
Contra a ameça presente
Em 28 de Junho de 1927, no grande auditório da University College em Londres Gilbert Keith Chesterton fez um dos discursos que, entre os seus biógrafos e admiradores, é tido como dos melhores. Recorde-se que este discurso foi feito em 1927 e que Chesterton recusou, nessa altura, que a ameaça maior à civilização fosse a colocada pelos bolcheviques. Noutros textos e discursos, pode também retirar-se que Chesterton conhecia e antecipava o perigo alemão, então (re)nascente. No entanto, e embora os conhecesse, entendia que outro era o maior perigo que a nossa civilização enfrentava:
“O género de coisa que vos quero sugerir é algo com existência própria, ou pelo menos capaz de surgir por si próprio (…). Suponho que o seu nome mais simples é ‘vulgaridade’ (…). Para abreviar, o perigo de que vos advirto não é o da democracia em excesso, nem da fealdade em excesso ou da anarquia em excesso. Pode ser descrito assim: é o do nivelamento feito por baixo.”
A clarividência destas palavras e a tristeza de reconhecer que a profecia está realizada esmaga-nos hoje. Não é alto, de facto, o padrão instalado no discurso cultural actual (de um modo tal que torna difícil o empregar em sentido próprio da palavra cultura).
Talvez por isso seja surpreendente que, ainda hoje, umas quantas pessoas se reúnam numa sala e estejam durante uma ou duas horas, em silêncio, a ouvir aquilo que outras têm para lhes tocar.
É isso que vai acontecer nos próximos dias 20 e 21 de Janeiro, no grande auditório da Fundação Calouste Gulbenkian. A Orquestra de Câmara da Europa, o Coro Gulbenkian, o maestro Thomas Hengelbrock, a soprano Johannette Zomer e o barítono James Creswell vão deleitar aqueles que lá se apresentarem com o requiem alemão (Ein deutsches Requiem), de Johannes Brahms.
Não se trata de um requiem convencional, porque os textos foram escolhidos pelo próprio Brahms de entre as Sagradas Escrituras, fora do cânone aplicável a este tipo musical. Mas a força e beleza da música e a riqueza das passagens escolhidas oferecem uma introdução muito sugestiva ao período litúrgico que se aproxima. Deixamos aqui o último movimento (Ihr habt nun Traurigkeit), para que se possa antecipar, ou saborear, mais um episódio desta luta contra a ameaça presente.
Mais informações no Serviço de Música da Fundação calouste Gulbenkian.
Francisco Mendes Correia
© SNPC - Publicado em 15.01.2008
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Johannete Zomer