos festejos todos os jogadores se ajoelharam para rezar, fica bem lembrar Nossa Senhora do Rugby e mais este aspecto, perfeitamente incontroverso, que une dois mundos que tanto têm em comum, para o bem ou para o mal.
História da Capela, em Português, disponível aqui.
Filipe d'Avillez
© SNPC
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