
O que resta do dia - Judith Herzberg
Por ocasião do lançamento de "O que resta do dia", antologia de Judith Herzberg (Cavalo de Ferro) e da reposição de "A Fábrica de Nada" (Teatro Municipal de Almada), Jorge Silva Melo lerá alguns poemas da autora, na sua presença e na da tradutora Ana Maria Carvalho Lemmens. Dia 14 de Janeiro, no Pequeno Auditório da Culturgest, Lisboa, às 18h30; entrada gratuita - levantamento de senha de acesso 30 minutos antes do início da sessão, no limite dos lugares disponíveis.
Judith Herzberg nasceu em Amsterdão em 1934. Começou a publicar poesia no início dos anos 60. É também autora de ensaios, argumentos cinematográficos, peças de teatro e várias traduções. Recebeu vários prémios e tem peças traduzidas em alemão, inglês, português, francês e italiano. Disse uma vez: “Evito afirmações moralistas nas minhas peças. Tento que o público possa experimentar a mesma confusão que eu, quando observo a realidade.”
Os poemas desta edição, seleccionados pela própria autora, abrangem exclusivamente os primeiros vinte anos da sua vasta e importante carreira poética.
Caixas
Porque durante a guerra nos falavam sempre
de antes da guerra, de como todos eram todos
ingénuos, tenho agora o máximo cuidado,
ao deitar qualquer coisa fora, por exemplo,
uma caixa de papelão, peço a Deus
para que a caixa não volte nunca
a assaltar-me em forma de remorso;
lembras-te ainda como nós, despreocupados,
deitávamos fora caixas sem pensar!
Se tivéssemos guardado pelo menos uma,
se tivéssemos guardado pelo menos uma.
Escreve Jorge Silva Melo:
E desatei a ler esta poesia leve, em que cai a sombra dos dias e os pesadelos da memória, a leveza das lembranças também, anotações que serão, para que nada esqueça, para que alguma coisa se salve, a poesia será "o que resta do dia", na expressão tão pertinente que foi colher a Freud. E a ela, que tanto gosta da lentidão, do correio por via marítima (título da sua primeira recolha), tenho-a lido devagarinho, há sete anos que a vou lendo, afinal, sem atropelo, há poetas assim, a sua poesia é lenta, adagio molto.
Culturgest | Cavalo de Ferro
Publicado em 10..01.2008
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